Folha Letras - Dom Quixote em tempos de redes sociais e inteligência artificial
- Atualizado em 25/03/2026 08:01
 
 
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Ernani Terra*
A história mostra que o novo nem sempre é novidade e que o tradicional nem sempre é velho. Nas redes sociais, as pessoas estão presas ao agora, vivendo a cultura do instante e o passado, muitas vezes, é apagado. O exemplo típico são os stories. Foram criados para durarem só 24 horas.
As tecnologias digitais aceleram o apagamento do passado. No X (ex-Twitter), influenciadores digitais combatem postagens que lhes são desfavoráveis pautando outro tema. Assim, se estabelece a impermanência, a fugacidade, a descontinuidade.
Embora essa estratégia já existisse antes das redes sociais, as novas tecnologias fizeram com que seus efeitos passassem a ser devastadores, dado o número de pessoas atingido e a velocidade com que as informações circulam.
As tecnologias digitais criaram ainda a cultura do aceleramento do presente e, por extensão, a não reflexão. Não contentes com a rapidez com que as informações circulam e morrem, as pessoas buscam uma rapidez ainda maior nos aplicativos digitais, ouvindo mensagens de áudio e vendo vídeos em modo acelerado. Tudo se desmancha no ar muito rapidamente.
Nas redes sociais, qualquer texto analítico cuja leitura demande algo em torno de dez minutos tem enorme chance de ser descartado. Por outro lado, vídeos curtos e engraçadinhos de um minuto atingem milhões de visualizações. Entre um conto de Machado de Assis e um reels de 15 segundos, fica-se com o reels.
Reprodução
Nessa tentativa de relacionar o Dom Quixote ao ambiente digital, podemos observar que, o que hoje consideramos novidade já estava presente na obra de Cervantes. Os usuários das redes sociais são um Dom Quixote moderno que se perde nas narrativas online.
Dom Quixote vive uma realidade virtual como vive muita gente hoje no Instagram e no TikTok. A loucura de Dom Quixote nasce do consumo excessivo de determinado tipo de conteúdo como teorias conspiratórias e realidades distópicas, como ocorre nas redes sociais.
Em Dom Quixote, temos ainda busca de uma identidade, a realidade distorcida e virtual, o humor, personas, como os perfis fakes de hoje. Lembremos que Dom Quixote é um avatar do velho fidalgo Alonso Quijano. Dom Quixote é desconectado do real e precisa de Sancho Pança, transformado em escudeiro, para se conectar ao real. Dom Quixote não é uma figura anacrônica, ao contrário.
Dom Quixote não é apenas um louco. É alguém cuja percepção da realidade, como acontece hoje, é mediada pela tecnologia e pelo excesso de informação. A tecnologia a que nos referimos em Dom Quixote é o livro e o excesso de informação está relacionado aos livros que ele leu, as novelas de cavalaria, cujo equivalente hoje seriam as postagens das redes sociais, que funcionam como câmaras de eco.
Dom Quixote é reconhecidamente fundador da modernidade. Inaugura o romance, gênero literário característico do mundo moderno. Se hoje vivemos presos aos celulares, interagindo pelas redes sociais e por mensagens curtas, muitas vezes sem uma única palavra, Dom Quixote é um canto daquele que sai ao mundo e vai viver a vida. Dom Quixote é ser paradoxalmente múltiplo, uma mescla do engenhoso com o velho delirante; do sábio com o louco sonhador.
Por último, mas não menos importante, a leitura que fazemos de Dom Quixote se dá em dois planos: lemos aquilo que efetivamente acontece com Dom Quixote e, ao mesmo tempo, aquilo que o Cavaleiro da Triste Figura acredita que acontece. Ler Dom Quixote, como diz a canção, é sonhar um sonho impossível.


*Ernani Terra é doutor em Língua Portuguesa pela PUC-SP. Desenvolveu pesquisa em nível de pós-doutorado sobre o discurso da interdição na obra Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, com fundamento teórico na Semiótica de linha francesa. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da USP. Professor desde 1973, atuando nas áreas de língua Portuguesa, literaturas de língua portuguesa e práticas de leitura e escrita. É autor de diversos livros e artigos científicos nas áreas de língua, literatura, leitura e produção de textos. Mantém um blogue – www.ernaniterra.com.br – destinado a falar de língua e literatura.

**Este texto foi escrito a convite da Academia Campista de Letras, sobre o tema da palestra proferida pelo professor Ernani Terra no dia 21 de março de 2026 na ACL.

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