Arthur Soffiati - Rapa-Nui
Aos olhos de Alfred Métraux, a cultura que se desenvolveu em Páscoa parece
não ter causado grande surpresa aos olhos dos cientistas da época. Ele via, nas ilhas
Marquesas, traços de cultura semelhante. Menciona a estátua de Paro, a maior da
ilha, com 10 metros de altura, 7,80 m. de circunferência e mais de 20 toneladas. Essas
esculturas monumentais exigiram um esforço humano muito grande, o que pressupõe
uma sociedade estratificada, com grupos rivais em guerra no interior da ilha,
escravização, trabalhadores dedicados à produção de alimentos e de objetos,
governantes e sacerdotes.
A crise ambiental global da atualidade, sem dúvida, teve grande peso na
mudança de compreensão da civilização polinésia. No tempo de Métraux, a crise
global ainda não era percebida. Hoje é. Páscoa é tomada atualmente como o planeta
Terra em miniatura. A crise socioambiental da ilha adverte quanto ao que pode
acontecer com a Terra.
Aos olhos de Alfred Métraux, a cultura que se desenvolveu em Páscoa parece
não ter causado grande surpresa aos olhos dos cientistas da época. Ele via, nas ilhas
Marquesas, traços de cultura semelhante. Menciona a estátua de Paro, a maior da
ilha, com 10 metros de altura, 7,80 m. de circunferência e mais de 20 toneladas. Essas
esculturas monumentais exigiram um esforço humano muito grande, o que pressupõe
uma sociedade estratificada, com grupos rivais em guerra no interior da ilha,
escravização, trabalhadores dedicados à produção de alimentos e de objetos,
governantes e sacerdotes.
O paradigma sobre o entendimento da civilização polinésia desenvolvida na
ilha de Páscoa sofreu mudança radical recentemente. Hoje, acredita-se que a super-
exploração dos recursos naturais da ilha por seus habitantes causou seu colapso. O
culto a imensas imagens superou o culto à natureza. Quando os europeus lá
chegaram, seus habitantes nativos tinham uma vida muito modesta aos pés das
grandes estátuas (moais), que, sem olhos, contemplavam o mar infinito.
ilha de Páscoa sofreu mudança radical recentemente. Hoje, acredita-se que a super-
exploração dos recursos naturais da ilha por seus habitantes causou seu colapso. O
culto a imensas imagens superou o culto à natureza. Quando os europeus lá
chegaram, seus habitantes nativos tinham uma vida muito modesta aos pés das
grandes estátuas (moais), que, sem olhos, contemplavam o mar infinito.
Jared Diamond traça um quadro bastante distinto daquele pintado por Métraux.
Os habitantes da ilha estariam divididos em clãs que guerreavam entre si. Uma das
armas usadas era colocar fogo nas escassas e tímidas matas em terras inimigas. As
estátuas eram esculpidas a partir de enormes blocos de pedra extraídos das crateras
dos vulcões extintos e semitrabalhadas no local. Depois, eram transportadas sobre
troncos da palmeira de Rapa Nui (“Paschalococos disperta”), endêmica da ilha e
extinta cerca de 1650. Antes, portanto da chegada dos europeus. Da palmeira,
também se extraía palmito excessivamente e usava-se sua tora para a construção de
embarcações. Entre 800 e 1600, os habitantes da ilha guerrearam entre si e, em
conjunto, travaram uma guerra implacável contra a natureza (“Colapso: como as
sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”. Rio de Janeiro: Record. 2006).
Os habitantes da ilha estariam divididos em clãs que guerreavam entre si. Uma das
armas usadas era colocar fogo nas escassas e tímidas matas em terras inimigas. As
estátuas eram esculpidas a partir de enormes blocos de pedra extraídos das crateras
dos vulcões extintos e semitrabalhadas no local. Depois, eram transportadas sobre
troncos da palmeira de Rapa Nui (“Paschalococos disperta”), endêmica da ilha e
extinta cerca de 1650. Antes, portanto da chegada dos europeus. Da palmeira,
também se extraía palmito excessivamente e usava-se sua tora para a construção de
embarcações. Entre 800 e 1600, os habitantes da ilha guerrearam entre si e, em
conjunto, travaram uma guerra implacável contra a natureza (“Colapso: como as
sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”. Rio de Janeiro: Record. 2006).
A crise ambiental global da atualidade, sem dúvida, teve grande peso na
mudança de compreensão da civilização polinésia. No tempo de Métraux, a crise
global ainda não era percebida. Hoje é. Páscoa é tomada atualmente como o planeta
Terra em miniatura. A crise socioambiental da ilha adverte quanto ao que pode
acontecer com a Terra.
