Momento em que os participantes receberam medalhas (foto: Paula Vigneron)[/caption]
Estudantes do curso de Letras do campus Centro do Instituto Federal Fluminense (IFF) promoveram, na noite de ontem (22), a primeira edição do Festival de Contos do Ensino Médio. Para a final, foram selecionados nove textos escritos pelos alunos. Adolescentes entre 15 e 17 anos. Meninas e meninos tímidos. Tive a honra de poder presenciar o evento da mesa dos jurados, composta, também, pelos professores Adriano Moura e Marília Siqueira.
O vozerio indicava o lugar onde aconteceria o concurso: auditório Cristina Bastos. Pessoas de todas as idades e interesses ali se encontravam para acompanhar a leitura dos contos e apresentações musicais dos graduandos, que se alternavam no palco ajustando os últimos detalhes para o começo das atividades. Na véspera, recebi as histórias produzidas por aqueles garotos que são um pouco do que fui.
A correria da rotina da redação não me impediu de, antes da leitura mais atenta, passar os olhos pelas narrativas. À primeira vista, percebi a riqueza dos enredos. Ideias críticas em diálogo com a realidade, que golpeiam o leitor, saídas de mentes tão jovens. Novamente, eu estava entre eles. Porque, anos antes, percorri os caminhos pelos quais os participantes andam. Minha história com a literatura esbarra pela passagem, durante o ensino médio, no então Cefet. Também aos 15 anos.
Após encerrar as atividades no jornal, dediquei o tempo à leitura dos contos. Textos bem construídos, com desfechos incômodos que abordam, em sua maioria, os fatos cotidianos a que estamos lamentavelmente acostumados. E soam como alerta à necessidade de não naturalizar as barbaridades vistas, ouvidas e lidas nos noticiários.
Entre as músicas, o público acompanhou a interpretação dos alunos da graduação. Nove contos que causaram diversas reações na plateia. Murmúrios, respirações descompassadas e atenção constante. Da mesa, observei e compartilhei as sensações. Membros de comissões julgadoras afirmam sempre que é difícil o momento da escolha. Até então, achava que era a repetição de um discurso comum. Mas a breve experiência resultou na comunhão de pensamento.
Três dos nove estudantes foram selecionados. Ganharam prêmio em dinheiro e livros de literatura brasileira. Dois meninos, Leonardo Pinheiro e Théo Dias, e uma menina, Ana Victória Canellas, ocuparam os lugares, envergonhados diante dos aplausos, flashes e cumprimentos. Três jovens que desenvolveram, conforme suas criatividades e vivências, histórias e personagens que poderiam viver entre nós. Três mentes que representam grupos de estudantes para os quais, muitas vezes, podem faltar oportunidades, mas não vontade. E uma noite que despertou perspectivas para novos festivais e a certeza de uma adolescência não alienada.
A fotografia do jornalista estampou a edição 26 da revista Realidade[/caption]
Anda-se, diariamente, ao lado das promessas de vereadores. Espalhadas pela cidade, gritadas por carros, reafirmadas por fogos e jingles clichês. Combinações pensadas para que as canções criem vida própria na cabeça do cidadão. Caminhar por uma rua, no período eleitoral, é se debater com pessoas, pedras, poeira, papéis – oferecendo desde serviços de pais de santo para sorte no amor a palavras de político sobre a possibilidade de um futuro melhor, caso seja eleito. Propagandas quase nunca lidas e descartadas, indiscriminadamente, no asfalto das principais vias.
Os bairros tomados por rostos, números e expressões. Por tentativas de um sorriso simpático ou por olhares sérios para assegurar o compromisso com a população. À frase “porque, no meu mandato...”, segue-se uma enxurrada de ideias, ideologias, críticas ao concorrente, projetos – que, muitas vezes, de antemão, o eleitor compreende a impossibilidade de realização –, mais críticas e novas promessas.
A alguns nomes, são acrescentados cômicos bordões e apelidos para explicar melhor a que vem o proponente: “Candidato da Família”, “Educação é a Solução”, “da Bicicleta”, “do Carro”, “Defensora dos Animais”, “do Povão”, “Gadernal (sic)”, “A hora é agora”, “É Ser Humano”, “Uma Nova Esperança”e “Vai (sic) Dá Zebra”.
