*Edgar Vianna de Andrade
28/01/2026 11:45 - Atualizado em 28/01/2026 11:45
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Não tenho nenhuma formação em cinema. Minhas reflexões e meus comentários sobre a sétima arte decorrem de cinefilia e leituras. Sempre dependi das salas de cinema, hoje em declínio. Raramente recorro a plataformas na televisão. Mas conto, ainda, com uma grande coleção de DVDs.
Em 2020, os cinemas fecharam por conta da pandemia. Decidi, então, desarquivar filmes a que eu nunca havia assistido. Dei preferência a filmes considerados ruins. Era preciso conhecê-los como comentarista de cinema desde 2005, na Folha da Manhã. Eram, principalmente, filmes produzidos entre 1950 e 1965. Com interesse, passei a comentá-los.
Concluí que aqueles filmes revelavam uma indústria cinematográfica norte-americana nos porões dos grandes estúdios. Houve cineastas formidáveis nessa década, como Roger Corman, Jack Arnold e Nathan Juran. Corman começou fazendo de tudo: carregava e montava cenários, atuava como iluminador, distribuía cartazes, redigia roteiros, iluminava, maquiava e dirigia. Além disso, revelava nomes de artistas, como Jack Nicholson e Francis Ford Coppola. Corman se tornou uma lenda. Os efeitos especiais eram caros, mas havia Ray Harryhausen, o grande mago do stopmotion. Seu trabalho era caro, mas havia concessões. O filme podia ser ruim, mas seus bonecos eram sinônimo de qualidade. Uma miniatura de pterossauro podia transportar Rachel Welch nas garras.
Esses filmes de segunda categoria inspiraram filmes hoje considerados marcos do cinema. Dan O'Bannon, roteirista de “Alien” fala da influência exercida sobre ele de “O monstro do Ártico” (1951), “O planeta proibido” (1956), “O planeta dos vampiros” (1965). Aponto ainda “Ele! O terror que vem do espaço” (1958), de Edward L. Cahn, e “O planeta dos vampiros” (1965), de Mario Bava, outro nome icônico.
Os diretores de filme B alertavam e exploravam os medos com filmes como “A invasão de Marte”, “Tarântula”, “O ataque dos caranguejos monstruosos”, “A guerra dos mundos”. Por trás de uma invasão de seres extraterrestres, havia o medo de uma invasão soviética.
Os filmes da década de 1950 marcaram muito diretores como Steven Spielberg, George Lucas, Tobe Hooper e Quentin Tarantino. O esquema de um filme como “Tubarão”, o segundo de Spielberg e que lotou os cinemas, vem dos filmes B: uma pequena cidade que enfrenta um problema. De um lado, um político ou um empresário querendo promover o lugar, mesmo com um perigo iminente. De outro, um cientista ou uma pessoa comum, alertando sobre o perigo. O “mostro” aparece e estraga a festa. Mas, apesar de tudo, o bem triunfa sobre o mal.
Assistindo a esses péssimos-ótimos filmes, percebi que gosto mais de cinema que de filmes. Decidi escrever sobre esses filmes considerados B pelo baixo orçamento. Meus comentários foram reunidos no livro “Um cinéfilo em quarentena seguido de seres extintos no cinema”. Neles, aparecem discos voadores, monstros que saem do mar, mulheres seminuas nos braços de macacos, zumbis, caveiras. Entrei nesse mundo e não consigo sair.