Felipe Fernandes - O herói moderno na mitologia
*Felipe Fernandes - Atualizado em 05/08/2026 07:51
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Filme: A odisseia - Originalmente composta no final do século VIII a.C., a autoria da Odisseia é geralmente atribuída a Homero. No entanto, historiadores acreditam que o texto resulta de uma longa tradição oral. O poema começou a ser registrado por escrito no período em que o alfabeto grego foi adotado e adaptado. Com cerca de 12 mil versos, divididos em 24 cantos, tornou-se uma das obras mais significativas da literatura ocidental, inspirando diversas adaptações para o cinema. Agora, retorna às telas na maior produção já realizada sobre a obra.

O filme adapta a jornada de Odisseu ao incorporar algumas temáticas contemporâneas e explorar temas recorrentes da filmografia de Christopher Nolan, sem abandonar os elementos centrais do poema original. O resultado é uma adaptação complexa e ousada.

Uma das principais características do cinema de Christopher Nolan é a busca por um certo realismo. Mesmo quando trabalha com ficção científica, fantasia ou narrativas históricas, o diretor procura convencer o espectador de que aquele mundo possui regras concretas e consequências reais. A trama central da Odisseia apresenta criaturas mitológicas e a ação direta dos deuses, mas esses elementos recebem um tratamento mais físico e concreto. O fantástico não se transforma em espetáculo; os ambientes são obscuros, sujos e distantes da fantasia idealizada, aproximando-se de um cenário hostil e mundano.

As principais mudanças nesta versão do protagonista surgem dessa aproximação entre o real e o fantástico. Toda a jornada de Odisseu e de seu grupo adquire um novo contorno dramático, que dialoga com os dilemas do mundo contemporâneo. O foco deixa de ser a grandiosidade das aventuras e assume um peso trágico. Os traumas da guerra, a culpa pela sobrevivência e a ausência do lar tornam-se elementos centrais da narrativa e das dores do protagonista. O resultado é um personagem mais próximo do cinema contemporâneo do que da tradição épica.

No poema, Odisseu sente orgulho de seus feitos militares, mesmo quando eles geram consequências negativas. Nolan desloca o centro da narrativa para a culpa. A Guerra de Troia deixa de representar apenas uma vitória heroica e passa a simbolizar um peso moral que acompanha o personagem durante toda a viagem. Assim, o retorno deixa de ser apenas físico e também assume uma dimensão psicológica.

Com roteiro do próprio diretor, o filme acompanha dois núcleos centrais e utiliza a narrativa oral como base de sua estrutura. A construção de Odisseu acontece por meio da perspectiva de diversos personagens, incluindo a do próprio protagonista. Nesse sentido, o núcleo de Ítaca mostra-se muito eficiente na construção do mito do herói, pois são os relatos das pessoas mais próximas que moldam sua imagem. Telêmaco nunca conheceu o pai e ocupa uma posição muito semelhante à do espectador no início da narrativa. Sua jornada consiste em compreender quem foi esse grande homem e líder venerado por todos, mas ausente durante toda a sua vida.

A própria Penélope ganha uma dimensão mais humana. Seu amor e sua fidelidade inabalável ao marido permanecem, mas deixam de representar apenas uma virtude e passam a expressar uma experiência de sofrimento, dúvida e desgaste. Nesse sentido, sua devoção assume um caráter semelhante ao da fé, que não apresenta provas, mas cobra crença. Penélope deixa de ser apenas a esposa ideal para se tornar uma mulher que sobreviveu, à sua maneira, aos mesmos vinte anos de guerra e ausência.

Apesar da estrutura fragmentada, que transita constantemente entre diferentes momentos da história, a narrativa permanece clara e mantém um ritmo muito agradável. São quase três horas de duração que passam rapidamente. Em Homero, muitos episódios possuem caráter episódico. Cada ilha representa um novo desafio que evidencia a inteligência do herói. No filme, esses acontecimentos transformam-se em experiências extremas de sobrevivência. A viagem deixa de parecer uma sucessão de aventuras e adquire a dimensão de um verdadeiro processo de resistência humana.

Tecnicamente, o filme é impressionante. Trata-se de uma produção grandiosa, fruto de um diretor que conquistou uma importância sem igual na indústria cinematográfica. As filmagens em locações reais, o uso de efeitos práticos e a escala monumental das imagens e da produção constroem um épico como há muito tempo não se via nos cinemas. A direção de arte, o desenho de som imersivo e a brilhante trilha sonora de Ludwig Göransson compõem um universo dramático impressionante e fazem de A Odisseia um dos grandes épicos deste início de século.

O único porém do filme está em algumas cenas de ação que, por vezes, se mostram confusas. Trata-se, inclusive, de um problema recorrente na filmografia de Nolan, principalmente nas sequências que envolvem muitos personagens. Felizmente, isso não ocorre durante toda a projeção e está longe de comprometer seus melhores momentos.

Christopher Nolan transforma A Odisseia em um épico que dialoga simultaneamente com a tradição e a contemporaneidade. Aliada a uma realização técnica impressionante, a obra reafirma que os grandes mitos permanecem vivos justamente porque podem ser reinterpretados por diferentes épocas. O resultado é um filme ambicioso, visualmente arrebatador e emocionalmente trágico, que honra o legado da obra original sem perder a personalidade autoral de Nolan. O diretor constrói uma ponte entre seu cinema e o mito clássico sem abrir mão do espetáculo, entregando uma adaptação que respeita Homero e, ao mesmo tempo, imprime uma identidade própria.

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