'Charlie Hebdo' e os atentados terroristas
18/11/2015 | 12h50
[caption id="" align="aligncenter" width="400"]Capa da edição que vai às bancas nesta quarta-feira (18) do semanário satírico francês "Charlie Hebdo" "Eles têm armas. Eles que se f..., nós temos champagne!"[/caption] O jornal satírico "Charlie Hebdo", alvo do ataque terrorista que dizimou a redação em 7 de janeiro de 2015, vai às bancas hoje, quarta-feira (18) e faz uma provocação direta aos terroristas na capa do especial sobre os atentados que mataram 129 pessoas em Paris, na última sexta-feira (13). A capa, assinada pela desenhista Coco, mostra um homem em atitude festiva, garrafa e taça de champanhe na mão, com o corpo repleto de buracos de bala por onde escapa o vinho espumoso, sobre o fundo vermelho. "Sem perceber, os parisienses em 2015 se transformaram nos londrinos dos anos 1940, determinados a não se render ao medo, não importa o que seja. É a única resposta que nós podemos mostrar aos terroristas", disse o cartunista Riss, atual editor-chefe da publicação. O desenho é uma referência direta aos ataques terroristas da semana passada: todos em lugares vinculados ao lazer, como a casa de shows Bataclan, o Stade de France e bares e restaurantes, que deixaram 129 mortos e 400 e tantos feridos. "Imaginávamos que aos atentados de janeiro se seguiriam outros. Esperávamos, resignados, que nos caísse sobre a cabeça, como um espada de Damocles", indica o desenhista e atual diretor da publicação, Riss, no editorial da revista que estará nas bancas. O diretor da publicação pediu que "não cedam, nem ao medo nem à resignação. É a única resposta possível". Em outra charge publicada no site da revista, Charlie Hebdo mostra três fantasmas com boinas pretas e baguetes, uma alusão ao modo de vida francês, com a frase: "Os franceses retornam à vida normal". A publicação se distingue por críticas aos extremismos religiosos de todo tipo e foi alvo dos ataques terroristas por ironizar em diversas edições o profeta Maomé. Após o atentado de janeiro, Charlie Hebdo retornou às bancas com uma capa em que Maomé aparecia chorando e a manchete "Tudo está perdoado". Na imagem, o profeta segurava um cartaz que reproduzia o slogan popularizado após essas ações, "Je suis Charlie".
Comentar
Compartilhe
Bastão
08/09/2015 | 05h20

O que os "selfies" revelam sobre o mundo atual

Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, em 30/08. Vale a leitura! RESUMO Mais que mera versão atualizada do consagrado gênero do autorretrato, os "selfies" se impõem como signo da revolução digital. Ironicamente, em um mundo marcado pela alta tecnologia, o homem contemporâneo tem como "gadget" favorito um tosco bastão, cujo benefício último é dispensar a interação com estranhos.
"Autorretrato em Espelho Convexo" (1524), de Girolamo Francesco Maria Mazzola, mais conhecido como Parmigianino
"Autorretrato em Espelho Convexo" (1524), de Girolamo Francesco Maria Mazzola, mais conhecido como Parmigianino
Mesmo os pouco observadores devem ter notado um novo aparelho na temporada de férias. Tecnologia de ponta? Só no sentido mais estritamente literal. Neste ano, o "pau de selfie", monopé que permite tirar autorretratos, conquistou o mercado dos viajantes. Não deixará de surpreender que em pleno 2015 o homem tenha redescoberto a utilidade tecnológica de um bastão. Na pré-história, o homem vagou pelos bosques apoiando-se nele; milhares de anos depois, a moda volta, de forma distorcida: o instrumento que servia para conectar o homem com o que estava sob seus pés –a terra– e o apoiava, literalmente, para abrir passo pelo mundo se converteu em uma ligação com o mundo superior. Se eu não me vejo, como sei que existo? Esse novo cajado nos permite uma perspectiva aérea da existência. O filósofo alemão Peter Sloterdijk explica que aquilo que nós entendemos por tecnologia é uma tentativa de substituir os sistemas imunológicos implícitos por sistemas imunológicos explícitos. Em nossa época, os sistemas de defesa que criamos procuram nos isolar de um exterior que se nega a ceder à tendência individualista da sociedade. Por isso andamos de um lugar a outro sem renunciar nunca a nosso mundo: nos transformamos em uma sociedade de caranguejos-eremitas, carregando no lombo nossas casas. Sentados entre centenas de passageiros, nos protegemos, com nossos fones de ouvidos, celulares e vídeos, do encontro com o exterior. Agora, o "pau de selfie" nos permite tirar fotos sem a incômoda necessidade de interagir com estranhos. Nos transformamos em seres autossuficientes e, em decorrência disso, necessariamente antissociais. A máxima ironia do mundo globalizado é a crescente insularidade do indivíduo. Como o exterior é impessoal, nos embrenhamos no interior; como a comunidade nos debilita, a individualidade se torna preponderante; é assim que a casa familiar dá lugar ao apartamento individual –e a autogamia moderna surge. O grande balão da globalização explodiu em milhares de bolhas comprimidas, que voam