O termo “Pastor” antecede o nome de determinados candidatos. Homens e mulheres de todas as idades se misturam em um painel político-religioso banal e, por vezes, conservador ao qual é necessário recorrer para que 359.323 eleitores escolham seus representantes. Entre eles, “Desodorante” também concorre ao cargo. Surgem, também, pedidos de consciência política ao votar. Cuidado ao selecionar o número que teclará nas urnas. Conhecimento sobre propostas.
Mas poucas propostas efetivas são conhecidas. Fala-se em melhorias básicas, como saúde, educação e saneamento. Superficialmente. Vídeos de reuniões veiculam pelas redes sociais, com apoio da sociedade e pedidos de votos. Orações recorrentes a Deus para a conquista da vitória. Fotografias de caminhadas e carreatas.
Em certos momentos, fora do âmbito político, a atuação dos cidadãos soa mais relevante. Diversas pessoas planejam e executam ações para melhorias na cidade. Cultura, meio ambiente e projetos sociais – que sobrevivem mais por amor à causa do que por apoio público, como a ONG Orquestrando a Vida – são preocupações de muitos que optam por permanecer definitivamente distantes da competição eleitoral.
Diante das exigências de consciência política no momento da votação, contraditórias devido à predominância de tantos discursos líquidos e ações isoladas, resta a dúvida sobre a possibilidade de definir com seriedade.
Obra "A persistência da memória" (1931), de Salvador Dalí[/caption]
Meio da tarde. Os pássaros sobrevoam a Praça São Salvador, rodeada por homens, mulheres e adolescentes que, em seus skates, competem em uma realidade quase paralela. Disputam espaços e atenções dos passantes. Poucos se concentram na cena montada por eles. Passam, assim como passam por outros tantos pés, pernas, braços e mãos carentes. Pedintes. Atravessam a rua e encontram o abrigo da história da cidade, com seus apetrechos e guias orientando o passeio. Mas, do lado de fora, eles optam por sua caminhada.
Nas esquinas, bares, cafés, bancos. Novos rostos. Homens, mulheres. Conversam, riem, contam causos e anedotas. Determinados trechos são dominados por pessoas mais velhas que cavam, na memória, as histórias que podem ser partilhadas. As outras permanecem silenciadas, escondidas por trás de olhos que ainda buscam novas experiências. A curiosidade é rapidamente atraída pelos transeuntes, mas logo é desviada por outro chamado para um papo na Rua do Homem em Pé.
A poucos metros dali, uma menina está parada ao lado da saída de um banco. Em sua mão, um pacote de mariolas. Custam centavos. A timidez na abordagem desfavorece a venda do produto. Aproximadamente dez anos. O rosto de criança carrega uma expressão adulta. Cansaço. As pessoas circulam com pressa e nem a olham. Para ser vista, ela entra no local. Aproxima-se. Oferece. Após a recusa, volta ao ponto de origem. Até a hora de ir para casa, continuará à espera de clientes que contribuam com seu trabalho.
Imediatamente, outra criança vaga pelo calçadão, em um tempo passado. Tal como a menina de anos depois, o garoto, mais novo, anda entre os adultos. Mas as mãos estão vazias. Ele procura, entre os que não o notam, alguém disposto a ajudá-lo. No desespero, apela:
- Você pode me dar dez reais? É melhor pedir do que roubar – diz a uma então menina. Em um futuro próximo, a frase continua a ecoar.
Em um sonho, em outra esquina, a moça ainda vê aquele rosto. O menino pequeno, sem identidade, é agora adulto. Como ela. Eles conversam. Ao agora rapaz, é dado um dinheiro para um sorvete. Um homem entrega o presente. Agradecido, aceita. Com carinho, sorri em retribuição.
Conversam, novamente, menina-moça e menino-rapaz. Eles sorriem e se entendem. Trocam abraços. Tornam-se amigos. Na despedida, ele estende a mão e lhe entrega o dinheiro, para devolver ao homem, e um bilhete.
“Não é só disso que precisamos. Busco outra coisa. Quando sigo por essas ruas, tenho diferentes desejos. Menina, o mundo nos dá aquilo que queremos. Só às vezes. Ambicioso, procuro sorrisos, afetos e abraços. Mas nem todos me enxergam. Então, te pergunto, a quem posso pedi-los?”
