Calor intenso, inundações e alagamentos: eleição também é sobre clima e adaptação
Érica Tavares, Guilherme Pereira, Daniela Bogado, Jefferson Carvalho - Atualizado em 02/10/2026 20:49
Isaac Esqueff - Acervo NESA/UFF
As políticas urbanas no Brasil, desde o século passado, pouco dialogaram com a questão ambiental. As ações sempre estiveram voltadas para ampliar, restringir ou tolerar distintas formas de ocupação do solo urbano, a depender dos interesses econômicos sobre o território, especialmente do ponto de vista do mercado. Essa lógica esteve totalmente descolada da preservação de ecossistemas, da sustentabilidade ambiental e urbana, bem como da garantia de condições adequadas de habitação e bem-estar.
A ocorrência de eventos climáticos extremos nas cidades, como alagamentos, inundações e enxurradas, foi e ainda é tratada como "excepcionalidade" ou "fatalidade imprevisível", perpetuando ciclos dramáticos de perdas humanas e materiais. Suas candidatas ou candidatos tratam desse assunto?
Como reconhecido no próprio “Plano de Adaptação Climática do Estado do Rio de Janeiro” de 2017 — que opera mais como um diagnóstico do que como um conjunto de propostas efetivas —, a gestão urbana e ambiental no Brasil e no Estado do Rio de Janeiro pautou-se por uma atuação altamente reativa: a estrutura da Defesa Civil e o direcionamento do orçamento público concentram-se no socorro emergencial, na distribuição de auxílios, na promoção de reassentamentos e na reconstrução pós-eventos climáticos extremos.
No Norte Fluminense não tem sido diferente. A região sintetiza o impacto de um histórico secular de intervenções ambientais agressivas, com retirada sistemática da cobertura florestal em favor das atividades agropecuárias, aterro e drenagem de áreas úmidas e lagoas, dinâmicas de erosão costeira e impactos ambientais profundos, inclusive em razão de atividades extrativas.
O núcleo urbano de Campos dos Goytacazes, por exemplo, expandiu-se historicamente sobre uma vasta planície com o aterro de brejos, canais e lagoas. Somada à segregação socioespacial, essa configuração empurrou as populações de menor renda para áreas ambientalmente suscetíveis, resultando em recorrentes cenários de inundações, como já acompanhamos nas localidades de Ururaí e Santo Eduardo. Todavia, a área central da cidade também fica impactada com as fortes chuvas, o que põe em evidência a drenagem urbana.
Macaé também vivenciou intenso crescimento demográfico e urbano, impulsionado pelas atividades de exploração de petróleo e pela instalação de grandes infraestruturas industriais e portuárias. A rápida impermeabilização do solo, chuvas intensas e ventos fortes expõem o município a riscos simultâneos de alagamentos, deslizamentos e erosão costeira. O avanço da erosão marinha na orla urbana, agravado por ressacas intensas, tem provocado o colapso de infraestruturas públicas e o desmoronamento de moradias populares, como observado no bairro Fronteira.
No município de São João da Barra, enquanto um grande complexo portuário explora e pressiona os recursos ambientais da região, comunidades enfrentam dificuldades de garantia dos serviços de abastecimento de água. O mundialmente conhecido caso da praia de Atafona também é resultante de um complexo de intervenções hídricas que levou a um grave processo de erosão costeira, com destaque para o histórico de destruição de moradias e vias litorâneas no distrito sanjoanense, além da mudança na foz do Rio Paraíba do Sul.
A lógica de desenvolvimento urbano do passado precisa ser revista. Na verdade, passou da hora! Já não se sustentam ações como investimentos concentrados em infraestruturas cinzas, a cor do concreto; sistemas de circulação baseados na mobilidade individual e motorizada (carros); mudança no curso de rios e lagoas para favorecer atividades econômicas; e contínua expansão urbana sob a dinâmica imobiliário-financeira. Tudo isso acarreta efeitos significativos e perceptíveis sobre nossa experiência em habitar e circular na cidade.
A capacidade adaptativa de um município, traduzida em um planejamento do solo que considere o sistema de espaços livres de caráter ambiental, deve ser tratada como a infraestrutura mais essencial da cidade contemporânea. Isso significa focar tópicos como gestão das águas, habitação digna com saneamento básico, infraestrutura verde com soluções baseadas na natureza, conservação de serviços ecossistêmicos e mobilidade sustentável.
É fundamental considerar o papel do planejamento urbano na construção de cidades mais preparadas para enfrentar os impactos da emergência climática. Nesse contexto, o desafio não se limita à elaboração de novas políticas públicas, mas requer, sobretudo, a efetiva implementação dos instrumentos de planejamento e gestão participativos, considerando o ordenamento territorial, as especificidades socioambientais e as dinâmicas regionais e municipais, na ótica do urbanismo climático.
O Brasil deve ser o país da América Latina mais atingido pelos efeitos do Super El Niño. Vivemos cotidianamente ondas de calor, chuvas intensas, alagamentos e inundações nas cidades. Já conferiu se esse tema aparece nas propostas da sua candidata ou do seu candidato? Nestas eleições, é preciso votar com a consciência de que esse processo pode se agravar cada vez mais se não elegermos representantes que priorizem a pauta ambiental e climática, reconhecendo sua complexidade em nível local, regional, nacional e global.
É cada vez mais urgente focar em ações concretas que promovam a necessária e justa adaptação de nossas cidades. É pela via da política que podemos construir compromissos coletivos com políticas públicas, investimentos e metas que possam ser acompanhados e fiscalizados pela sociedade, promovendo a adaptação a um futuro que, a rigor, já começou há algum tempo.

Érica Tavares é doutora em Planejamento Urbano e Regional, professora associada da UFF Campos e pesquisadora principal do Núcleo Norte Fluminense do INCT Observatório das Metrópoles.

Guilherme Pereira é doutor em Sociologia Política, gerente de Programas e Projetos Escolares da Prefeitura de Campos e pesquisador colaborador do Núcleo Norte Fluminense do INCT Observatório das Metrópoles.

Daniela Bogado é doutora em Sociologia Política, professora do IFF e pesquisadora associada do Núcleo Norte Fluminense do INCT Observatório das Metrópoles.

Jefferson Carvalho é mestre em Desenvolvimento Regional, Ambiente e Políticas Públicas,.

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    O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Observatório das Metrópoles é uma rede nacional de 18 Núcleos de Pesquisas e Programas de Ensino de Graduação e Pós-Graduação que analisa os desafios metropolitanos para o desenvolvimento nacional. Integrado por mais de 400 pesquisadores e professores de distintas universidades brasileiras, o INCT se propõe, nesse espaço, incidir sobre a agenda pública sobre os temas centrais do destino das cidades no marco das eleições municipais de 2024. Visando dialogar com amplos espectros sociais, nosso objetivo é transferir conhecimento e informação qualificada, decorrentes das nossas pesquisas, para definir um futuro inclusivo, sustentável e redistributivo das cidades brasileiras. O Núcleo Norte Fluminense (NNF) do INCT, responsável pelos artigos publicados neste espaço, é integrado por mais de 25 intelectuais de diversos Programas da UENF, UFF, IFF e UCAM em Campos dos Goytacazes. Nossa intenção é apresentar propostas e chaves para pensar o desenvolvimento econômico e social da nossa região.