Arthur Soffiati - Idade do bronze
* Arthur Soffiati - Atualizado em 29/07/2026 07:46
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Só os conhecedores da mitologia grega poderão apontar erros em “A Odisseia”, mais recente filme de Christopher Nolan. Dirão os conhecedores da obra de Homero que em tais e tais pontos Nolan traiu o original. Para se respeitar um texto resultante da tradição oral grega e que fazia para os gregos um sentido diferente do nosso, seria necessário retornar há 1200 anos antes de Cristo, criar uma atmosfera mítica e ressuscitar uma civilização que já não existe mais, mesmo que alguns insistam em dizer que a civilização ocidental é continuação do mundo helênico. Nós vivemos numa atmosfera laica, embora os mitos ainda existam, mas sua natureza não é a dos egípcios e gregos da antiguidade.

Aliás, o cinema cria um mundo mágico muito bem explicado por Edgar Morin. Contudo, esse mundo não é o das sociedades sacralizadas. Giovanni Pastrone, que me consta, foi o primeiro cineasta a levar para as telas a famosa Guerra de Troia, em 1911. Trata-se de um filme soberbo em todos os termos para a época, mas já continha os ingredientes dos filmes sobre mitologia da atualidade. Cinema é uma arte cara e
popular. Ao mesmo tempo em que um cineasta competente como Nolan não pode
tratar temas antigos de maneira superficial, ele também não pode se dirigir apenas a
especialistas.
Neste sentido, Nolan supera em muito o “Tróia”, de Wolfgang Petersen (2004). A técnica de filmagem é inovadora para quem produz, mas passa despercebida pelo
espectador. Se “A Odisseia” não é filme voltado para as massas, a começar pela
duração de 3 horas, não é também um filme voltado para helenistas. Mesmo assim, é
um filme que honra a “Odisseia”, de Homero.
Depois do massacre que os gregos perpetraram a Troia, na Ásia Menor, Odisseu faz uma longa viagem de retorno a Ítaca, onde era rei. Sua esposa Penélope conta com muitos pretendentes, mas encontra uma desculpa: enquanto não terminar o seu tecido, nada de casamento. Seu filho Telêmaco também acredita que o pai esteja
vivo.
O que mais conta em “A Odisseia” é a viagem de retorno do rei atormentado
pelos horrores da guerra. Ele e seus comandados enfrentam o Ciclope, a bruxa, os
gigantes, as sereias e a fúria do mar. Aos poucos, seus comandados vão morrendo.
Só Odisseu sobrevive e vai perdendo a memória. Acaba numa ilha com a bela ninfa
Calipso. Mas deseja voltar a seu reino, onde encontra os pretendentes de Penélope.
Todos eles são mortos por Odisseu.
Nolan conduz o filme com cortes espaço-temporais. Sei que a Ásia Menor foi
um ponto de encontro de várias civilizações. Mas tenho dúvidas se Nolan teria sofrido
pressões para ser politicamente correto ao conceber uma Helena negra. Há também
uma fala de Penélope revelando consciência de se chagar ao fim da Idade do Bronze.
Quem vivia na Idade Média não tinha consciência disso até porque o conceito foi
criado no renascimento. Paleolítico, neolítico, idade do Bronze são conceitos criados
por historiadores e arqueólogos contemporâneos. O medo dos Povos do Mar está
contextualizado. De fato, a grande migração de povos diversos pelo oriente médio e
Egito a todos assustava.
Enfim, "A Odisseia" é o melhor de Nolan, que se afirmou como um dos poucos bons cineastas da atualidade. 

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