juntas, sem, no entanto, se roçarem. O fenômeno do "selfie" responde a essa condição insular e por isso se arraigou como a manifestação estética da revolução digital. O isolamento do indivíduo é tal que, liberto do voyeurismo, teve de conceber um autovoyeurismo: nos tornamos paparazzi de nós mesmos. O "selfie" procura esconder nossa natureza isolada e solitária sob o verniz da felicidade e do gozo. ORIGENS As origens mais remotas do fenômeno, contudo, expõem sua natureza. Em 1524, o pintor italiano Parmigianino (1503-40) se autorretratou com o auxílio de um espelho convexo. O efeito é alucinante: mais que um autorretrato, a pintura de Parmigianino é uma indagação a um mundo interior atormentado. O olhar do autor é sereno, mas incômodo, mais adequado ao mundo das "hashtags" que ao da pintura renascentista. Séculos depois, em outubro de 1914, aos verdes 13 anos de idade, a princesa Anastácia da Rússia subiu em uma cadeira em frente a um espelho e fotografou seu reflexo. O resultado causa calafrios: a princesa lembra um fantasma. Ambas as imagens ressaltam a condição solitária do "selfie". A discussão sobre o significado desse fenômeno tem muitas vertentes. O "selfie" já foi explicado como uma ferramenta de "empoderamento", como vão narcisismo ou como um desesperado grito de ajuda lançado ao vazio da aldeia digital. Outros sugeriram que se trate das três coisas ao mesmo tempo. Um pedido de atenção em um mundo onde a atenção equivale ao poder. O "selfie", no entanto, tem também um sentido de autoconstrução. Permite ao indivíduo moldar a narrativa de sua vida e, assim, nos transformou em promotores de nossa própria marca. Não se trata simplesmente de que o indivíduo queira ostentar a "perfeição" de sua vida, mas de ele mesmo querer acreditar em sua invenção. O "selfie" permite adequar a realidade a suas próprias expectativas. Em um mundo altamente tecnológico, o "pau de selfie" se destaca pelo aspecto tosco. Os que esperavam carros voadores e lentes multifuncionais se viram decepcionados pela realidade: o invento mais popular do ano é um bastão. Atrás dessa aparente simplicidade, porém, se esconde uma revelação profunda sobre o mundo contemporâneo. Como o velho cajado que amparou nossos antepassados, o "pau de selfie" nos oferece segurança diante de um mundo perigoso. Não é só a nossa proteção no isolamento mas uma resposta a essa angústia do ser humano contemporâneo –a de constatar sua própria existência.

Texto de EMILIO LEZAMA, 28, escritor, diretor da revista "Los Hijos de la Malinche" (loshijosdelamalinche.com) e colabora com textos sobre comunicação global e política em jornais dos EUA, México, Espanha, França e Brasil.

Tradução de FRANCESCA ANGIOLILLO, 43, editora-adjunta da "Ilustríssima", Folha de São Paulo.

Comentar
Compartilhe
Tão bonito quanto abandonado
28/08/2015 | 08h27
Creio que os leitores o localizarão na paisagem urbana de Campos. Largado, cheio de rachadura, relógio estragado, mato crescente a fazer com que a infiltração corrompa ainda mais a estrutura. Perdido por trás do tapume de uma duvidosa obra em que a Prefeitura de Campos  - de costas aos anseios da sociedade e da unanimidade dos setores culturais  - teima em realizar. E o irônico da situação, a PMCG meteu os tapumes, não os retira, não realiza e deixa os rastros do abandono aumentarem, quiçá como uma aposta no quanto pior melhor para depois amealhar o alívio momentâneo da população pela conclusão. Prática caduca desse governo local trôpego. Inicia obras sem caixa, arrogantemente sem discutir com a sociedade, em um mero orçamento de papel. EITA CAMPOS!
Comentar
Compartilhe
Fantasmas pululam
18/08/2015 | 07h08
Em momentos de crise política, do simples aceno de um incerto vazio no poder, surgem as cassandras, não a verdadeira Cassandra que de fato profetizou a destruição de Tróia pelos gregos. São as velhas e ultrapassadas cassandras da política brasileira, falsas anunciações. Há quem defenda a volta do regime monárquico e tira proveito de um ajuntamento qualquer. Após rechaçar protestos de 2013, Casa Imperial conclamou seguidores a protestarem no último domingo. Há aqueles saudosistas de uma ditadura militar, douram o defunto do "Brasil ame-o ou deixe-o" de triste memória, querem mais é ver o circo pegar fogo. 3 E mais imagens da famigerada intolerância tupiniquim. fora-stf   manifestações impeachment dilma   Lula e Dilma enforcados Em entrevista à Agência Estado, o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor da cadeira de Ética e Filosofia Política da USP, defendeu que a pregação da ditadura militar deveria ser criminalizada. “Estamos tendo no Brasil uma tolerância, que é grande, com condutas antidemocráticas que deveriam ser tipificadas como criminosas… Pregar a volta dos militares deveria ser crime, deveria levar a pessoa para a cadeia. Vários países da Europa criminalizaram a pregação nazista. Nós – que tivemos uma ditadura militar – deveríamos criminalizar a pregação da ditadura”, afirmou o filósofo.  
