Para uma árvore sobreviver, é preciso escavar a terra bem fundo. Com força! No dia 2 de outubro, várias mãos se uniram para plantar um baobá em Posse do Meio, localidade no Norte de Campos apontada por pesquisas recentes como o local de nascimento do estadista e ex-presidente Nilo Peçanha. A ação marcou os 159 anos de nascimento do primeiro e único presidente negro do Brasil.
O local, no meio do pasto, em um dia cinza, de terra de barro vermelho, úmida pela chuva, virou palco. Palavras se espalharam ao vento em reverência a Nilo.
O movimento partiu do Instituto Histórico e Geográfico de Campos dos Goytacazes (IHGCG). Na caravana, estiveram a presidente do IHGCG, Graziela Escocard; o pesquisador Genilson Soares; o subsecretário municipal de Turismo, Edvar Chagas Junior, e historiadores da cidade.
O ator Déo Garcez, que interpretou Nilo Peçanha na novela “A Nobreza do Amor”, também se juntou ao grupo nesta homenagem. Déo, que esteve em Campos em julho, quando percorreu locais ligados à trajetória do ex-presidente e conheceu de perto pontos relacionados à pesquisa, voltou à cidade para acompanhar o grupo. Inicialmente, a intenção do artista é colher material para desenvolver um espetáculo teatral dedicado à história de Nilo Peçanha.
Déo Garcez, Graziela Escocard, Genilson Soares e Edvar Júnior
Em entrevista à Folha da Manhã, nesta segunda-feira (5), Déo Garcez falou que o grupo “pisou em chão sagrado em Posse do Meio”.
“E nós não apenas celebramos o passado, mas também plantamos o futuro na forma de um baobá — a árvore eterna, guardiã da ancestralidade e da nossa pele preta”, disse ele.
O ator explica que sua ligação com Nilo é um pacto de alma.
“Eu o abracei na TV, na novela ‘A Nobreza do Amor’, da TV Globo. Motivado pela repercussão altamente positiva da minha participação, vivendo Nilo Peçanha na televisão, e tocado pela urgência de sua voz, decidi escrever um texto de monólogo teatral para eu mesmo dar vida a ele nos palcos. Viver Nilo é um ato de resistência contra o silenciamento dos meus ancestrais afros. E Nilo é um deles”, completa.
Déo Garcez declama homenagem
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Foto: Divulgação
Há mais de uma década, Déo realiza o espetáculo que conta a história de Luiz Gama, outro homem negro que travou uma luta abolicionista em busca de justiça.
Ele agradeceu a todos que participaram da caravana.
“Não apenas plantamos uma árvore, estamos fazendo justiça histórica, devolvendo a Campos e ao Brasil a memória viva do nosso primeiro presidente negro. Tentaram embranquecê-lo fisicamente por conta do preconceito racial, mas a sua essência negra resistiu ao tempo”, disse.
O historiador Genilson Soares, que também dedica anos de estudo à vida de Nilo Peçanha, agradeceu, no local, a Sônia, arrendatária do sítio onde ainda resiste um pequeno marco da moradia onde nasceu o ex-presidente campista.
“Em 2 de outubro de 1867, nascia, neste lugar, Nilo Procópio Peçanha. Aqui se encontrava a sede da Fazenda Deserto Feliz, pertencente à sua avó materna, Thereza Maria de Oliveira. Filho de Sebastião de Sousa Peçanha e Joaquina Anália de Sá Freire, Nilo sairia deste chão para construir uma trajetória extraordinária na vida pública brasileira, chegando à Presidência da República em 1909”, fez a leitura no local.
Segundo Soares, a celebração da data plantando uma árvore traz consigo uma poderosa simbologia: "o baobá, árvore emblemática do continente africano, cuja longevidade, resistência e extraordinária capacidade de sobrevivência fizeram dela, em diferentes culturas africanas, um símbolo de ancestralidade, memória e continuidade”, disse.
Ainda pelas bandas do Morro do Coco, a presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Campos dos Goytacazes, Graziela Escocard, também falou sobre a iniciativa do ato simbólico e o papel do Instituto em manter viva a história desse homem tão importante para o país. Ela reforçou que, no local, ocorreu a junção da pesquisa histórica, memória, patrimônio e arte.
“Plantar este baobá nos alicerces da casa onde Nilo Peçanha nasceu e viveu é um gesto de enorme força simbólica. Estamos plantando vida onde a história deixou suas raízes”, concluiu Graziela.