No território norte-fluminense, existem duas restingas formadas em épocas diferentes. Uma se estende entre o rio Macaé e Barra do Furado, com 120 mil anos. Outra, de Barra do Furado ao rio Guaxindiba, com menos de 5 mil anos. É esta segunda que denomino de restinga de Paraíba do Sul pelo importante papel que o rio Paraíba do Sul desempenhou em sua formação, juntamente com o mar.
Quando os portugueses aportaram no Brasil, esta planície arenosa era habitada pela nação goitacá, vivendo numa pródiga economia de subsistência. A colonização europeia implicou na extinção dos povos nativos e na implantação de uma economia de mercado, nada apropriada para um ambiente com muitas lagoas e vegetação típica de terrenos arenosos. Identifico quatro eixos da colonização europeia da restinga: 1- São João da Barra-Barcelos; 2- Barra do Furado-Santo Amaro; 3- Guarus-Gargaú; e 4- Pipeiras-Açu. Este último é o menos conhecido.
Em Pipeiras, sede do 5º distrito de São João da Barra, o curioso e atento perceberá que o terreno é arenoso e o padrão urbanístico-arquitetônico tem matriz europeia, por mais que não apresente os traços de uma grande cidade, como Rio de Janeiro ou São Paulo. A presença africana também seria patente. O lugar de nome Cazumbá é indício dessa presença.
Examinando o mapa elaborado por Manoel Martins do Couto Reis, de 1785, verifica-se, na restinga, a vila de São João da Barra e o núcleo de Atafona. No mais, havia muita água na margem direita do rio Paraíba do Sul. Esse volume líquido, acumulava-se em lagoas e fluía lentamente para o mar por drenos naturais. A areia da restinga e o grande banhado da área foram fatores limitantes para uma colonização de tipo europeu. Para os povos nativos, a restinga e a água representavam fontes de alimentos.
No entanto, Couto Reis assinala nomes de proprietários em terreno alagado. Mais na margem esquerda do Paraíba do Sul que na direita. Em todo o século XIX, não há registro de localidades no lado direito da restinga. Pipeiras começa a aparecer nos mapas na década de 1930 como um lugar isolado, sem comunicação por ferrovia ou rodovia. Assim, provisoriamente, suspeita-se que o eixo de colonização de tipo europeu que seguiu o rio Água Preta ou Doce é novo em relação aos outros eixos.
O rio Doce ou Água Preta não é um afluente do Paraíba do Sul, mas um defluente dele. Suas águas não correm para o Paraíba do Sul, como as do Muriaé, mas partem do Paraíba do Sul, em suas cheias, em direção a outro rio que corria junto à costa: o Iguaçu. Entre 1940 e 1950, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) aproveitou o curso irregular do rio Água Preta para transformá-lo no canal do Quitingute, o maior da baixada, ligando indiretamente o rio Paraíba do Sul ao canal da Flecha. Acredita-se, provisoriamente, que a drenagem da restinga criou áreas para a urbanização.
Assim, o mapa que Alberto Ribeiro Lamego publicou em 1954 assinala Pipeiras, Barra do Taí, Cazumbá, Marrecas e Barra do Açu, locais acessados por estradas carroçáveis a partir de Barcelos e Baixa Grande. O eixo do rio Água Preta é o último da restinga de Paraíba do Sul. Mas uma pesquisa apenas por mapas é insuficiente. As grandes lagoas na restinga foram drenadas. Restaram remanescentes da lagoa do Taí. A vegetação de restinga foi suprimida em grande parte. Uma rala agricultura e o pastoreio ocuparam seu lugar. Restaram alguns tufos da vegetação nativa. Os vastos campos de areia estão sendo, aos poucos, ocupados por estradas, postos de combustíveis, pequenos núcleos urbanos.
O que precisa ser feito é pesquisa documental. Trabalhos acadêmicos também precisam ser feitos. Procurando a literatura científica sobre o eixo rio Água Preta, até o momento, conheço “A planície do solar e da senzala” (Rio de Janeiro: Católica, 1934) e “O homem e a restinga” (Rio de Janeiro: IBGE/Conselho Nacional de Geografia, 1946), ambos de Alberto Ribeiro Lamego. São livros datados, tanto no que concerne à formação geológica da restinga quanto à concepção sobre sua flora, fauna, economia e sociedade. A restinga, segundo Lamego, é a pátria do preguiçoso muxuango. Mas os dois livros continuam sendo obras fundamentais para conhecer aquele ainda distante e magnifico sertão.
Os poucos trabalhos deixados pela Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense e pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento contêm informações colaterais. “O folclore na vivência atual de Açu, Marreca e Quixaba (Campos, RJ)”, de Maria Rita da Silva Lubatti (São Paulo: Livramento, 1979), é um livro despretensioso, mas com preciosas informações sobre a sociedade, a economia e a cultura de três lugares da restinga entre as décadas de 1950 e 1970. A respeito das transformações sofridas pela localidade do Açu entre os anos de 1980 e 1990, contamos com a dissertação de mestrado de Jorge Luiz Gomes Monteiro (Brasília: Universidade de Brasília, 1996). Todos eles se referem a uma realidade anterior à instalação do Complexo Industrial-Portuário do Açu, no início da segunda década do século XXI. A instalação do chamado Porto exigiu um grande volume de estudos sobre impacto ambiental que interessam mais ao empreendimento que aos estudiosos.
Por outro lado, a academia vem se debruçando sobre os impactos socioambientais do Porto. Destaco a tese de doutorado de John Marr Ditty, “Águas roubadas por grandes empreendimentos: a seca da pesca, do artesanato e da agricultura familiar” (Campos dos Goytacazes: UENF, 2017), centrada na localidade de Quixaba.
Falta-nos ainda uma visão de conjunto que aborde o ambiente natural, a economia, a sociedade, a cultura e a urbanização do eixo rio Água Preta ou Doce ou ainda canal de Quitingute. A margem direita do rio é a mais urbanizada, seguindo o traçado da RJ-196 e SB-48. Os núcleos principais são Vila Abreu, Palacete, Beira do Taí, Pipeiras, Barra do Jacaré, Sabonete, Cazumbá, Córrego Fundo, Marrecas, Quixaba e Açu.
Partindo do povoado do Açu e seguindo pela margem esquerda do referido rio ou canal, RJ- 240, assinalem-se Bajuru, Mato Escuro e Água Preta. A margem esquerda conta com maior movimento, pois a estrada é via de acesso ao complexo portuário do Açu. É grande, por ela, a circulação de veículos pesados. Postos de combustíveis e restaurantes já estão se erguendo nessa estrada para atender a caminhoneiros.
*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.