Maestro Ethmar Filho – Rogério Duprat: O maestro da ruptura que ajudou a reinventar a música brasileira
Poucos maestros brasileiros conseguiram transformar a própria ideia de arranjo musical em uma declaração de liberdade. Rogério Duprat foi um deles. Maestro, compositor, violoncelista, arranjador e um dos mais inquietos músicos de sua geração, Duprat rompeu com a separação tradicional entre a música erudita e a música popular e ajudou a construir, na década de 1960, uma das experiências estéticas mais ousadas da cultura brasileira: a Tropicália. Sua história, entretanto, começou muito antes das guitarras elétricas, dos estúdios de gravação e das experiências sonoras que marcariam sua carreira.
Poucos maestros brasileiros conseguiram transformar a própria ideia de arranjo musical em uma declaração de liberdade. Rogério Duprat foi um deles. Maestro, compositor, violoncelista, arranjador e um dos mais inquietos músicos de sua geração, Duprat rompeu com a separação tradicional entre a música erudita e a música popular e ajudou a construir, na década de 1960, uma das experiências estéticas mais ousadas da cultura brasileira: a Tropicália. Sua história, entretanto, começou muito antes das guitarras elétricas, dos estúdios de gravação e das experiências sonoras que marcariam sua carreira.
Nascido no Rio de Janeiro, em 1932, Duprat teve formação ligada à música de concerto e desenvolveu profundo interesse pelas transformações que ocorriam na música contemporânea. O jovem músico não se contentaria, porém, em permanecer dentro dos limites estabelecidos pela tradição; o Brasil estava mudando. A década de 1950 havia produzido uma verdadeira revolução cultural. A Bossa Nova modificara a relação entre canto, harmonia e ritmo. João Gilberto havia apresentado uma nova maneira de tocar violão e interpretar a canção. Tom Jobim ampliava as possibilidades harmônicas da música brasileira. Vinicius de Moraes aproximava a poesia da canção popular. E, paralelamente, compositores e músicos ligados à música erudita procuravam novas linguagens. Era um período de efervescência. Duprat estava atento a tudo isso. Sua formação erudita não o afastou da música popular. Ao contrário: proporcionou-lhe ferramentas para compreender que a canção brasileira poderia receber novos tratamentos sem perder sua identidade. Essa compreensão seria fundamental alguns anos mais tarde.
No Brasil dos anos 1960, a música passou a ocupar um espaço cada vez mais importante no debate cultural. O golpe militar de 1964 modificou profundamente a vida política brasileira, e a produção artística passou a conviver com censura, repressão e conflitos ideológicos. Canções, espetáculos teatrais, filmes e programas de televisão passaram a refletir, de diferentes maneiras, as tensões daquele período. Foi nesse ambiente que surgiu a Tropicália. E foi justamente aí que Rogério Duprat encontrou um dos momentos mais importantes de sua carreira. A Tropicália não pretendia simplesmente criar um novo gênero musical. Era, antes de tudo, uma atitude diante da cultura brasileira. Seus protagonistas desejavam colocar em contato elementos que tradicionalmente eram tratados como incompatíveis. O Brasil arcaico e o Brasil moderno. O samba e o rock. A cultura popular e a cultura erudita. A guitarra elétrica e a orquestra. O nacional e o estrangeiro. Duprat compreendeu essa proposta como poucos. Sua participação nos arranjos tropicalistas foi decisiva para transformar aquela mistura de ideias em uma experiência sonora concreta. O maestro utilizou instrumentos de orquestra, efeitos, mudanças de dinâmica, intervenções inesperadas e combinações pouco convencionais para criar uma sonoridade que não obedecia aos modelos tradicionais da música popular. Em suas mãos, a orquestra deixou de ser apenas acompanhamento; passou a ser personagem. Essa concepção pode ser percebida de maneira especialmente marcante no histórico álbum Tropicália ou Panis et Circencis, lançado em 1968. Reunindo artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé, o disco tornou-se uma espécie de manifesto musical de uma geração que desejava ampliar os limites da canção brasileira. E Duprat estava no centro dessa construção. O maestro tinha uma capacidade extraordinária de transformar uma ideia aparentemente absurda em linguagem musical. Onde outros poderiam enxergar apenas excesso ou provocação, Duprat encontrava possibilidades de criação. Essa característica aparece também em sua relação com Os Mutantes. A banda possuía uma formação musical profundamente ligada ao rock, ao psicodelismo e à experimentação. Com os arranjos de Duprat, entretanto, sua sonoridade ganhou uma dimensão ainda mais sofisticada e surpreendente. A presença de cordas, metais, ruídos e intervenções orquestrais produzia uma espécie de choque estético. Era justamente esse choque que interessava à Tropicália. A música precisava provocar. Precisava tirar o ouvinte de seu lugar confortável. Duprat compreendeu que o estúdio poderia funcionar como um laboratório. Não era necessário reproduzir simplesmente uma apresentação ao vivo. Era possível construir uma nova realidade sonora por meio da gravação. Esse pensamento antecipava procedimentos que posteriormente se tornariam comuns na produção musical. A manipulação do som, a utilização criativa do estúdio e a combinação de timbres aparentemente incompatíveis transformaram o arranjo em uma etapa essencial da criação artística. Mas havia ainda outra dimensão em sua atuação.