Comentar
Compartilhe
Em meio à crise política: uma análise das causas primeiras
10/08/2015 | 11h45
    [caption id="" align="alignleft" width="314"] Frei Beto[/caption] Folha - Estão convocando mais uma manifestação contra Dilma para o dia 16. A principal pauta, ou uma das principais, é o impeachment de Dilma. O que acha? Frei Betto - Eu acho que manifestação é sinal da democracia. Pena que a esquerda aprenda com a direita algumas coisas ruins que a direita faz. Deveria aprender as coisas boas –as poucas coisas boas– que a direita faz. Como convocar manifestações para domingo, não para o dia de semana, o que a esquerda tem feito [uma outra manifestação, com apoio do PT, deve ocorrer no dia 20, uma quinta]. Dia de semana? Uma burrice. Atrapalhando o trânsito, como naquela música do Chico Buarque. Não tem sentido, né? Faz no domingo, não tem escola, as pessoas podem sair de casa, estão disponíveis. Pena que a esquerda não aprenda com a direita as coisas boas. E o impeachment? Olha, a minha pergunta íntima hoje não é o impeachment. Eu acho que democracia brasileira está consolidada, não há motivo para impeachment. A minha pergunta é outra. É se a Dilma, pessoalmente, aguenta três anos pela frente. Eu temo que ela renuncie. O senhor tem algum sinal disso? Não. É puramente subjetivo. Mas temo que ela renuncie. Ou ela tem uma mudança de rota ou eu me pergunto se ela vai aguentar o baque psicológico de três anos e meio [pela frente] com menos de 10% de aprovação, com 71% dizendo que o governo é ruim ou péssimo. Isso é um sinal de que você não está agradando nada. Não adianta fazer cara de paisagem. Alguma coisa tem de ser feita. Ou ela dá uma mudança de rota, muda a receita do ajuste etc., ou ela pega a caneta e fala "vou pra casa, não dou conta". Eu tenho esse temor. Há um relato, publicado anos atrás pelo jornal "Valor", de que no auge da crise do mensalão, em 2005, a Dilma, ministra da Casa Civil, teria sugerido ao Lula que renunciasse. Eu não acredito nisso. Até porque o Lula saiu com 87% de aprovação. Depois, né? Naquele instante, quando Duda Mendonça foi à CPI dizer que tinha sido remunerado no exterior com dinheiro de caixa dois do PT, ninguém imaginava que o Lula iria recuperar a popularidade do jeito que recuperou. É... Se isso é verdade [a sugestão de Dilma para Lula renunciar], reforça o meu receio. No cenário atual, que combina crise política com estagnação econômica, denúncias de corrupção e baixa popularidade de Dilma, o que mais atormenta o senhor? O Brasil está vivendo uma notória insatisfação, não só com o governo. Insatisfação com a falta de utopias, de perspectivas históricas, de ideologias libertárias. Desde 2013, quando houve aquela grande manifestação atípica. Porque não houve nenhum partido, nenhuma liderança, nenhum discurso [em junho de 2013]. E foi uma enorme manifestação em que as pessoas protestavam, havia protesto, mas não havia proposta. Isso chamou muito a minha atenção. E quando –isso é até terapêutico– a gente entra em amargura e não vê solução, não vê saída, a gente não consegue equacionar racionalmente o que está vivendo. Não consegue buscar as causas e as perspectivas. Fica tudo no emocional. Eu tenho dito a amigos que a minha geração viveu grandes divergências políticas na ditadura, mesmo entre a esquerda, divisão se siglas de A a Z. Mas o debate era racional. Debatia-se em cima de projetos, programas, perspectivas históricas. Hoje, o debate é emocional. É como briga de casal em que o amor acabou. Equivale a acelerar o carro no atoleiro de lama: quanto mais acelera, mais se afunda na lama. Estamos vivendo isso. E o governo? O governo, que eu considero o melhor de nossa história republicana –os dois do Lula e o primeiro da Dilma– teve grandes méritos, como a inclusão econômica de 45 milhões de brasileiros; e teve grandes equívocos, como a não inclusão política. Ao contrário do que a Europa fez no começo do século 20, o governo do PT propiciou, ao conjunto da população brasileira, acesso aos bens pessoais, quando deveria ter iniciado pelo acesso aos bens sociais. A metáfora que utilizo é o barraco da favela. Ali dentro a família tem computador, celular, toda a linha branca, fogão, geladeira, micro-ondas, e, no pé do morro, tem um carrinho, devido à facilidade do crédito. Mas a família está na favela. Não tem saneamento, não tem moradia, não tem transporte, não tem saúde, não tem educação, não tem segurança. Resultado: criou-se uma nação de consumistas, não de cidadãos. O senhor falou em melhor governo da história republicana e mencionou os dois mandatos do Lula e o primeiro da Dilma. E o segundo da Dilma? Esse segundo, até agora, eu não tenho nenhuma notícia boa para dar. Eu não sei o que de positivo a Dilma fez de janeiro para cá. Gostaria que alguém dissesse. O ajuste é necessário? É necessário. Mas o ônus é só sobre o trabalhador. E fica a dúvida se vai dar certo. É um país com um mercado interno fantástico, mas que mantém a síndrome colonial de que a gente tem de ser exportador de matéria prima, que deram o nome agora de commodities. Equívocos. E o governo terceirizou a política para a troica do PMDB –Temer, Cunha e Renan– e terceirizou a economia nas mãos de um economista, o Joaquim Levy, notoriamente um eleitor do Aécio Neves. Realmente fica difícil de acreditar que esse é um projeto do PT. Nunca fui militante do partido, devo dizer isso. Também não sou fundador, como alguns dizem