Quando o "amor" vira posse e termina em tragédia
Não é raro observar ao longo da vida observar relacionamentos de todo modo. Sejam relações entre amigos, entre pais e filhos, entre irmãos, entre colegas de trabalho e os ditos casais enamorados. E amar e ser amado é, ou deveria ser, uma experiência de evolução e transcendência ao saber que há alguém do lado que também torce um pelo outro. Mas nem todas as relações são assim. Quando o “amor” se torna posse, aí é que mora o problema.
Na psicologia, amor e posse são conceitos opostos. O amor maduro aceita a individualidade e a liberdade, enquanto a posse tenta extinguir a distância e a diferença. O feminicídio que chocou Campos nesta semana não pode ser tratado como mais um caso policial. Quantos sonhos foram arrancados da jovem Camile Duarte, de apenas 30 anos? Uma jovem que foi impedida brutalmente até de acompanhar o crescimento de seus filhos.
O caso do feminicídio de Camile trata-se de uma tragédia anunciada, resultado de um ciclo de violência que, segundo as investigações, já apresentava sinais claros de ameaça, controle e agressões anteriores. Quando uma mulher é assassinada por um companheiro ou ex-companheiro, a sociedade costuma voltar sua atenção para o momento do crime. Mas o feminicídio começa muito antes. E a própria delegada Madeleine Dykeman, assistente da 134ª Delegacia de Polícia, deixou claro: “Feminicídio não começa no dia da morte”. A violência nasce no ciúme possessivo, no controle da vida da parceira, nas ameaças veladas, na violência psicológica e na incapacidade de aceitar o direito da mulher de decidir sobre a própria vida. Ela começa quando a violência é naturalizada e ignorada.
Em muitos casos, o padrão é infelizmente conhecido. A vítima já teria relatado medo a pessoas próximas, e esse medo acaba impedindo a denúncia formal. Enquanto o agressor não aceitava o fim da relação. Não se trata de um ato impulsivo provocado por uma discussão. Trata-se da expressão extrema de uma cultura que ainda confunde amor com posse e relacionamento com domínio.
Além do medo, a dependência emocional, a preocupação com os filhos e a descrença na proteção institucional fazem com que inúmeras mulheres convivam diariamente com ameaças sem formalizar denúncias. Isso não significa omissão da vítima, mas evidencia a necessidade de fortalecer redes de acolhimento e proteção.
Outro aspecto doloroso são as consequências deixadas para as famílias. Neste caso, dois filhos ficaram órfãos de mãe e pai em questão de horas. O feminicídio não destrói apenas uma vida; ele produz traumas que atravessam gerações.
A principal lição dessa tragédia é que a violência contra a mulher precisa ser combatida antes que chegue ao noticiário policial. É necessário ouvir os sinais, acreditar nos relatos, ampliar políticas públicas e reforçar a conscientização social. E um ponto delicado é: na maioria dos casos, quem está “de fora” é que percebe primeiro que algo não está normal. Mas é preciso saber lidar com isso, e buscar a melhor forma de apoiar a vítima, enquanto ainda há tempo de reverter a situação.
Em 2025, segundo dados do Ministério da Mulher, se considerado o total de 155.111 denúncias de violência contra às mulheres feitas pela Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180, quase 70% das agressões ocorreram em ambiente doméstico, sendo 40,76% dos casos na residência da vítima e 28,58% na casa compartilhada com o suspeito.
Em Campos, o Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam) Mercedes Baptista, equipamento da Subsecretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, oferece diversos atendimentos gratuitos às mulheres vítimas de violência, como escuta qualificada, orientações jurídicas, encaminhamento a órgãos competentes e principalmente suporte psicológico. Todos os serviços são gratuitos e sigilosos.
Além disso, o município também conta com a Casa da Mulher Benta Pereira, que acolhe mulheres em situação de risco pelo agressor; com o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Comdim); Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam); os núcleos do Centro de Referência Especializado em Serviço Social (Creas); a Patrulha Maria da Penha, da Polícia Militar; a recém-inaugurada Sala Lilás no 8º Batalhão da Polícia Militar (8º BPM); Promotoria de Justiça e Defensoria Pública e a Sala Lilás no Posto Regional de Polícia Técnica e Científica (PRPTC), onde funciona o Instituto Médico Legal (IML).
Combater o feminicídio e qualquer outro tipo de violência contra a mulher é responsabilidade do Estado, das instituições e de toda a sociedade.