* Arthur Soffiati
- Atualizado em 04/11/2026 07:57
Divulgação/Arthur Soffiati
Arthur Soffiati*
Há cerca de 30 milhões de anos, uma intensa atividade vulcânica na placa submarina de Nazca levantou uma ilha no oceano Pacífico num dos mais remotos locais do planeta. O testemunho desse intenso vulcanismo está presente nos vulcões inativos de Ma’una Terevaka, Rano Aroi, Poike, Rano Raraku e Rano Kau. As crateras de Rano Raraku e Rano Kau transformaram-se em lagos de água doce. Todos os vulcões são inativos atualmente. A geologia da ilha é constituída por basalto, rocha porosa, ferro oxidado, obsidiana e taquita. Apenas as praias de Ana Kena e Ovahe são arenosas. No mais, a zona costeira da ilha triangular é pedregosa. Numa das pontas, erguem-se três ilhotas.
Com o tempo, formou-se solo que permitiu uma cobertura vegetal e uma fauna constituída de aves e seres marinhos. O ponto culminante é Ma’una Terevaka, com cerca de 511 metros de altitude, pouco mais elevado que o morro do Itaoca. Se existiram cursos d’água, eles deviam se parecer com as ribeiras da ilha da Madeira e do arquipélago dos Açores, também de formação vulcânica. São cursos d’água que se avolumam com as chuvas.
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Houve três colonizações da ilha por plantas. A primeira foi natural, com poucas espécies, talvez trazidas por aves migratórias, como a totora (Schoenoplectus californicus) e a famosa, mas também polêmica, Paschalococos dispersos, palmeira gigante e extinta, usada na alimentação e transporte dos moais, gigantescas estátuas.
O pesquisador norueguês Thor Heyerdal defendeu a tese de que a ilha de Páscoa foi colonizada por povos americanos. Porém, os estudos demonstram que a origem da população de Rapa Nui é polinésia. A ilha forma, com a Nova Zelândia e o Havaí, um triângulo dominado pelos navegadores polinésios. Neste triângulo, a ilha mais isolada é Rapa Nui.
Os polinésios promoveram a segunda colonização botânica, com a introdução do inhame, do taro, do plátano, do camote, da cana-de-açúcar e da cabaça. A terceira colonização começou com a chegada dos europeus, no século XVIII. Em visita à ilha, fiquei impressionado com a diversidade florística introduzida. As margens dos caminhos e estradas foram tomadas por goiabeiras de baixa estatura, com belos frutos. Encontrei uma ingazeira carregada de frutos. A ilha foi tomada pela mamona, pelo mamoeiro, pelas figueiras etc. Os polinésios também introduziram a galinha, o porco, o cão e o ratão polinésico.
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Devidamente instalados nesse extremo da Polinésia, os grandes navegadores do Pacífico não deixaram de todo suas embarcações. A pesca continuou sendo uma de suas atividades principais. Mas eles também se dedicaram à agricultura e à criação de animais. Foi com emoção que visitei a réplica de um canteiro. Os nativos de Rapa Nui escavavam a terra ou erguiam muros de forma circular ou elíptica para cultivar plantas, protegendo-as dos intensos ventos que varrem a ilha. Galos, galinhas e pintos ciscavam durante o dia nos campos. De noite, eles eram guardados em casas de pedras amontoadas. A entrada ficava escondida para proteger a criação de roubos.
As famosas estátuas (moais) que foram construídas pelos nativos e que tanto impressionaram os europeus ainda hoje, de certa maneira, suscitam debates. Elas eram esculpidas parcialmente dentro das crateras dos vulcões, retiradas e transportadas para as bordas da ilha, onde eram concluídas e erguidas de costas para o mar sobre estruturas de pedra (ahu) que serviam como sepulturas. Sobre a cabeça do moai, colocava-se um chapéu (Pukao). Os moais tinham olhos. A maioria se perdeu.
Examinei esses moais, ora em conjunto, ora solitários e reforcei minha explicação. A construção de estátuas gigantescas não é exclusividade dos primeiros habitantes humanos da ilha. A prática é também encontrada em outras ilhas polinésias. O isolamento e o sedentarismo dos habitantes da Rapa Nui permitiram que eles pudessem se dedicar à construção dessas gigantescas estátuas. Havia um caráter religioso nesse trabalho, algo bem diferente da força que impulsionava os escultores ocidentais a partir do Renascimento.
Existem várias explicações para o transporte dos moais para as bordas da ilha. A mais conhecida é o rolamento dos gigantescos blocos de pedra parcialmente esculpidos sobre troncos da grande palmeira Paschalococos dispersos. Contudo, no “Atlas arqueológico de Rapa Nui”, de Maria Huke Fuentes e Dale F. Simpson Jr (Santiago: Pehuén, 2023), consta que “Esta ideia de que os antigos rapa nui plantaram palmeiras em lugar de cortá-las vai de encontro à ideia comum, mas errônea, de que a ilha entrou em declínio ao se cortarem todas as suas palmeiras para talhar, transportar e instalar moai nos sítios de ahu (tradução livre do autor deste artigo).
Se os nativos plantavam a palmeira mais que a cortavam, cabe a pergunta sobre sua extinção antes mesmo da chegada dos europeus. Sabe-se que a população de Rapa Nui se dividiu em grupos que guerrearam entre si. Sabe-se que houve canibalismo. Sabe-se que o ratão polinésio, introduzido pela população que primeiro colonizou a ilha, alimentava-se do fruto da palmeira, contribuindo para a eliminação de sementes.
Num ambiente fechado, a destruição de parte do ambiente natural pode ter contribuído para uma crise ambiental que levou a civilização rapa-nui ao declínio.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.