por aí. Sempre fui eleitor. Mas nas últimas eleições eu tenho dividido meu voto entre PT e PSOL. O governo Lula foi um dos mais populares da história, e Dilma foi reeleita há menos de um ano. Por que o humor mudou? Agora as pessoas estão com muita raiva porque não podem mais viajar de avião como estavam viajando; comprar ou alugar um melhor domicílio, como estavam fazendo; adquirir crédito sem juros altos; ir à feira com R$ 20 e voltar com a sacola cheia. Então a falha foi de quem? Na minha opinião, a falha foi do governo que tinha a faca e o queijo na mão para poder realizar aquele projeto mais original do PT, que era organizar a classe trabalhadora. Leia-se: dar uma consistência política à nação brasileira, principalmente às novas gerações. Isso não aconteceu. Por que, na sua interpretação, as coisas sob o PT se desenvolveram dessa forma, a opção pela promoção do consumo, e não da outra? Porque o PT perdeu o horizonte histórico. O horizonte que ele tinha nos seus documentos originários. De transformação, de realizar as reformas relevantes. Mas em que instante isso se perdeu? Ah, no momento em que chegou ao poder. Foi quando ele trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Manter-se no poder passou a ser mais importante do que realizar as reformas importantes e necessárias para o país. Como a reforma agrária, a tributária, a educacional, a sanitária etc. Em 12 anos, a única reforma que nós temos é a anti-reforma política do Eduardo Cunha (atual presidente da Câmara). Por quê o PT não fez essas reformas? É porque tinha medo de perder aliados, não soube assegurar a governabilidade pelo andar de baixo. Procurou assegurar pelo andar de cima. Se tivesse seguido o exemplo do Evo Morales (presidente da Bolívia), que hoje tem 80% de aprovação, é o segundo presidente mais aprovado da América Latina, depois do presidente da República Dominicana. No início ele não tinha apoio nem do mercado nem do Congresso; buscou assegurar a governabilidade por meio dos movimentos sociais. Hoje ele tem apoio dos três. Teve medo de adotar esse caminho? Foi uma estratégia equivocada de se manter no poder. "Vamos fazer aliança com quem tem poder, nós estamos no governo". Uma coisa é estar no governo, outra é estar no poder. Isso deu certo por um tempo. Só que há uma questão aí de classe que é arraigada na estrutura social brasileira. E de repente os setores conservadores, vendo que não há proposta, vendo que não há perspectiva histórica, resolveram avançar. É este instante. Até o Lula foi vítima agora. Não de um atentado político. Mas de um atentado terrorista. Isso [uma bomba lançada no Instituto Lula dias atrás] é um atentado terrorista. Jogar uma bomba em cima de um domicílio que está carregado de simbolismo político é um atentado terrorista. Se isso estivesse acontecido na sede do partido Democrata dos Estados Unidos –ou no escritório do Bill Clinton (ex-presidente dos EUA), uma boa comparação– no dia seguinte o mundo inteiro estaria dizendo: "Bill Clinton sofre atentado terrorista". Evidente que a imprensa brasileira não quis dar destaque, uma certa imprensa. Por um lado alguns chegaram a insinuar que o próprio PT teria feito essa bomba para tentar vitimizar o Lula e o partido. O mais grave é isso. Não se deu o devido destaque talvez porque não interessa. Só interessa que o Lula venha a aparecer como o acusado da Lava Jato, não como vítima de um atentado terrorista. O senhor é amigo do Lula, tem essa relação histórica. Virou alvo de hostilidades? Uma coincidência. Eu fiz dois lançamento de livro na última semana, um no Rio, na segunda, e outro em Belo Horizonte, na terça. Nos dois o pessoal da direita foi lá para perturbar. O que fizeram? No Rio foi um oficial de corveta da Marinha, segundo ele, dizer que estava me levando um abraço do Olavo de Carvalho. Eu disse: "Abraço de urso, pode devolver". Olavo de Carvalho considera a Rede Globo comunista; o papa Francisco, então, não é nem comunista para ele, é a encarnação do diabo. E no fim o cara já estava dizendo "ah, você é um frade de araque". Aí eu falei que não admitia, falei "ponha-se para fora daqui". Então os amigos, as amigas principalmente, enxotaram o cara. Em Belo Horizonte foi o pessoal do movimento patriota, com cartazes anti-comunistas e um livro pesadão chamado "O livro negro do comunismo". Foram para aprontar, mas ali também a turma, meus amigos de lá, intervieram e eles não conseguiram fazer. Ex-ministros foram xingados em restaurantes também... Exatamente. Estamos vivendo uma onda raivosa. É por falta de consciência política da nação, de conscientização. Os partidos viraram partidos de aluguel, a política se mediocrizou e a Lava Jato está expondo os poderes de como se move o poder no Brasil, entre as benesses políticas e as conquistas econômicas. O senhor disse que o PT, ao chegar ao poder, não seguiu o que diziam seus textos originais. O senhor classifica isso como uma traição? Não. Não é traição. Não? Não. Eu considero isso um desvio de rota. O senhor disse que não aplicou os textos originais. Sim, é isso que eu falei. Mas traição, para mim, é outra coisa, é uma palavra que tem um peso muito grande, não se adequa ao que estou dizendo, ao meu discurso. O que considero é que houve um desvio de rota. Trocou-se o projeto de Brasil, uma mudança de estrutura. Trocou-se a reforma agrária e outras, que eram consideradas prioritárias, por um projeto de preservação no