O Coletivo Negritude Plena de Campos se prepara para um momento importante em sua trajetória artística: a ida ao Rio de Janeiro, no Renascença Clube, para apresentar seu espetáculo “Ciata, Presente!” na Roda de Samba de Marcelinho Moreira, cantor, compositor, artista respeitado no cenário do samba carioca. A apresentação será nesta quarta-feira (13), às 17h. O espetáculo com trupe de artistas de Campos une memória negra e arte feita com bitucas recicladas, com a criação da boneca "Nega Legal".
O trabalho, que começou há cerca de um ano e meio como teatro de rua e expressão do teatro negro, agora ganha novos caminhos. "A apresentação que será levada à capital fluminense nasceu de forma independente e comunitária. Durante todo esse tempo, o espetáculo foi apresentado na região graças ao trabalho voluntário de artistas e colaboradores que acreditaram na força da proposta", conta a idealizadora do Negritude Plena, a atriz Alba Valéria Dias.
Além de Alba, o elenco do grupo de Teatro Caixola de Baco que estará se apresentando tem os atores: Neusinha da Hora,Estefany Brito, Samyla Jabor e Paulo Victor Santana.
Parte do elenco do "Ciata, Presente!"
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Divulgação
No atual momento, com maior estrutura e reconhecimento, o coletivo amplia o projeto e passa a incorporar também uma importante iniciativa ambiental.A ideia é recolher bitucas de cigarro descartadas nas ruas, nos bares, nas rodas de sambas, nas praias, nas praças e transformá-las em elementos de cenário e obras de arte utilizadas nas montagens teatrais.
A proposta une consciência ambiental e criação artística, mostrando que até mesmo o lixo urbano pode ser ressignificado quando passa pelas mãos da arte.
Mas o espetáculo vai além da estética. No palco, o coletivo conta histórias que fazem parte da memória e da resistência do povo negro no Brasil. A primeira narrativa homenageia Tia Ciata, figura central para a consolidação do samba e para a preservação das tradições afro-brasileiras no Rio de Janeiro. A apresentação carrega ainda um forte simbolismo espiritual e cultural, pois acontecerá no Dia de Preto Velho, data que reverencia a sabedoria ancestral e a memória dos mais velhos na tradição afro-religiosa.
A ida ao Rio também se conecta a encontros que fortaleceram o caminho do coletivo. Um deles foi com o sambista Nego Álvaro, após um show realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no dia 6 de abril. "A aproximação ajudou a abrir portas e reforçou o diálogo entre duas linguagens profundamente ligadas à cultura popular brasileira: o teatro e o samba", destaca Alba.
Para os integrantes do coletivo, esses encontros representam a possibilidade de ampliar parcerias e fortalecer uma rede cultural comprometida com a valorização da cultura negra. A viagem ao Rio tornou-se possível graças ao apoio do Sindipetro, instituição que tem incentivado iniciativas culturais e ajudou a viabilizar financeiramente a ida do grupo.
Entre suas criações, a boneca “Nega Legal” é utilizada como coletora de bitucas de cigarro. Esses resíduos, posteriormente, serão reaproveitados na produção de cenários, quadros e outras expressões artísticas. A iniciativa também atua como um importante alerta sobre os impactos do descarte inadequado, considerando que a bituca de cigarro é um dos resíduos que mais poluem mares, rios e oceanos no mundo.
Em março passado, a boneca "Nega Legal" fez sua primeira aparição e foi apresentada na Praça do Liceu em uma das edições do tradicional Samba da Praça, em Campos. A boneca é uma criação da artesã Rosângela Nascimento Santana, de Quissamã; ela que tem seu trabalho com recicláveis, sementes, grãos e folhas reconhecido, principalmente com a boneca abayomi e é referência nesse tipo de arte.