Pesquisa: Adolescentes com TEA em Campos revelam sentimento de exclusão
- Atualizado em 05/10/2026 18:15
Divulgação: assessoria da Uenf
Isolados, esquecidos, inferiores. É assim que muitos adolescentes com autismo que vivem em Campos dos Goytacazes dizem se sentir dentro da escola, de acordo com a pesquisa de mestrado feita pela professora Rafaela Batista Carvalho de Pina no Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem da Uenf. O estudo ouviu dez adolescentes com TEA, metade verbais e metade não verbais, além das dez mães.
Sob orientação do professor João Almeida, do Centro de Biociências e Biotecnologia da UENF (CBB), a pesquisa mostrou que, dentre os alunos pesquisados, são comuns sentimentos de frustração, ansiedade e rejeição, alimentados pela comparação constante com colegas neurotípicos, a falta de escuta de suas demandas e episódios de bullying — muitas vezes tolerados pela própria instituição. Para alguns, até o ruído excessivo da sala de aula se transforma em barreira: a hipersensibilidade auditiva afeta o desenvolvimento e a permanência desses estudantes no ambiente escolar.

O trabalho investigou a construção identitária e os enfrentamentos de adolescentes com TEA no ambiente educacional do município de Campos dos Goytacazes, relacionando-os aos conceitos de capacitismo e neoeugenia.

— O capacitismo é a discriminação contra pessoas com deficiência, sustentada por ideais que valorizam um padrão corporal e cognitivo considerado “normal”. Na escola, isso aparece na pressão por homogeneidade, que resulta em exclusão, marginalização e sofrimento — diz Rafaela, ela própria mãe de uma adolescente no espectro do TEA.

Um dos relatos que mais marcaram Rafaela veio de um adolescente participante, que questionou por que ser um indivíduo com autismo é tratado como algo ruim se todo mundo é diferente.

— Muitos falaram sobre exclusão, sobre se sentirem isolados, esquecidos, inferiores, realmente segregados dentro da escola. Muitos disseram que se fala tanto de inclusão, mas, na prática, ela não acontece — conta.

As mães ouvidas apontam falhas semelhantes. Entre as queixas estão a ausência de adaptações e do Plano Educacional Individualizado (PEI), ao qual o aluno tem direito, e a falta ou a insuficiência de mediação.

Um dos casos relatados é o de um adolescente com nível 3 de suporte, de uma escola particular, que foi suspenso duas vezes. Em um momento de desregulação, enquanto a mediadora não estava por perto, ele deu uma cotovelada em outro aluno. Segundo a pesquisadora, a escola interpretou o ato como agressão, e não como uma tentativa de autorregulação.

— A mãe dele foi à escola reclamar, mas não foi ouvida. O aluno não fez aquilo intencionalmente, mas ninguém quer saber disso. Ele é um adolescente alto é forte, e naquele momento ele estava querendo se autorregular. Ele foi culpabilizado, mas a questão é que a mediadora deveria estar perto para fazer esse manejo — explica a pesquisadora.

Os participantes — que estudam em escolas públicas e privadas — foram encontrados por meio de um grupo de pais de pessoas com autismo em Campos, e as entrevistas foram feitas nas casas das famílias, o que permitiu à pesquisadora observar a dinâmica de cada uma.

Graduada em Ciências Biológicas pela UENF, Rafaela é professora da educação básica há 23 anos e leciona Biologia na rede estadual. Mesmo sendo mãe de uma adolescente no espectro do TEA, ela diz ter se surpreendido com o que ouviu: durante as entrevistas, muitas mães choraram e mostraram revolta diante de uma trajetória que descrevem como solitária.

Para a pesquisadora, o problema já não é falta de informação.

— É falta de aplicabilidade, de boa vontade e de aplicação da política pública de inclusão. Está tudo na lei brasileira de inclusão e na lei de proteção da pessoa com autismo, mas, na prática, não acontece — avalia.

Ela reconhece, como professora, que a tarefa não é simples para escolas e docentes, mas lembra que quem acaba no prejuízo é sempre o aluno e a família. A dissertação defende uma postura anticapacitista e uma educação inclusiva que valorize a neurodiversidade, vá além do foco reducionista na infância e respeite a singularidade de cada estudante. Como desdobramento prático, o estudo sugere um projeto de lei municipal em Campos para tornar obrigatória a disponibilização de abafadores de ruído nas instituições públicas de ensino.

Agora no primeiro ano do doutorado, Rafaela quer transformar o diagnóstico em ação. A proposta é desenvolver oficinas com adolescentes autistas, inspiradas na abordagem das capacidades da filósofa Martha Nussbaum, para que eles se autoconheçam, descubram suas potencialidades e construam estratégias para a transição à vida adulta, com autonomia que, quando não for plena, seja apoiada e bem estruturada.

As oficinas não chegarão prontas: antes, haverá uma entrevista pré-intervenção para identificar o que inquieta os participantes, e o tema dos encontros será definido a partir dessas respostas. A pesquisadora também busca parceria com uma psicóloga e espera, futuramente, realizar os encontros na Uenf.

Com informações da assessoria da Uenf. 

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