poder. Aquilo que o próprio Lula chegou a dizer na reunião com religiosos. Eu não estava nesse reunião. Ele disse: "o PT só pensa em cargos". Ele disse a mesma coisa, mas em outras palavras. Isso eu analisei em dois livros, "A mosca azul" e "O calendário do poder". Foi o meu balanço. E o que seria uma traição? Eu não sei porque você está falando em traição. Ué, o senhor disse que não considera uma traição. No seu entender, o que configuraria uma traição? Traição seria se o PT tivesse... chamado o FMI para administrar o Brasil. Sei lá. Se tivesse priorizado as relações com os Estados Unidos. Se tivesse deixado de fazer a Comissão da Verdade. Eu li recentemente que o senhor teve uma conversa longa com o Lula... Sou amigo do Lula, sou amigo da Dilma. Sim, mas o senhor colocou para eles desse jeito? Claro, desse jeito. Eu coloco publicamente. Eu fui lá conversar com a Dilma em 26 de novembro, com Leonardo Boff e outros. Entregamos um texto nas mãos dela. Ficamos 1 hora e 10 minutos. Estava ela e [Aloizio] Mercadante (ministro da Casa Civil). E como eles reagem a esse tipo de crítica? Eles aceitam. Agradecem: "obrigado por vocês terem vindo aqui, vamos ver se podem voltar em seis meses para conversar". Mas fica nisso. E depois fazem tudo diferente. Sabe? O que você quer que eu faça? Deite e chore? Foi uma conversa ótima. Aí ela aceitou tudo aquilo, a gente falando da importância de reforma agrária, de quilombos, de povos indígenas, o papel da mulher, programas sociais, não poder fazer cortes em setores como educação e saúde. Aí respondem tudo: "é, é isso mesmo, também estou pensando..." E está lá. O texto está lá, tenho decorado na minha cabeça. Eu tenho uma boa relação com os dois [Dilma e Lula]. Eu falo tudo. Eles aceitam. O Lula também. Às vezes fala que a culpa de não é dele, a culpa é não seu de quem, é do partido, é da Dilma, é da conjuntura; e aí também fala "mas a gente também fez...". E continua tudo igual? Eu tenho uma vantagem que é seguinte: eu sou um um sujeito que tem poucas vaidades. Uma delas é ambição zero. Aliás eu lembrei isso pro Lula. Eu falei: "Lula, você me conheceu em 1979, o padrão de vida que eu tinha é o padrão de vida que eu tenho. Eu moro no mesmo quartinho no convento, se você quiser eu te mostro, moro no mesmo lugar, tenho o mesmo carro Volkswagem, enfim, não mudei nada. Agora, eu fico espantado com companheiros que a gente conheceu lá atrás e que hoje tem um... sabe?". Então teve um descolamento da base. O PT perdeu os três grandes capitais que ele tinha. Que eram ser o partido dos pobres organizados –porque hoje ele tem eleitores, não tem militantes, ele tem de pagar rapazes e moças desocupadas para segurar bandeirinha na esquina, quando tinha uma militância aguerrida voluntária. Perdeu esse capital. O segundo capital que ele perdeu é o de ser o partido da ética. Não é? A ideia do "não seremos como os demais". E o terceiro capital era o de ser o partido da mudança da estrutura do Brasil. Não fez nenhuma mudança estrutural. Fez muita coisa? Fez. Programas sociais; Bolsa Família, embora eu discorde –o Fome Zero era emancipatório, foi trocado pelo Bolsa Família, compensatório–; programas da educação; cota; Fies; uma série de coisas excelentes. Política externa nota 10, na minha opinião, mas sem sustentabilidade. E meio ambiente? Ah, aí faltou muito. Aí eu dou nota... seis. Defesa da Amazônia, não trabalhou suficientemente na questão do meio ambiente. O senhor falou desse espanto da mudança dos ex-companheiros. Como vê, especificamente, o caso do ex-ministro José Dirceu? Eu acho um abuso você prender um preso. O cara estava preso, mandaram prender novamente. Não precisava. Aquela coisa: transfere, Polícia Federal, televisão. Eu acho isso um abuso de autoridade. Embora eu ache a Lava Jato extremamente positiva –era preciso vir uma apuração da corrupção no Brasil séria como tem sido feita–, tem coisas que me desagradam. O partido mais envolvido é o PP. Mas parece, na opinião pública, que é só o PT. Segundo: por que é que vazam todos os conteúdos em relação ao PT e porque é que vazam exclusivamente para a revista "Veja"? É chamar a gente de idiota. Ou seja: há uma operação política por trás, de abuso desse processo. Que é um processo sério de apuração da corrupção no Brasil. Mas e o caso específico do José Dirceu? Eu nunca me pronunciei, você não vai encontrar uma palavra minha em entrevistas, nos artigos, dizendo se houve ou se não houve mensalão. Eu estou esperando o PT se posicionar. Se houve ou se não houve. E fico indignado pelo fato de o partido não se posicionar. E não se posicionar diante de uma figura tão importante do partido como ele [Dirceu]. Então não tenho meios de julgamento. Que eu sei que há corrupção na política brasileira, sei. Mas eu não tenho provas. Eu saí do governo sem perceber se havia mensalão. Saí em dezembro de 2004, o mensalão apareceu em maio de 2005. Várias pessoas me perguntaram: "você tinha algum indício?" Nenhum. Não vi nenhum indício. Um aspecto que chamou a atenção é que o José Dirceu faturou R$ 39 milhões com a sua consultoria, parte disso no instante em que estava preso, foi um argumento para essa nova prisão, mas coincide também com aquela vaquinha para pagar a multa do mensalão. Pois é. Eu fico indignado. Se é verdade que ele tem tantos milhões na conta, eu não posso entender como é que ele promoveu a vaquinha. Aliás, tenho amigos que contribuíram com