As pessoas que têm o infortúnio de me conhecer e que trabalham com alguma coisa ligada à cultura e a preservação patrimonial sabem que carrego uma preocupação um tanto “fora da caixinha” e que é invisível para muitos, ainda mais em um lugar onde a preservação de patrimônio histórico e cultural é quase que totalmente ignorada: a questão do patrimônio cultural imaterial.
Todo mundo está vendo o Museu Olavo Cardoso prestes a desabar (cuidado quando estiverem passando pela esquina da rua dos Goytacazes com a rua Sete de Setembro). Todo mundo viu que era preciso se colocar ao menos algo para cobrir o Solar dos Ayrizes. Enfim é fácil ver que um prédio, uma casa ou um monumento não estão preservados. Só olhar, conferir e pronto. Claro que isso não quer dizer que o poder público fará alguma coisa. Como bem diz meu amigo confrade Herbson Freitas, em mais uma de suas pragmáticas e objetivas sentenças, “não dá voto”. Em certa complementação, Aluysio Abreu Barbosa afirma “mas tira”. O fato é que, em se tomando ou não providências, todo mundo vê o patrimônio material se esfacelar.
Com o patrimônio imaterial é obviamente diferente. Não dá para ver o jongo, a Mana Chica do Caboio, a Folia de Reis ou mesmo o desfile de carnaval se dissolverem em frente aos nossos olhos. Eles vão acabando, devagar e silenciosamente, abandonados pelo poder público e pela população em geral.
Claro que o avanço do capitalismo, o crescimento das cidades, o aparecimento de formas fáceis de entretenimento doméstico e um intenso processo de aculturação se demonstram como adversários extremamente poderosos, em especial em um país que trata a educação com um grau tão absurdo de desleixo e abandono. Mas tento mostrar, mais uma vez e continuarei tentando enquanto puder, que se pode ganhar muito dinheiro e trazer crescimento econômico com preservação de patrimônio material e imaterial. Sempre digo que o que faz uma cidade ter visitantes, ter potencial turístico, é aquilo que ela tem de singular. O que ela tem de diferente. Ninguém vai a uma cidade que tem tudo igual às outras. Há uma clara tendência na economia capitalista de homogeneização dos espaços. Um shopping se parece um shopping em qualquer cidade. Centros urbanos onde todo o casario original foi destruído para se colocarem prédios com bastante concreto e vidros também sempre parecem os mesmos centros urbanos. Ninguém vai a Paris para ver concreto, aço e vidro. Querem ver a Torre Eiffel, o Museu do Louvre, o Arco do Triunfo. Querem ver espetáculos de can can, apresentações musicais num boulevard e artistas de rua na Champs-Élysées. Parece que nós campistas deixaríamos a citada torre virar um ferro-velho, o citado museu seria como o Olavo Cardoso, e o citado arco seria como o palco do CEPOP. Quanto ao patrimônio imaterial, deixaríamos nossos artistas à míngua até que eles fossem devidamente transformados em motoristas de aplicativo e caixas de supermercado. E claro, contrataríamos para espetáculos apenas artistas que nem sabem onde fica a cidade, como se em Paris ninguém ligasse para uma apresentação de Edith Piaf, quando ela estava viva.
Para que as pessoas, as poucas que lerão esse texto, entendam como o patrimônio imaterial vai se extinguindo sem que percebamos, cito o exemplo do chuvisco. Quando cheguei à terra campista no distante ano de 1993 toda festa, cada uma delas, em casa de pobre ou de nobre, na Pelinca ou no Santa Rosa, absolutamente em cada uma delas, havia uma compoteira com chuvisco. Era sagrado. Um marco da cultura. Qual foi a última festa em que o leitor ou leitora esteve presente que tinha uma compoteira de chuvisco? Por isso defendo registros gravados do patrimônio imaterial ainda existente, com explicações sobre os mesmos, que sejam colocados em totens de prédios públicos e disponibilizados em canais da internet para que, ao menos, possamos lembrar que eles existiram e fizeram parte da nossa constituição como povo. Não resolve o problema, claro, mas é uma medida que visa alguma preservação de memória e, convenhamos, é bem barata.
Existem alguns heróis, é verdade, que começaram a divulgar a cultura da cidade e o valor do patrimônio material e do imaterial nas redes sociais. Não citarei os nomes, pois são amigos e não quero ser injusto esquecendo alguém. O trabalho dessas pessoas tem altíssimo valor, mas é preciso mais ação do poder público e da população. Seria bom que as pessoas entendessem o valor do patrimônio material e do imaterial. Se não conseguem entender por uma questão de afeto e memória, que sejamos, então, bem materialistas: ao não preservarmos nossa cultura estamos jogando dinheiro fora. O certo seria que todos entendessem que a cultura é a base de uma sociedade, a base de um país. Tanta gente se diz patriota e nacionalista e ataca a cultura e a memória. Cidades só podem ser reconhecidas valorosamente se preservam aquilo que as distingue culturalmente. Caso contrário, nosso futuro desabará sobre nossas cabeças. Como pode acontecer na esquina da rua dos Goytacazes com a Sete de Setembro. Cuidado com a cabeça.
*Professor, presidente da academia pedraval letras e artes e segundo vice-presidente da academia campista de Letras