Por que os grandes clássicos ainda ajudam a resolver problemas do cotidiano?
Evandro Barros
Vivemos cercados por problemas que parecem muito modernos.

Conflitos familiares, dificuldades no trabalho, decisões profissionais, disputas políticas, relações de consumo, problemas jurídicos, divergências entre sócios, crises de confiança e escolhas que podem alterar completamente o rumo de uma vida.

A tecnologia mudou. As instituições mudaram. A velocidade das informações mudou.

Mas o ser humano, em muitos aspectos fundamentais, continua enfrentando questões bastante antigas.

O que é justo?

Como devemos agir diante de uma situação difícil?

Quando obedecer a uma regra e quando questioná-la?

Como distinguir aquilo que parece vantajoso daquilo que realmente é bom?

Até onde vai o nosso interesse e onde começa o direito do outro?

São perguntas que aparecem diariamente nos escritórios, nas empresas, nas famílias, nos tribunais e na política. E algumas delas já eram discutidas há mais de dois mil anos.

É justamente por isso que acredito que conhecer os grandes clássicos não representa apenas acumular cultura. É também uma forma de aprender a pensar melhor sobre problemas concretos.

Platão e uma pergunta que continua atual

Em A República, Platão constrói um longo diálogo sobre a justiça.

Em determinado momento da obra, surge uma ideia provocadora: seria a justiça simplesmente aquilo que beneficia quem possui mais poder?

A pergunta atravessou os séculos porque permanece surpreendentemente atual.

Imagine, por exemplo, uma relação contratual entre uma grande empresa e um consumidor.

De um lado existe uma organização economicamente estruturada, com departamentos jurídicos, contratos previamente elaborados e conhecimento técnico sobre o serviço oferecido.

Do outro, uma pessoa comum tentando compreender aquilo que assinou.

Se adotássemos a lógica segundo a qual o mais forte pode simplesmente impor suas condições, bastaria existir uma cláusula contratual para que qualquer situação fosse considerada justa.

Mas o Direito moderno não funciona dessa maneira.

Existem princípios, limites e mecanismos destinados justamente a impedir que uma posição de superioridade econômica seja utilizada de maneira abusiva.

A discussão de Platão, portanto, não resolve diretamente um processo judicial contemporâneo. Evidentemente, não encontramos em A República uma resposta sobre contratos bancários, relações trabalhistas ou responsabilidade civil.

O que encontramos ali é algo anterior e talvez ainda mais importante:

uma maneira de formular corretamente o problema.

E muitas vezes uma boa solução começa exatamente por uma boa pergunta.

Os clássicos treinam uma habilidade essencial: perceber o que está por trás do problema

No cotidiano profissional, raramente um problema é exatamente aquilo que parece ser à primeira vista.

Uma discussão entre dois sócios pode parecer apenas financeira, quando na verdade envolve perda de confiança.

Um conflito familiar pode chegar ao Judiciário revestido de argumentos jurídicos, embora sua origem esteja em acontecimentos ocorridos muitos anos antes.

Uma controvérsia contratual pode aparentemente depender apenas da leitura de determinadas cláusulas, mas envolver também desequilíbrio entre as partes, expectativas frustradas e diferentes interpretações sobre aquilo que havia sido combinado.

É nesse ponto que as Humanidades possuem grande importância.

A Filosofia ensina a formular perguntas.

A História ajuda a compreender contextos.

A Literatura amplia nossa percepção sobre comportamentos humanos.

A Política permite compreender o funcionamento das instituições.

E o Direito transforma parte dessa compreensão em instrumentos concretos de organização da vida social e solução de conflitos.

Por isso, sempre considerei limitada a ideia de que a formação de um advogado termina no estudo das leis.

Conhecer a legislação é indispensável.

Mas compreender pessoas, instituições, interesses, conflitos e consequências também faz parte do trabalho.

Ler os clássicos não significa viver no passado

Existe uma diferença importante entre estudar o passado e ficar preso a ele.

Ler Platão, Aristóteles, Cícero, Santo Agostinho, Maquiavel, Shakespeare, Cervantes, Dostoiévski ou tantos outros grandes autores não significa procurar respostas prontas para problemas contemporâneos.

Significa entrar em contato com pessoas que pensaram profundamente sobre questões que continuam fazendo parte da experiência humana.

Ambição.

Medo.

Justiça.

Poder.

Lealdade.

Traição.

Responsabilidade.

Liberdade.

Dever.

Virtude.

Nenhuma dessas palavras pertence exclusivamente ao mundo antigo.

Elas aparecem todos os dias nos conflitos que chegam aos escritórios e aos tribunais.

Resolver problemas exige mais do que conhecer respostas

Talvez essa seja uma das maiores contribuições dos grandes livros.

Eles diminuem nossa pressa de responder.

Quem lê bons autores aprende rapidamente que problemas complexos raramente possuem soluções simplistas.

Antes de responder, é necessário compreender.

Antes de agir, é necessário avaliar consequências.

Antes de transformar um conflito em processo, é necessário descobrir exatamente qual problema precisa ser resolvido.

Essa postura possui consequências muito concretas na advocacia.

Em determinadas situações, a melhor estratégia será ajuizar uma ação.

Em outras, negociar.

Em algumas, produzir provas antes de qualquer medida.

E haverá situações em que a orientação juridicamente mais responsável será justamente não litigar.

O bom profissional não possui apenas um repertório de respostas.

Ele desenvolve capacidade para identificar qual é a verdadeira pergunta.

Os problemas mudam de aparência, mas certas questões permanecem

Quando Platão discutia a justiça em Atenas, evidentemente não poderia imaginar audiências virtuais, contratos eletrônicos, redes sociais, inteligência artificial ou relações de consumo realizadas por aplicativos.

Mas poderia reconhecer perfeitamente muitas das questões humanas presentes por trás desses fenômenos.

Quem possui poder?

Esse poder possui limites?

O que torna uma decisão justa?

Como equilibrar interesses diferentes?

Qual deve ser a função das instituições diante de um conflito?

Mais de dois mil anos depois, ainda estamos tentando responder a essas perguntas.

Talvez seja justamente por isso que determinados livros se tornam clássicos.

Não porque tenham resolvido definitivamente os grandes problemas humanos.

Mas porque continuam nos ensinando a percebê-los.

E, para quem trabalha diariamente tentando solucionar conflitos, compreender melhor os problemas quase sempre é o primeiro passo para encontrar soluções melhores.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Evandro Barros

    [email protected]

    Advogado, historiador, escritor (+ de 10 livros) e pesquisador, com especialização em Direito Tributário; mestre em Cognição e Linguagem e Doutorando em Políticas Sociais - UENF, com tese dedicada ao Licenciamento Ambiental. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Congonhas (MG).