* Arthur Soffiati
- Atualizado em 07/10/2026 08:39
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Ernst Lubitsch nasceu em 1892 em Berlim. Era filho de alfaiate e levou para seus filmes o requinte dos figurinos. Começou em 1914, no mesmo ano de estreia de Charles Chaplin. Formado em arte cénica, tentou talvez criar um tipo como Carlitos, mas não deu certo. Iniciou-se como diretor fazendo comédias. Em 1918, lançou seu primeiro drama: “os olhos da múmia”, com Emil Jennings e Pola Negri, artistas que aparecerão em outros filmes seus.
Ainda em 1918, filmou “Carmen”. Em 1919, lançou “Madame Du Barry”. Este filme foi considerado seu passaporte para os Estados Unidos. Comentava-se que Lubitsch era o Griffith a alemanha. Mas ele tinha luz própria e a demonstrou, antes de embarcar para Hollywood, nos dramas “Sumurun” (1920), “Ana Bolena” (1920) e “A mulher do Faraó” (1922). Ele filmava mais na linha do realismo romântico norte- americano que na linha do expressionismo alemão.
Na fase americana, ele não esqueceu a Europa. Quase todos os seus filmes a partir de 1923, nos Estados Unidos, são ambientados em capitais de países europeus. Até mesmo em países inventados por ele são o cenário. Embora tivesse se destacado em dramas, foi a comédia que o consagrou. Logo, ele conquistou a admiração de outros cineastas e a consagração pública. Embora detestasse a guerra, o nazismo e o comunismo, Lubitsch guardou admiração pela nobreza. Seus filmes mostram isso. Mas os nobres não escapam de sua crítica.
Ao mesmo tempo, os filmes de Lubitsch não devem ter agradado muito o público moralista norte-americano, pois ele apreciava roteiros focalizando a infidelidade no amor. Não só homens são infiéis, como mulheres também. Mas ele trata o tema com leveza e alegria, como se fosse algo muito natural. Logo, ele teve de burlar o código de ética do cinema norte-americano.
Outro traço de Lubitsch é o voyerismo. O olhar tem um peso considerável em seus filmes. Os personagens olham por janelas e pelo buraco de fechadura. Descrevem o que está acontecendo diante de seus olhos, sem que as câmaras enforquem o que está sendo descrito. Nesse conspecto, ele faz jus à linguagem do cinema, pois vai além da literatura (roteiro) e do teatro (atuação). A câmara fala de um forma discreta e delicada. Seu cinema é de arte, mas não afasta o público comum.
“O cantor de jazz” (1927) é considerado o primeiro musical do cinema. Em 1929, Lubitsch lança “Alvorada do amor”, também musical, com Jeanette MacDonald e Maurice Chevalier. O musical se tornou um clássico. Ambientado no imaginário país de Silvania, o filme apresenta todas as características do seu autor. Ambientes luxuosos, portas imensas que se abrem e se fecham, figurinos requintados e o famoso toque do diretor: o olhar, o sutil erotismo e a linguagem cinematográfica. Uma conversa sobre estrabismo é interrompida por Ben Turpin, o mais famoso comediante estrábico.
Um ano depois, ele repete a dose em “Monte Carlo” (1930) com a mesma Jeanette MacDonald contracenando com Jack Buchanan. Os momentos geniais do filme são um dueto cantado por uma ligação telefónica, um relógio em que, no lugar do cuco, aparecem bonecos tocando uma melodia do musical com instrumentos, e uma ópera que narra o que aconteceu e acontecerá entre o casal protagonista.
“O tenente sedutor”, musical de 1931, tem também a marca do diretor, mas está ligeiramente aquém dos dois citados. Com toda a genialidade de Lubitsch, seus filmes são datados. Eles não atraem mais o público de hoje, pois representam uma época entre o cinema mudo e aquele produzido com técnicas virtuais. Uma época que já passou há muito tempo. Contudo, os filmes continuam valendo para os cinéfilos.