a vaquinha. Estão sumamente indignados. Eles se sentem lesados. O ex-presidente Lula já falou criticamente sobre o afastamento entre o PT e os movimentos sociais. Por que ocorreu isso? Ocorre no momento em que o PT faz a opção da "Carta ao Povo Brasileiro", no primeiro governo do Lula. Era uma carta aos banqueiros e empresários. Ali ficou sinalizado: "queremos assegurar a governabilidade via elite, não via a nossas origens, que são os movimentos sociais". Aí cria-se o Conselhão, para o qual são chamados líderes dos movimentos sociais. Acontece que só o empresariado tinha voz e vez ali dentro. E aos poucos esses líderes [dos movimento sociais] foram todos deixando. E depois o Conselhão, que era um conselho de consulta e debate, passou a ser um mero auditório de anuência dos anúncios da Presidência. E hoje ele sequer existe. Ou seja, esse diálogo mínimo com a sociedade civil... É o que a Dilma deveria fazer. Ela deveria criar um conselho político. Porque isso não é um gesto de extrapolação. Está previsto na Constituição de 1988, está normalizado isso. O Lula fez. Não como deveria. Deveria ter sido mais democrático, o pessoal dos movimentos sociais deveria ter mais espaço, mas ele fez. Nessa crise, não adianta a Dilma passar a mão na cabeça do Temer. Ela tinha que ouvir a sociedade. Tem de sair do palácio, sair da toca. Perde contato com a realidade? Outro dia eu fui para Irati, no Paraná, 14º encontro de agroecologia. Eram 4.000 pequenos agricultores do Brasil. A Dilma ia. A Dilma não foi. Ela não tem ideia do que ela perdeu ali. Lá, quando eu cheguei, dizia-se que era o mau tempo. Não é verdade porque o Patrus (Ananias) foi. Então se o jatinho da FAB do ministro desceu, o jatão da presidenta poderia descer. Mas não importa. Não foi. Então ela tem de sair da toca, dar a volta por cima. Ela está acuada. Não encara a nação, não vai nos movimentos sociais. Medo de ser vaiada? Não pode ter medo. Uma figura pública, medo de nada. Tem de ir, se expor. Não tem como. Você é uma pessoa pública. O Lula promoveu não sei quantos daqueles conselhos nacionais de saúde, de educação. Era hora da Dilma fazer isso. Está aí o PNE, o Plano Nacional de Educação. Era para ter um debate sobre a implantação do PNE. No entanto, a notícia que a gente recebe é de cortes na educação. Ainda mais usando o lema que ela achou, "pátria educadora". Isso tudo explica porque é tão baixa a aprovação dela. O senhor é religioso. Que avaliação faz do avanço eleitoral e, principalmente, do comportamento da bancada evangélica no Congresso? Penso que está sendo chocado o ovo da serpente. Uma das conquistas da modernidade, importantíssima, é a laicização do Estado e dos partidos. Essa bancada está querendo confessionalizar a política. Explico: eu sou padre ou pastor de uma igreja que considera pecado o cigarro e a bebida alcoólica; e tenho a veleidade que toda a população nem tome bebida alcoólica nem fume. Eu só tenho dois caminhos. O primeiro é converter toda a população à minha igreja; isso é impossível. Mas o segundo é possível: eu chegar ao poder e transformar o preceito da minha igreja em lei civil. Como aconteceu nos EUA nos anos 20. E eu temo que o projeto deles seja esse, de confessionalização da política. Uma forma de fundamentalismo tupiniquim, altamente perigoso. Exemplo? Isso vai se manifestar agora no debate sobre ensino religioso. Minha postura é simples: colégio religioso tem de ensinar religião da entidade mantenedora, se é católico, judeu ou protestante. Bom, tem muito colégio religioso que é mera empresa escolar. Aliás, os políticos mais corruptos do Brasil saíram todos de colégios religiosos. É de se pensar: que diabo andaram fazendo, que evangelização era essa? Mas, voltando, no ensino público ou no particular laico, tem de ter o ensino das religiões. Ou você pega o professor de história, que é qualificado para isso, ou você chama o padre para falar do catolicismo, o pastor para falar do protestantismo, o médium para falar do espiritismo, o pai de santo para falar do candomblé. Mas não dá para pedir para o padre contar o que é o espiritismo, porque aí vai ter preconceito. O que eles estão propondo aí é transformar os colégios em caixa de ressonância de pregações fundamentalistas, tipo criacionismo contra o evolucionismo. Isso é danoso à nossa cultura, à nossa história, à nossa religiosidade. E, na sua avaliação, porque os evangélicos cresceram eleitoralmente? Para entender isso é preciso recorrer a um livro do início da modernidade, fim da Idade Média, chamado "Discurso da Servidão Voluntária" (Etienne de la Boëtie, 1530-1536). Mostra como é que a cabeça de associação de pessoas é feita, de maneira que elas perdem totalmente a consciência, o livre arbítrio, e se tornam cordeirinhos de qualquer um que queira manipulá-las. É isso. Muitas igrejas transformam seus fieis em cordeirinhos que, ameaçados pela teologia do medo, acabam seguindo a voz do pastor naquilo que ele dita. Nas últimas décadas, igrejas evangélicas tiraram, efetivamente, muitos seguidores da Igreja Católica. Basta ver o Censo. É notável também que, de maneira geral, o evangélico parece hoje bem mais militante que o católico. É praticante. Qual é a sua explicação para esse fenômeno? Aí são dois fatores. Estudos estão mostrando isso: quando havia Comunidades Eclesiais de Base havia menos evasão para as igrejas evangélicas. Acontece que o papa João Paulo 2º e depois o papa