Antes de 1970, os fenômenos climáticos acentuados eram previsíveis. O El
Niño sempre ocorreu no Holoceno, ou seja, nos últimos 12 mil anos. Mas, com as
alterações que a economia de mercado está provocando no clima, nos oceanos, nos
solos, nos rios e lagos, na flora e na fauna, nos ecossistemas enfim, afetam a
população mundial, sobretudo a parte dela mais pobre. As cidades erguidas em áreas
críticas são as mais afetadas. As altas temperaturas mataram muitas pessoas neste
verão europeu. Os forte incêndios afetam com mais intensidade a vegetação nativa e
as lavouras.
Niño sempre ocorreu no Holoceno, ou seja, nos últimos 12 mil anos. Mas, com as
alterações que a economia de mercado está provocando no clima, nos oceanos, nos
solos, nos rios e lagos, na flora e na fauna, nos ecossistemas enfim, afetam a
população mundial, sobretudo a parte dela mais pobre. As cidades erguidas em áreas
críticas são as mais afetadas. As altas temperaturas mataram muitas pessoas neste
verão europeu. Os forte incêndios afetam com mais intensidade a vegetação nativa e
as lavouras.
O El Niño de 2026-27 já se anuncia. Chuvas violentas no sul do Brasil voltam a
fazer estragos, não tão acentuados como em maio de 2024. Mas ainda é cedo para
qualquer conclusão. No sudeste do Brasil, as chuvas chegaram mais cedo e
estimularam a floração de plantas. Da minha janela, encanto-me ao ver as sibipirunas
floridas, assim como um pé de pau-brasil na rua ao lado de prédio onde moro. Mas
meu encanto logo murcha quando penso nos danos que as mudanças climáticas
podem provocar.
O deserto de Atacama, o mais alto e mais seco do mundo, que também está
incluído na minha viagem, recebeu muita chuva por conta do El Niño e ficou todo
florido. O ingênuo que pode fazer viagens se encantará com isso tudo. Dirá que os
fenômenos climáticos acentuados são cíclicos. Que não resultam de alterações
climáticas provocadas pela economia global. Se um governante entende que tudo é
natural, nenhuma contribuição dará para amenizar as mudanças climáticas. Pelo
contrário, continuará promovendo os fatores que causam a crise ambiental.
Infelizmente, o nível de informação da população mundial acredita que as mudanças
climáticas são naturais. São responsabilidade de Deus.
fazer estragos, não tão acentuados como em maio de 2024. Mas ainda é cedo para
qualquer conclusão. No sudeste do Brasil, as chuvas chegaram mais cedo e
estimularam a floração de plantas. Da minha janela, encanto-me ao ver as sibipirunas
floridas, assim como um pé de pau-brasil na rua ao lado de prédio onde moro. Mas
meu encanto logo murcha quando penso nos danos que as mudanças climáticas
podem provocar.
O deserto de Atacama, o mais alto e mais seco do mundo, que também está
incluído na minha viagem, recebeu muita chuva por conta do El Niño e ficou todo
florido. O ingênuo que pode fazer viagens se encantará com isso tudo. Dirá que os
fenômenos climáticos acentuados são cíclicos. Que não resultam de alterações
climáticas provocadas pela economia global. Se um governante entende que tudo é
natural, nenhuma contribuição dará para amenizar as mudanças climáticas. Pelo
contrário, continuará promovendo os fatores que causam a crise ambiental.
Infelizmente, o nível de informação da população mundial acredita que as mudanças
climáticas são naturais. São responsabilidade de Deus.
De fato, quem pode desenvolver ações enérgicas para controlar a crise são
grandes empresários e governantes. Mas parece que eles não se dão conta do que
está acontecendo. Basta ver a dependência do mundo aos combustíveis fósseis. As
guerras da Ucrânia e do Irã mostram como somos dependentes do petróleo. Mas a
própria economia que provoca a crise será afetada por ela.
grandes empresários e governantes. Mas parece que eles não se dão conta do que
está acontecendo. Basta ver a dependência do mundo aos combustíveis fósseis. As
guerras da Ucrânia e do Irã mostram como somos dependentes do petróleo. Mas a
própria economia que provoca a crise será afetada por ela.
Dirão alguns céticos que a Terra já passou por crises muito mais severas que a
atual. De fato. Só que elas foram provocadas pela própria natureza. Só que não existia
nenhum animal que tivesse consciência do mundo, como nós.
atual. De fato. Só que elas foram provocadas pela própria natureza. Só que não existia
nenhum animal que tivesse consciência do mundo, como nós.
E eu preocupado com minha viagem a Rapa Nui e ao deserto de Atacama...
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.