Ao aproximar a linguagem erudita da música popular, Duprat também questionava hierarquias culturais. A chamada música “séria” não precisava ocupar uma posição superior à música popular. O conhecimento técnico poderia dialogar com o samba, o rock, a canção urbana, o folclore e as manifestações da cultura de massa. Era uma atitude profundamente moderna. E, em determinado contexto histórico, também profundamente provocadora. O ano de 1968 seria particularmente importante. O país vivia o endurecimento do regime militar, que culminaria na decretação do Ato Institucional nº 5. Ao mesmo tempo, a cultura brasileira experimentava uma extraordinária explosão criativa. Nesse cenário, a Tropicália tornou-se um dos espaços mais significativos de contestação estética. Não necessariamente por meio de mensagens políticas explícitas, mas pela própria ruptura com padrões culturais estabelecidos. Duprat foi um dos responsáveis por dar forma musical a essa ruptura. Seu trabalho também ultrapassou a Tropicália. O maestro participou de diferentes projetos de música popular, cinema e televisão, demonstrando uma versatilidade rara. Sua experiência com diferentes linguagens permitiu-lhe trabalhar tanto com a sofisticação da música de concerto quanto com as exigências da indústria cultural. No cinema, encontrou outro campo para suas experiências. A trilha sonora cinematográfica exige do compositor uma relação particular com a imagem, o tempo e o silêncio. Duprat soube explorar essas possibilidades, compreendendo que a música poderia ampliar sentidos, criar atmosferas e interferir diretamente na narrativa. Sua trajetória, portanto, não pode ser compreendida apenas pela Tropicália. A Tropicália foi, sem dúvida, um de seus momentos mais luminosos. Mas Duprat foi maior do que o movimento ao qual ficou associado. Foi um músico de fronteiras. Ou, melhor dizendo, de ausência de fronteiras. Sua formação erudita não o impediu de mergulhar na música popular. Seu conhecimento técnico não diminuiu sua irreverência. Sua experiência com a orquestra não o afastou da cultura jovem. Ao contrário, todas essas experiências se encontraram em sua obra.
Rogério Duprat morreu em 2006, aos 74 anos, deixando uma contribuição que ultrapassa a dimensão de seus próprios arranjos. Sua verdadeira herança talvez esteja na liberdade que ajudou a conquistar para a música brasileira. Ele mostrou que um maestro também poderia ser irreverente. Que uma orquestra poderia dialogar com guitarras elétricas. Que a música erudita poderia encontrar o rock. Que o humor poderia conviver com a sofisticação. E que a tradição brasileira não precisava ser preservada como uma peça de museu. Ela poderia ser desmontada, recriada e devolvida ao público sob uma nova forma. É justamente por isso que Rogério Duprat permanece tão importante. Em uma época de grandes transformações políticas e culturais, ele percebeu que a inovação não estava necessariamente em abandonar o passado, mas em colocá-lo em confronto com o presente. Sua batuta não conduziu apenas músicos. Conduziu uma ruptura. E, ao ajudar a transformar a Tropicália em som, Rogério Duprat tornou-se um dos maestros de uma das mais importantes revoluções culturais da música brasileira.
Maestro Ethmar Filho – Mestre e Doutorando em Cognição e Linguagem pela UENF, regente de corais e de orquestras sinfônicas há 25 anos.
Maestro Ethmar Filho – Mestre e Doutorando em Cognição e Linguagem pela UENF, regente de corais e de orquestras sinfônicas há 25 anos.