A campanha Outubro Verde destaca a importância da conscientização em relação à sífilis, destacando o diagnóstico precoce e o tratamento adequado. Nesse período é reforçado ainda o alerta para o uso de preservativo nas relações sexuais para prevenir a transmissão da infecção. A sífilis tem cura e pode ser tratada com antibióticos, mas quando não tratada corretamente pode provocar complicações. O cuidado deve ser redobrado durante em casos de gestação para evitar que a bactéria seja transmitida ao bebê, devido a condição conhecida como sífilis congênita.
O clínico geral e infectologista Nélio Artiles explica que a sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST), causada por uma bactéria chamada Treponema pallidum. Ele conta que essa é uma doença sistêmica, que começa justamente nas mucosas da pele e, caso não tenha tratamento adequado, pode se disseminar.
“A transmissão é por contato sexual desprotegido, então será via vaginal, anal, oral e também pela uretra do homem com lesões infectantes. Então, todo o quadro inicial começa com uma lesão típica, que é de acordo com a entrada dele. O nome da lesão é cancro duro. Infelizmente, também pode ocorrer a transmissão da mãe para o feto pela placenta em qualquer fase da gestação. E mais raramente hoje, por transmissão de sangue, porque hoje os hemocentros têm toda a capacidade de fazer a triagem. Agora, não se transmite com contato social, assim, abraço, aperto de mão, pelo uso compartilhado de toalha, piscina, vaso sanitário ou talher, não é por aí que transmite”, esclarece.
Segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde, em 2024, os principais indicadores epidemiológicos no Brasil apontaram o registro de 256.830 casos no país, o equivalente a taxa de 120,8 casos por 100 mil habitantes. Ainda segundo o órgão, o perfil mais acometido é o sexo masculino, equivalente a 60% dos casos, sendo na faixa etária de 20 a 39 anos. Já no caso de sífilis em gestantes, foram realizadas 89.724 notificações, representando uma taxa de 35,4 casos por mil nascidos vivos.
Ainda em 2024, foram registrados 24.443 casos de sífilis congênita, que é transmitida de mãe para filho, representando uma taxa de 9,6 por mil nascidos vivos. Foram contabilizados ainda 183 óbitos associados à doença nesse período. A taxa de evitação da transmissão congênita nesse ano ficou em 72,8%.
Nélio comenta que quando não diagnosticada e tratada precocemente, o risco que ocorre é a progressão da infecção para outras fases, com lesões irreversíveis do sistema nervoso, do coração, evoluindo para morte. Além da transição continuada aos parceiros sexuais, principalmente na fase inicial que é quando há grande quantidade da bactéria.
“O outro risco é o aumento da aquisição de todas as outras doenças, tipo o IST, o próprio HIV, porque as lesões genitais, em geral, tem uma inflamaçãozinha e nela aumenta o número de células de defesa. Então quando tem uma inflamaçãozinha assim, se o vírus HIV tiver nessa relação, o HIV vai entrar facilmente por essa lesão. Na gestação, o risco é mais grave, é claro, porque se a bactéria atinge o concepto, pode ter aborto, natimorto, prematuridade, o neném nascer com um peso baixo e malformações também, congênitas, além de morte, obviamente, neonatal”, esclarece Nélio.
Ele explica como é feito o diagnóstico da sífilis e destaca que a população pode realizar testes gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “O teste rápido com o treponema, que é feito com uma gotinha de sangue na ponta do dedo, em 30 minutos fica pronto. E quando positivo, aí você faz os exames de confirmação. E como eu disse, tudo gratuito pelo SUS, nos centros de testagem, aconselhamento, nas policlínicas, enfim, onde tiver maternidade.”
O infectologista alerta para os riscos da sífilis congênita, transmitida da gestante para o bebê, e destaca a importância do pré-natal e do tratamento adequado para prevenir complicações.
“A criança pode nascer amarelinha, com equiterícia, com anemia. São várias alterações, lesões no osso, lesões neurológicas. E, às vezes, a criança nasce até sem sintomas e só se manifesta mês depois. Ou quando se percebe uma deformidade dentária, dente com alguma formação fora do normal, uma surdez, alguma alteração neurológica. Mas é uma doença que é totalmente evitável quando a gestante faz o seu pré-natal adequadamente e faz o tratamento.”
Nélio destaca a importância da campanha para levar mais informação às pessoas em relação à infecção e também o tratamento adequado para evitar as sequelas.
“É o momento de estimular o diagnóstico precoce da doença, porque a sífilis é curável e com antibiótico que é barato e dado gratuitamente pela rede pública. O tratamento, na fase recente, evita todas as sequelas tardias e interrompe a cadeia de transmissão. Na gestação, isso muda mais ainda, porque quanto mais precoce for o diagnóstico maior proteção ao feto e à criança de uma sífilis congênita. O outubro verde faz essa mobilização nacional para conscientização e é importante que isso aconteça para que as pessoas passem a prestar atenção nessa doença que, infelizmente, tem aumentado muito no nosso país. Nós temos números elevadíssimos. Se a gente considerar a quantidade de sífilis que aconteceram em anos passados é sempre na casa dos 300 mil, e isso os notificados, fora aqueles casos que não foram notificados”, reforça o médico.
A Folha entrou em contato com a prefeitura de Campos para saber sobre ações de conscientização a serem realizadas no município, além de informação acerca do acesso da população aos serviços de saúde e realização de testes. No entanto, até o fechamento da reportagem, a Folha não obteve retorno.