Ela o encara. A menina se transfigura no menino. A moça, no rapaz. “A quem posso pedi-los?” Ela mexe a cabeça, em negação. Não sabe a resposta. Ele concorda. E, sorrindo, sabiamente, parte em sua caminhada. Mais uma vez.
Foto: Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã[/caption]
Caio Vianna: "O Cepop precisa justificar seu investimento. Precisamos colocar em discussão sua utilização o ano inteiro. Não podemos nos dar o luxo de utilizá-lo apenas em uma Bienal do Livro, Carnaval e mais algum outro evento por ano. Sua manutenção é cara e temos várias prioridades. Para isso, uma comissão composta por Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Conselho Municipal da Cultura e Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico se reunirá para apresentar uma proposta de viabilidade do Cepop em 90 dias."
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Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã[/caption]
Dr. Chicão: "Apesar da crise, temos sim mantido uma política de promoção e desenvolvimento cultural como jamais foi implementado em Campos. Claro que na medida em que houver recuperação de receita no município, vamos incrementar o Programa de Valorização da 'prata da casa', e estaremos ampliando as publicações de obras dos nossos autores.
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Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã[/caption]
Geraldo Pudim: "Campos guarda consigo muitas tradições. É uma cidade histórica. O carnaval não pode continuar sendo tratado da maneira como está. Vou debater com a sociedade civil organizada e instituições carnavalescas sobre o melhor período para a realização do carnaval de Campos. Por outro lado, penso que cada vez mais temos que investir também na profissionalização do carnaval de Campos, promovendo cursos para as escolas de samba, fazendo intercâmbio com profissionais do carnaval carioca, por exemplo. Outro aspecto é a capacitação em projetos de maneira que nossos produtores do carnaval possam captar recursos não só via Prefeitura, mas através da iniciativa privada."
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Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã[/caption]
Nildo Cardoso: "Temos propostas para a melhor utilização do espaço e maior divulgação das exposições. O Museu Histórico de Campos poderia receber eventos culturais de nível nacional, levando nossa cultura para todo o estado do Rio Janeiro. Hoje, o espaço é subutilizado, quando poderia, por exemplo, estar sendo utilizado por instituições de ensino do nosso município, como o Instituto Federal Fluminense, que oferta o curso de Licenciatura e Teatro e promove dezenas de eventos culturais."
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Foto: Michelle Richa/ Folha da Manhã[/caption]
Rafael Diniz: "No início deste ano, em apenas dois meses, o governo Rosinha gastou cerca de R$ 170 mil com fogos de artifício. Nesta mesma época, o Teatro de Bolso estava fechado, e o conserto do sistema de ar condicionado não ficaria por mais de R$ 150 mil. Ou seja, o que faltou até agora não foi dinheiro, mas vontade de devolver o Teatro de Bolso aos artistas da nossa terra. Assumo o compromisso de reabrir e devolver o Teatro de Boldo aos artistas locais. Trata-se de um palco importante, que também irá abrigar as nossas oficinas de teatro, entre outros cursos."
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Foto: Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã[/caption]
Rogério Matoso: "Em relação ao Teatro Trianon, ele tem que ser mais acessível ao campista. É um dos maiores e melhores teatros do país, mas não é justo levar para o local somente peças de fora a custos absurdos. Nosso povo tem que usar esse espaço. Tem muito campista que sequer conhece o interior do Trianon. Temos vários artistas que poucas vezes se apresentaram no espaço ou nunca se apresentaram. Podemos fazer eventos, reunindo música, poesia e teatro dentro do Trianon, com entrada gratuita. Essas ações valorizam nossos artistas e engrandecem a cultura do nosso povo."
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O atual presidente do Brasil, Michel Temer (foto: UOL)[/caption]
Vozes, histórias, opiniões em todos os cantos. Por trechos de ruas, o barulho de ansiedade demonstra o medo do momento. Balbúrdias. As pessoas caminham como se não soubessem exatamente para onde seguem. Nas mesas dos bares, em que assuntos como futebol, carros, relacionamentos e, por vezes, religião dominavam os bate-bocas, há notável mudança. Homens e mulheres, de todas as idades, conversam, concordam e discordam sobre o que está sendo feito de nós, sem que precisemos dormir como pedra.
