Sequência de terremotos preocupa, mas Brasil está em área de menor risco, explicam geólogos da Uenf
- Atualizado em 06/07/2026 17:37
Geólogos da Uenf
Geólogos da Uenf / Foto divulgação/ arte IA

A sequência de terremotos registrados em diferentes partes do mundo nas últimas semanas despertou preocupação e levantou uma dúvida entre muitos brasileiros: o país pode enfrentar tragédias semelhantes? Apesar da frequência dos grandes abalos sísmicos em diversas regiões do planeta, geólogos da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), em Campos, explicam que o Brasil ocupa uma posição geológica privilegiada e apresenta baixo risco de terremotos de grande magnitude.

Em menos de 15 dias, pelo menos seis terremotos de alta magnitude foram registrados em países como Venezuela, Rússia, Filipinas, Afeganistão, México e Japão. O mais devastador ocorreu na Venezuela, em 24 de junho, inicialmente deixando 2 mil mortos e 50 mil desaparecidos.

A professora Maria da Glória Alves, do Laboratório de Engenharia Civil (LECIV/Uenf), explica que a crosta terrestre é dividida em grandes blocos rígidos, chamados placas tectônicas, que se movimentam lentamente sobre o manto terrestre.

— A placa da América do Sul desloca-se para oeste. Ela vem se afastando da placa onde está a África, à qual já esteve unida no passado, e colide com a placa de Nazca, localizada sob parte do Oceano Pacífico. Foi desse processo que surgiu a Cordilheira dos Andes — explica.

O geólogo Victor Hugo Santos, do Laboratório de Engenharia e Exploração de Petróleo (LENEP/Uenf), lembra que esse movimento teve início há cerca de 170 a 180 milhões de anos, quando o supercontinente Gondwana começou a se fragmentar.

— A movimentação dessas placas gera falhas geológicas profundas. O atrito provocado por esse deslocamento é justamente o que causa os abalos sísmicos — afirma.

Segundo Maria da Glória, um terremoto ocorre quando há uma ruptura repentina em uma falha geológica, liberando a energia acumulada no interior da Terra e provocando vibrações que se propagam em todas as direções.

Por que o Brasil registra poucos terremotos?

Victor Hugo explica que o território brasileiro está localizado no interior da placa Sul-Americana, distante das áreas onde ocorre o choque entre placas tectônicas.

— A margem oeste da placa é uma margem ativa, localizada na região dos Andes, onde acontece a colisão com a placa de Nazca. Já a margem leste, onde está o Brasil, é considerada passiva. Por isso, a incidência de terremotos é muito menor por aqui — destaca.

Essa configuração geológica diferencia o Brasil de países como o Japão, situado em uma região de encontro de diversas placas tectônicas, e da Venezuela, localizada em uma zona de intensa atividade sísmica.

Mesmo assim, os especialistas ressaltam que o país não está totalmente livre de tremores.

Tremores também acontecem no Brasil

Embora raros e, em sua maioria, de baixa magnitude, os terremotos brasileiros são monitorados constantemente.

Maria da Glória lembra que a maior parte dos sismos registrados no país ocorre dentro da própria placa tectônica, sendo classificados como intraplaca. Esses eventos costumam ser rasos — geralmente com menos de 10 quilômetros de profundidade — e apresentam magnitude baixa ou moderada.

Em maio deste ano, dois tremores de magnitude 3,1 e 3,3 foram registrados no litoral de Maricá (RJ), com epicentro no fundo do mar, cerca de 100 quilômetros da costa.

No mês seguinte, em 26 de junho, uma sequência de cinco tremores foi registrada em alto-mar, a aproximadamente 75 quilômetros da costa de Saquarema, na Região dos Lagos. O maior deles atingiu magnitude 2,5 na escala Richter, enquanto os demais variaram entre 1,5 e 2,1.

Segundo a pesquisadora, centenas de pequenos terremotos ocorrem diariamente em todo o mundo sem causar danos.

— A grande maioria apresenta baixa magnitude ou ocorre com epicentro no oceano, longe de áreas habitadas, passando despercebida pela população — afirma.

Onde os tremores são mais frequentes no Brasil?

De acordo com o Catálogo de Sismos Brasileiros — elaborado inicialmente pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP) e atualizado em parceria com outras instituições de pesquisa —, a maior concentração de tremores ocorre no Nordeste, especialmente nos estados do Ceará e do Rio Grande do Norte.

Também há registros frequentes na plataforma continental da região Sudeste, no Pantanal Mato-Grossense, no norte de Mato Grosso, na região de Manaus e no Acre, onde os terremotos estão relacionados ao mergulho da placa de Nazca sob o continente sul-americano.

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