Bento 16 fragilizaram as CEBs. Então hoje, o porteiro do prédio daqui da esquina, a cozinheira da vizinha, a faxineira, elas não se sentem bem na Igreja Católica. Se sentiriam nas Comunidades Eclesiais de Base, mas elas foram desmobilizadas pela própria igreja, com medo se ser Teologia da Libertação, influência marxista, progressista. Agora, com o papa Francisco, elas estão renascendo. Estão mesmo? Há sinais disso? Estão. Teve um sinal bom em 2014, em janeiro, quando teve o 14º encontro das CEBs em Juazeiro do Norte, eu estava lá, e o papa mandou um documento saudando, foi muito importante. E apareceram 73 bispos. Há muito tempo não apareciam tantos. Porque aí elas estavam no sinal amarelo –elas nunca foram condenadas–, mas estavam no sinal amarelo e agora passou para o verde. Agora, ainda você não tem o corpo, como tinha nos anos 70 e 80, de bispos que invistam nisso. Ainda não tem. Os bispos que temos aí ainda são todos os pontificado anterior: 36 anos de João Paulo 2º e Ratzinger. A segunda razão é aquilo que o papa Francisco denunciou na Jornada Mundial da Juventude. Houve uma burocratização da fé. Uso a seguinte imagem: Se você for às 3h da madrugada numa igreja evangélica, você é acolhido, tem alguém lá para te atender. Se você for às 3h da tarde numa católica, está fechada, tem uma grade, o padre não se encontra e não tem nenhum leigo autorizado, como tem nas evangélicas, para te orientar e te acolher. Não dá para competir. Eles sabem fazer um trabalho personalizado. Olha os cinemas que se transformam em templos. Sabe como eu chamo isso? A boca canibal de Deus. Né? Está ali na calçada; é só passar e ser sugado (risos). Na igreja Católica, não. São distantes. Como é que uma igreja evangélica começa? O pastor vai lá e aluga uma salinha de escritório. Põe lá uma dúzia de cadeiras, uma mesa e pronto, vira um mini-templo. E aí vai crescendo, porque o dinheiro entra. A igreja Católica deveria aprender muita coisa boa com as evangélicas.
Entrevista publicada na Folha de São Paulo, hoje (10).
Por RICARDO MENDONÇA EDITOR-ADJUNTO DE "PODER"
 
Comentar
Compartilhe
A coruja atrasada
25/05/2015 | 07h24
[caption id="attachment_9051" align="alignleft" width="220"]Foto. O Globo.com Foto. O Globo.com[/caption]

 Perseguidos pela Inquisição, hoje hereges escrevem best-sellers sobre a inexistência de Deus, a opção sexual de cada um só diz respeito a cada um

Luis Fernando Veríssimo Hereges, sodomitas e  usurários eram as vítimas preferidas da Inquisição pelo que pensavam e faziam (e judeus só por serem judeus) e muitos acabaram na fogueira, para aprender. Hoje hereges escrevem best-sellers sobre a inexistência de Deus, a opção sexual de cada um só diz respeito a cada um e a usura legalizada, agora chamada de capital financeiro, domina o mundo. O que prova que a História é uma velha senhora irônica, que só precisa de tempo para virar tudo ao avesso — e tempo é o que não lhe falta. Ateus se arriscam a serem xingados por crentes mas não mais a serem queimados vivos, a união de homossexuais ainda encontra resistência mas tem até a bênção implícita do Papa, e a usura se recuperou tão completamente do tempo em que era pecado que hoje provoca e se redime das suas próprias crises, sem culpa e sem sinal de contrição. A História poderia defender sua inconstância, ou seu senso de humor, invocando a coruja de Minerva, aquela que Hegel usou como metáfora para a incapacidade dos filósofos de compreenderem seu próprio tempo. Segundo Hegel, a coruja de Minerva, deusa romana da sabedoria, só voava ao anoitecer, quando não há mais luz para enxergar nada, muito menos a verdade do momento. Vivemos para a frente mas entendemos para trás, e a filosofia sempre chega atrasada. Foi, acho eu, na sua crítica a esta resignação de Hegel que Marx disse que os filósofos não deveriam se contentar em apenas entender o mundo, mas tentar mudá-lo. Não sei se Marx chegou a encampar a parábola de Hegel, mas ele diria que a coruja precisa voar mais cedo para ver com mais clareza. Outra forma de dizer que filosofia e política precisavam se aproximar na busca da luz. Como a coruja atrasada do Hegel, que só filosofava sobre uma época quando a época já estava no ocaso, a História pode ser perdoada pelas suas incongruências. A Santa Inquisição se assentava sobre um bloco de certezas que pareciam eternas, com um poder que duraria séculos. Hereges, sodomitas, usurários e judeus não eram apenas aberrações aos olhos do Senhor, sua existência ameaçava a ordem natural de todas as coisas. Que culpa tem a História de a eternidade durar tão pouco, e a ordem natural de todas as coisas ser sazonal? Artigo de ontem (24), no O Globo.com
Comentar
Compartilhe
Uma sobrevivente
17/05/2015 | 05h47
Nascida em área nobre da ventilada Orla de Guarus, vizinha do Rio Paraíba do Sul, no Jardim Carioca. A coitada faz de tudo para resistir à praga que a sufoca,mas, está difícil! IMG_5396 Brincadeirinha à parte, esta é apenas uma, de tantas, das escassas árvores da cidade de Campos. Em outras partes do planeta o poder público já acordou para a necessidade de preservá-las para o bem do Homem como, por exemplo, em Berlim (Alemanha) onde cada pé de árvore é identificado. Cada uma tem um plaquinha afixada, como se fosse um registro geral com espécie, data de plantio e intervenções fitossanitárias praticadas.  Esses dados são digitalizados em programa específico de controle. E assim a cidade é verde.
