* Arthur Soffiati
- Atualizado em 25/02/2026 07:48
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Passado o experimentalismo curioso que a técnica da fotografia em movimento despertou, entre 1895 e 1905, o cinema começou a ser usado para narrar histórias. Sem abandonar os truques, os diretores começam a reunir roteiros, artistas, trilha sonora e fotografia narrativa. Utilizado até então para fins documentais, o cinema começa a ganhar sentido narrativo. Uma espécie de teatro filmado. Despontam os nomes de Alice Guy-Blaché, Georges Méliès e Ferdinand Zecca. Este, com Lucien Nonguet, filma, em 1903, “A vida e a paixão de Jesus Cristo”, já com praticamente todos os recursos do cinema atual menos o som.
Dentre esses pioneiros, destaca-se a figura refinada de Louis Feuillade, autor de cerca de 800 filmes. Além da narrativa, Feiullade deu um toque de arte a alguns de seus filmes. Dele, assisti apenas quatro filmes para concluir que estava diante de um mestre. Nos filmes curtos, ele privilegia questões morais sem baixar a guarda quanto à arte. Em “Custódia” (1909), focaliza a separação de um casal e a guarda do filho. O final é feliz, com a reconciliação de marido e mulher. Em “Defeito” (1911), o filme se estende por 40 minutos narrando a trajetória de uma garçonete em Paris, ao lado de muitas, que atendiam a homens. Existe a conotação de prostituição. Um médico frequentador do restaurante convida uma das garçonetes a trabalhar com ele numa clínica do interior.
Os dois filmes são marcados pelo posicionamento da câmara. Colocada no centro, ela aumenta a tridimensionalidade do espaço. O ambiente externo aparece de forma magnifica. A garçonete se transforma na alma da clínica depois da morte de seu tutor, até ser denunciada por um dos frequentadores do restaurante. Inveja e intriga entram em cena. O autor usa uma parede como divisória para a própria câmara a fim de mostrar dois ambientes. Expulsa da clínica, a mulher tenta o suicídio, mas se controla e pensa em trabalhar no Oriente como enfermeira.
O terceiro é a grande obra de arte de Feiullade. Trata-se de “Coração e dinheiro” (1912) codirigido com Léonce Perret. Mais uma vez, uma narrativa moral. Uma moça ama um rapaz pobre. A mãe quer que ela se case com um homem rico que frequenta o hotel dela. Em rápidos cortes, a moça se casa com o milionário, fica viúva e volta a procurar o antigo amor. Este a repudia e ela se mata. Era um desfecho forte para a época. A fotografia é de um esverdeado quase sépia que mostra as paisagens naturais da França. Lembro-me de ter visto esta beleza de fotografia em “Um dia no campo” (1936), de Jean Renoir. Mas não apenas nas tomadas externas o filme se mostra um dos mais belos do cinema mudo. O mérito é, em grande parte, do coautor Perret. O melodrama tem muitas locações externas. A luz fala muito. A moça com o namorado é mostrada em ambiente externo luminoso. A luz fala da alegria de ambos. Com o homem mais velho e rico, logo seu marido, as cenas são em grande parte internas. A redução da luz fala da tristeza. A pobreza se associa à claridade e a riqueza à escuridão.
E o filme utiliza o recurso da tela dividida. Um lado mostra o presente e outro o passado ou as recordações. A moça pensa no namorado. Ela está na tela à esquerda e ele na tela á direita de quem vê o filme. Em outra cena de tela dividida, as posições se invertem. Raramente se usou a técnica da tela dividida nos primórdios do cinema.
Mas a contribuição de Feuillade não cessa aí. Ele escreveu e dirigiu seriados, como “A vida como ela é” (1911-1912), o famoso “Os vampiros” (1915) e “Judex” (1916), entre outros. “Os vampiros”, é o mais conhecido. Foram 10 capítulos com duração de 417 minutos. Quando você assiste a uma série na TV atualmente, deve se lembrar que tudo começou em 1915 com este seriado policial que influenciará os filmes policiais da atualidade. Creio que, pela primeira vez no cinema, mostra-se um investigador saltando de um viaduto sobre um trem em movimento.