Arthur Soffiati - Oriente Médio
* Arthur Soffiati - Atualizado em 24/10/2026 07:16

O passado do Oriente Médio é um dos mais estudados por arqueólogos e historiadores e ainda pouco conhecido dos estudantes do ensino médio e dos cursos de história. A disciplina História da Antiguidade geralmente é ministrada por um professor que estuda a civilização mesopotâmica ou a civilização egípcia, esquecendo as demais.
Do rio Tigre à orla do mar Mediterrâneo, as origens da cultura se confundem. O arqueólogo James Mellaart mostrou que a cultura matriz do Oriente Médio define-se no princípio do IV milênio antes de Cristo. Ele escreve: “Com a expansão da cultura de Obeid - originalmente em seu ambiente no Iraque Meridional -, por toda a Mesopotâmia, c. 4400 - 4300 a. C, começa uma nova era durante a qual foram lançadas as fundações da civilização suméria, e daí em diante a Mesopotâmia torna-se o centro do Próximo Oriente civilizado.” (O próximo oriente, 1971).
Mais ainda: “A cidade de Çatal Hüyük, contemporânea do Neolítico Pré-Cerâmico B de Jericõ ou das aldeias de Jarmo e Mersin, produziu uma civilização neolítica digna de uma metrópole. Ela foi seguida por várias culturas de alto nível com cerãmica pintada (como Hacilar e Can Hasan) e estátuas cultuais de qualidade inesperada no Próximo Oriente, artisticamente bastante à frente de qualquer cultura contemporânea do chamado Crescente Fértil, fazendo chegar a sua influência à costa do Egeu e mais além”.
Para quem trabalha com os conceitos de paleolítico, neolítico e civilização, o Oriente Médio é um terreno excelente. Ali, desenvolveu-se uma cultura comum que se alastrou por vasta área e funcionou como piso para diversas civilizações. A primeira delas é a icônica Suméria, que o historiador Samuel Noah Kramer considera o berço das civilizações. Seu livro de divulgação intitulado “A história começa na Suméria”, da década de 1960, procura mostrar que muito do que conhecemos hoje nasceu na Suméria: a escola, a manteiga, o parlamento, o historiador, a redução de impostos, o primeiro almanaque do lavrador, a primeira cosmogonia etc. Kramer concebe a história de forma linear. Assim, não seria de se estranhar ele dizer que o Parlamento britânico tem origem na Suméria.
Mas voltando ao assunto. Sem dúvida, essa cultura de fundo, que passou por todas as fases da história (paleolítico, neolítico e civilização), como aconteceu na China, por exemplo (afinal, a história não começa na Suméria, mas há pelo menos 200 mil anos passados, dando origem à civilização sumeriana, há cerca de 3.200 anos a. C.). Nesse remoto tempo, a planície norte fluminense ainda não existia. Tudo era mar.
De fato, trata-se da civilização mais antiga que se conhece. Pelo conceito de civilização, entenda-se uma sociedade hierarquizada em que a maioria da população trabalha para sustentar os grupos sociais dominantes. O território ocupada por ela era o sul da Mesopotâmia, uma planície entre os rios Tigre e Eufrates extremamente úmida. A água estará presente em sua cultura porque a drenagem e a irrigação eram necessárias para viver nesse território. Os sumérios têm origem asiânica e falavam uma língua não mais conhecida. Eles criaram o mais antigo sistema de escrita conhecido: o cuneiforme.
A luta entre as cidades-Estado favoreceu a dominação semita, os chamados acadianos. A civilização mesopotâmica foi se expandindo para o norte, com os babilônios e assírios, e ultrapassou os limites dos dois rios. Ela alcançou as montanhas à leste e o planalto a oeste, já habitados por outros povos. Os contatos entre eles eram intensos. O estímulo cultural da Mesopotâmia provocou a emergência de outras civilizações. A leste, as civilizações elamita, iraniana e de Urartu. A oeste, a grande civilização hitita. Todas elas adotaram o sistema cuneiforme de escrita. Todas elas sofreram influências culturais da Mesopotâmia. Mas seu núcleo duro resistiu, permitindo considerá-las satélites da Mesopotâmia conservando a devida distância. Todas elas guerrearam entre si. Nem sempre babilônios e assírios saíram vencedores.
As influências da civilização mesopotâmica chegaram mais longe ainda: ao Egito, ao vale do Indo e à Índia, porém mais fraca. Essa civilização, incluindo as fases suméria, babilônica, assíria e novamente babilônica, chegou até o século I d. C. Dai em diante, o Oriente Médio como um todo não apresenta mais força para o avanço da civilização grega, a partir do século IV a. C. Toda a região até o rio Indo foi helenizada, dando origem a uma cultura mista.
Como historiador ambiental, cabe-me sempre destacar a influência do território ou da paisagem no processo histórico. As influências de dois grandes rios foi marcante para a civilização mesopotâmica durante seus 3.330 anos de vida, assim como o planalto exerceu forte marca nas civilizações do leste e do oeste. A arte mostra bem essa influência.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS