Arthur Soffiati - O estresse das viagens internacionais
* Arthur Soffiati - Atualizado em 31/10/2026 08:28
Mais uma vez vivo a experiência estressante de viagens internacionais. Estressa planejar a viagem com horários de aviões. Estressam as exigências das empresas aéreas com o tamanho das malas. As grandes são despachadas e vão nos porões da aeronave. As pequenas vão em cima. As mochilas vão sob as cadeiras da frente.
Mas não é bem assim. As empresas não cumprem devidamente a legislação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Sobretudo porque as regras mudam de país para país. Você sai do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, onde encontra uma plaquinha indicando o passageiro preferencial para embarque. Nela figuram, de maneira esquematizada, uma mulher grávida (embaraçada, como disse uma passageira chilena), uma mulher com bebê no colo, uma pessoa em cadeira de rodas e uma outra com bengala. Esta última indica idoso, mesmo que o passageiro não ande amparado numa bengala.
Os funcionários de terra implicaram conosco por sermos maiores de 60 anos e não usarmos bengala. Há quem simule ser cadeirante ou use bengala para enganar esses funcionários de terra. No Brasil, não houve problemas em embarcar numa aeronave da Latam, empresa nascida da fusão da chilena Lan e da brasileira Tam.
Voamos em aeronaves da Latam o tempo todo: do Brasil para Santiago; de Santiago para a ilha de Páscoa (Rapa Nui), de Pascoa novamente para Santiago, desta cidade para Calama, de Calama para Santiago e daí para o Rio de Janeiro. A mais longa viagem que fizemos foi de Santiago para Rapa Nui e desta para Santiago. As aeronaves também foram as mais confortáveis nessas duas viagens.
De Santiago para Calama, ocorreu-nos um incidente engraçado se não fosse irritante: passamos com a maleta de mão, mas, à porta do avião, um funcionário da empresa nos proibiu de entrar com ela: “É preciso despachar”, disse-nos o funcionário. Minha mulher entregou a dela e recebeu um tíquete de comprovação. Entreguei a minha e ele não quis me dar o tíquete. A comissária de bordo pediu-me que mostrasse o tíquete para entrar. Argumentei que um funcionário da empresa não quis me dar. Voltei a ele e a resposta já meio desaforada foi a mesma. Por fim, depois de idas e vindas, a comissária de bordo permitiu que eu entrasse e improvisou um tíquete para mim, também anotando meu e-mail para que a empresa me enviasse uma mensagem se desculpando pelo constrangimento. Não recebi nada. Lá dentro, uma jovem estava com sua mala no bagageiro e havia muito espaço para nossas malas.
De Calama para Santiago, a viagem foi mais ou menos tranquila. Ao chegar na capital do Chile, entramos em pânico. Descemos no aeroporto que já nos era conhecido, mas empreendemos uma longa caminhada para o setor internacional, onde encontramos uma multidão de pessoas e filas intermináveis. Conseguimos a passagem. Entramos numa longa fila para inspeção de bagagem. Trata-se daquele momento mais crítico para o passageiro, sobretudo se ele é idoso. Passando pela vistoria do passaporte, sempre temendo que o fiscal nos considere bandidos, vamos para a fila da vistoria da bagagem. É o momento crucial da viagem. Com frequência, a luz acende, mesmo que tiremos cinto, casaco, aliança, sapatos e coisas mais. Somos revistados e jogados a um canto para nos arrumarmos. Vontade de chorar.
Por fim, vamos para a fila de embarque. Novamente a angústia. O pessoal de terra muda com frequência as entradas. Fomos informados no embarque para o Brasil que no Chile não se faz distinção entre jovens e idosos. Em outras palavras, sem bengala vai pra fila comum.
Encurtando a história, viajamos por 19 horas ininterruptas: de São Pedro de Atacama a Calama; de Calama a Santiago; de Santiago ao Rio de Janeiro. Por fim, do Galeão a Campos. Chegamos exaustos. Passei dois dias me recuperando, sem vontade de fazer nada. Fiquei pensando se vale a pena fazer outra viagem para o Brasil ou para o exterior. Com minha idade, talvez seja melhor ficar em casa e fazer viagens virtuais. Caso esqueça dos contratempos, pode ser que ainda faça uma das três viagens que planejei para a minha vida.

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