Comentar
Compartilhe
Aos que veladamente "condenaram" o humor do Charlie Hebdo
05/05/2015 | 06h50
No domingo passado (03), dois homens armados abriram fogo contra um centro de conferência onde se realizava um concurso de caricaturas sobre o Maomé, em Garland, subúrbio de Dallas. Tudo indica que pela primeira vez o grupo terrorista Estado Islâmico seja o responsável pelo ataque nos Estados Unidos, no qual os dois terroristas saíram fuzilados por agentes policiais do Texas (antes, os dois haviam ferido um guarda). [caption id="attachment_8908" align="aligncenter" width="400"]IMG_5321 Foto divulgada dos dois terroristas mortos pela polícia norte americana[/caption] Oficialmente, em seu canal de rádio nesta terça-feira (05), o Estado Islâmico (EI) reivindicou o ataque em solo americano, mas, a Casa Branca acha cedo para confirmar se o atentado foi mesmo do EI ou se pegaram carona em busca de popularidade. “Nós avisamos a América: ataques futuros serão maiores e mais amargos. Vocês assistirão a coisas horríveis por parte dos soldados do Estado Islâmico com a graça de Deus”, ameaçou o grupo djhadista. Se os americanos pensavam ainda que atentados tipo “Charlie Hebdo” ficariam reservados a uma Europa incapaz de integrar os seus muçulmanos, o episódio veio comprovar o oposto. Para aqueles que de forma velada culparam os jornalistas e chargistas do Charlie Hebdo, por "provocarem" (como se a função social do Humor não fosse exatamente a de provocar) a sociedade - de forma ampla, geral e irrestrita -, fica o alerta de que ceder à censura nunca será a solução, mesmo em tempos de intolerância religiosa. O fato serve para o Brasil tomar todas as providências de segurança para as Olimpíadas de 2016. Quem desejar se lembrar do ataque terrorista à redação do jornal/revista Charlie Hebdo, ver aqui e aqui.
Comentar
Compartilhe
INDIGESTÃO
04/05/2015 | 10h18

O ponto da ganância verissimo

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia

Tudo pode ser reduzido a uma metáfora culinária. Comparamos mulheres com frutas e revoluções com omeletes e dizemos que as pessoas envelhecem como o vinho — ou ficam melhores ou azedam. E já ouvi dizerem de uma mulher que lembrava um vinho da Borgonha. Nada a ver com sabor ou personalidade, e sim com o formato da garrafa (pescoço longo e ancas largas). O capitalismo triunfante também evoca uma questão de cozinha, a do ponto. Qual é o ponto em que a ganância humana deixa de ser um propulsor econômico e volta a ser pecado? Da Margaret Thatcher diziam que ela queria o impossível: devolver à Inglaterra os valores morais da Era Vitoriana ao mesmo tempo em que desencadeava a era do egoísmo sem remorso e declarava que sociedade não existia, só existia o indivíduo e suas fomes. Dilema antigo. Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia, que teve uma das suas apoteoses na era vitoriana invocada pela Sra. Thatcher. No Brasil de tantos escândalos, cabe a pergunta: qual é o ponto da ganância? Quando é que a mistura desanda, o molho queima e o que era para ser um pudim vira uma vergonha? Há quem diga que o mercado sabe quando e como intervir para salvar a moral burguesa. Digo, o pudim. Claro que, para isso funcionar, é preciso confiar que todas as pessoas sejam, no fundo, social-democratas, ou capitalistas só até o ponto certo do cozimento. Ou acreditar que a ganância pode destruir a ideia de sociedade e ao mesmo tempo esperar que a ideia sobreviva nas pessoas, como uma espécie de nostálgica produção caseira. O capital financeiro que hoje domina o mundo nasceu da usura, que era punida pela Igreja Medieval. A história da sua lenta transformação, de pecado em atividade respeitável, culminando com sua adoção pela própria Igreja, é a história da hipocrisia humana. A Inquisição mandava os usuários para a fogueira, onde... Mas é melhor parar com as metáforas culinárias, antes de começar a falar nos grelhados.
Publicado hoje no O Globo
Comentar
Compartilhe
Em respeito ao leitor
30/04/2015 | 07h45
A gente que lida com blog estabelece limites mínimos para uma convivência civilizada. Não dá para usar o espaço virtual e descer o nível das críticas, nem das minhas nem tampouco dos comentários. Tenho convicção de que verborragia, gracinhas nada engraçadas, piadinhas de mau gosto, incitações levianas de golpe e provocações baratas, não devem ser liberadas aos demais. É o modus vivendi exigido a aqueles que defendem a Democracia, sem democratismos. Ser enfático - apresentar argumentos e se propor ao necessário contraditório - difere do xingamento fácil, ofensa e difamação. Amanhã é o Dia do Trabalhador. É feriado em grande parte dos países. Pontualmente, no Brasil, sem muito o quê comemorar, a não ser o fato de que vivos estamos; de longe viemos e haveremos - se soubermos manter os princípios democráticos que nos norteiam -  de superar os entraves da crise ética, política e econômica que abate a moral da sociedade brasileira. É quase que uma declaração de fé. Bom descanso a todos!    
Comentar
Compartilhe
Próximo >
Sobre o autor

Luciana Portinho

[email protected]

Arquivos