Arthur Soffiati - Rio Paraíba numa distopia
* Arthur Soffiati - Atualizado em 19/09/2026 08:21
Arthur Soffiati
Arthur Soffiati / Divulgação

No mundo ocidental, há um tempo de utopias e outro de distopias. As utopias
vigoraram entre os séculos XVI e XVIII. O pensador e escritor inglês Thomas Morus
escreveu a primeira utopia exatamente com esse nome. A palavra significa “lugar que
não existe”. O livro versa sobre uma ilha em que os seres humanos viviam numa
sociedade perfeita. Como mostra a analista literária Ana Rüsche (“Quimeras do agora:
literatura, ecologia e imaginação política no antropoceno”), uma utopia pressupõe que
a sociedade do autor da utopia é distópica, ou seja, imperfeita.
Mas, hoje, com a grande crise ambiental que ganhou dos cientistas da
natureza o nome de antropoceno e dos cientistas sociais a denominação de
capitaloceno, além necroceno, plantationceno, negroceno e até chthuloceno, vários
pensadores entendem que já vivemos uma distopia. Alguns imaginam um mundo pior
ainda e escrevem distopias mais acentuadas. Muitas já foram escritas, principalmente
na Europa ocidental e nos Estados Unidos. As mais conhecidas são “Frankenstein ou
o Prometeu moderno”, de Mary Shelley, e “Floresta é o nome do mundo”, de Ursula K.
Le Guin. No Brasil, a distopia mais conhecida é “Não verás país nenhum”, de Ignácio
de Loyola Brandão, lançada ainda no tempo da ditadura militar. Algumas outras foram
escritas posteriormente, mas não alcançaram o patamar do livro de Ignácio, que
continua atual.
A América Latina ainda vive seu pesado passado colonial, a tragédia do
massacre dos povos indígenas e a escravização de povos africanos. Até onde tenho
acompanhado os livros de ficção lançados na América Latina, os temas ainda se
relacionam ao fantástico (erroneamente confundido com terror), com as questões de
gênero e com a vida pessoal e de família. Essa tendência a olhar e admirar o próprio
umbigo tem me cansado, levando-me a reduzir minhas leituras. Não sendo professor
de literatura brasileira e estrangeira, não me sinto obrigado a ler esses livros sobre o
eu.
Vivo no Brasil olhando para o mundo. Por minha percepção, acostumado que
estou em analisar ambientes, e por informações que me chegam de institutos de
pesquisa do mundo todo, concluo que estamos atravessando uma crise ambiental na
nossa época: o Holoceno. Nesse mesmo tempo, outros momentos ultrapassaram a
linha média dessa época para mais ou para menos. Mas eram momentos provocados
por mudanças naturais, por mais longos que fossem. Desde o século XV, vem
crescendo uma crise no Holoceno de raiz antrópica. Trata-se de uma crise gerada pela
economia de mercado. Não importa o nome que se dê a ela. Essa disputa por nomes
acaba sendo acadêmica e nos afasta da análise da crise. As temperaturas estão
oscilando para mais e para menos. Chuvas e secas. Incêndios descomunais. Ventos.
Extinção de espécies. Poluição do ar, do mar, dos rios, do solo.
Vivemos uma distopia. O que a ficção faz é retratar essa distopia como se
manifesta agora e no futuro, agravando-se e até mesmo ambientada em outro planeta
como metáfora. O cinema também a enfoca, assim como as artes plásticas.

Como a região norte-noroeste fluminense está no mundo, a crise também se
manifesta aqui. Mas nossa ficção e poesia continuam alheias a ela. Daí eu saudar
“Telêmaco: a história do pescador” (Rio de Janeiro: Escrita Fina, 2026), romance de
Adriano Moura voltado para adolescentes e adultos. Ele está centrado no rio Paraíba
do Sul, que não é mais, como canta o hino de Campos, a mágica torrente, soberana
dos prados e vergeis. Tanto o rio Paraíba do Sul quanto os outros, grandes e
pequenos, que irrigam a região, exemplificam a crise.
Telêmaco, filho de Ulisses e de Penélope, todos da literatura grega da
antiguidade, agora formam uma família de pescadores que mora em Atafona. Ulisses
desaparece no Paraíba do Sul e Telêmaco, seu filho, sai a sua procura num ambiente
distópico. O mar está erodindo a praia de Atafona. O manguezal de Gargaú, na
margem esquerda do rio, está estropiado. A economia doméstica, baseada na captura
do caranguejo, está em franco declínio. Subindo o Paraíba do Sul até Campos,
Telêmaco encontra poluição e assoreamento.
Sempre à procura do pai, Telêmaco vai a São Fidélis. Em vez do pai, encontra
a extração de areia e o garimpo ilegal de ouro, que poluem as águas com mercúrio,
afetando peixes e outros seres aquáticos. Que afeta os humanos. A paisagem dos
lados de fora e de dentro do livro é sombria. A distopia acaba se encontrando com o
sobrenatural da Moça Bonita, do Lobisomem e do Ururau. Telêmaco acorda do sonho. Seu pai não voltará mais. Telêmaco segue seu rumo. Estuda para se formar em
engenharia.
No sonho, ele teve um pesadelo. Não é necessário dormir para ter sonhos
maus. Acordado, talvez a paisagem seja mais desoladora. Telêmaco não mais deixará
de se preocupar com o mundo. Adriano também não porque ele coloca uma questão
que atualiza a literatura regional.
*Professor, historiador, escritor, aAmbientalista e membro da Academia Campista de Letras.

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