A cada dia que passa, os noticiários despejam sobre leitores, ouvintes e telespectadores mais e mais fatos relacionados ao novo momento político pelo qual passa o Brasil após a saída de Dilma Rousseff e a consequente posse de Michel Temer: possibilidades relacionadas ao fim do sistema de ensino gratuito, mudanças nas leis trabalhistas, na Previdência Social e nos programas sociais. Até o papa Francisco demonstrou preocupação com o atual momento do Brasil, caracterizando-o como triste.
Os efeitos começam a ser sentidos pela população. No bar, o garçom atende, educadamente, os clientes que ocupam uma parte do espaço quase no final do expediente de um sábado à noite. Cansado, o homem oferece o cardápio, anota atenciosamente os pedidos e vaga pelo espaço à procura de novas mesas que ainda não foram atendidas.
No final da noite, ele é novamente chamado. Desta vez, para trazer a conta. O valor, dividido entre os três presentes, não foi o mais absurdo. Mesmo assim, entre comentários, eles brincam:
- Para você, deu só R$ 2.100. Barato – diverte-se o garçom.
- Não faça isso. Nem brinque. Não tenho nem condições de pagar isso, moço – respondeu uma das clientes.
- Ah, mas não se preocupe. Tem um monte de pratos ali que precisam ser lavados – e todos riram antes de um pedido de desculpas verdadeiramente envergonhado.
Após o pagamento, o garçom compartilha um pouco de sua vida com os amigos: ele está fora de sua área de origem – Segurança do Trabalho – há meses e tem trabalhado na função para poder custear as despesas.
- As contas não param de chegar. Esses dias, de manhã, chegou o rapaz dos Correios com elas. E a gente tem que pagar. Estou há mais de seis semanas sem saber o que é descanso. Trabalho como garçom nos finais de semana e estou começando um estacionamento no Centro, mas está fraco – contou.
O homem, cujo nome não foi citado, é o retrato do Brasil atual; do medo das mudanças e da instabilidade; da necessidade de buscar outros meios de sustentação e manter em dia todas as contas; da falta de oportunidades, mesmo para aqueles que conseguiram diploma – papel que, antes, dava certa garantia a quem o tinha –; do não saber se amanhã será um novo dia.
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Fotógrafo Sérgio Andrade foi atingido em manifestação (foto: reprodução/ RBA)[/caption]
Uma das mais enganadoras percepções sobre o jornalismo está relacionada à ideia de que a profissão é uma etapa de um processo de celebrização. A forma errônea de idealização permeia a cabeça de jovens interessados na área – e até mesmo a de estudantes da graduação. Só o cotidiano de ruas e redações, que levam o jornalista a passar por diferentes experiências durante o exercício de sua função, é capaz de conscientizar e alertar sobre a importância da comunicação e a necessidade de vê-la de modo menos romantizado; de compreendê-la como um mecanismo para manter em funcionamento todas as instâncias da sociedade.
É necessário, portanto, conhecer e entender os percalços pelos quais passam o profissional da imprensa para colher e compartilhar as principais informações do dia com os consumidores de notícias. Necessário até mesmo para avaliar e opinar sobre sua forma de atuar perante a sociedade. Durante as “Jornadas de Junho”, em 2013, quando cobria uma manifestação do Movimento do Passe Livre (pela gratuidade do transporte público), em São Paulo, um fotógrafo foi atingido por uma bala de borracha, disparada por um policial militar. Sérgio Andrade da Silva ficou cego devido ao impacto do objeto. Sua história resultou no livro “Memória ocular”, de Tadeu Breda.
Depois de mais de três anos, na segunda metade de agosto, a Justiça considerou “improcedente o pedido de indenização por danos morais e materiais” porque Sérgio “colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer”. O caso foi comentado, na última segunda-feira (29), pela colunista
Cantor e compositor, Rômulo Gomes apresenta "Entre amigos" (foto: divulgação)[/caption]
Há quem acredite que a cultura em Campos esteja morrendo. Mas, por sorte, existem aqueles que mostram o contrário: bastam iniciativa, paixão e oportunidade para fazê-la funcionar. E, como comprovação, o músico campista Rômulo Gomes, 