Arthur Soffiati - A terceira viagem dos Sete Capitães
* Arthur Soffiati 05/09/2026 10:57 - Atualizado em 05/09/2026 10:57

A discussão em torno de datas é frágil. Em torno da existência dos Sete Capitães também, pois já foi demonstrado que eles existiram. Quanto aos documentos sobre a doação da sesmaria e da sua repartição, eles existem e reforçam o teor do conhecido “Roteiro dos Sete Capitães”.
A terceira viagem às suas terras entre as desembocaduras dos rios Macaé e Açu começou no dia 3 de novembro de 1634. O relato da viagem começa de uma forma que suscita discussão: “eu, João de Castilho, o Senhor Maldonado, o Senhor Riscado e o Senhor Duarte por si e seus irmãos por não poderem ir, um sobrinho Antonio Lopes Pereira, o Senhor Monteiro, o Senhor Barcellos”.
O pronome pessoal “eu” pode indicar a existência de um escrivão que acompanhou as três expedições ou pode referir-se a João de Castilho. O texto não foi, como aparece no início, redigido por Miguel Ayres Maldonado e por João de Castilho Pinto. Coube a apenas uma pessoa a sua redação. É a única vez em que aparece o pronome “eu” em todo o roteiro.
Que ninguém cobre também a ausência de alguns capitães, pois o documento deixa explicito que os irmãos de Duarte Correia Vasqueanes não puderam participar da terceira viagem às terras do futuro norte fluminense. O relatório da terceira viagem mostra que os contatos entre Macaé, povoado de mamelucos segundo o Roteiro, e os goitacá da Lagoa Feia e do Cabo de São Tomé eram frequentes. Os degredados que viviam entre os indígenas participavam desse intercâmbio.
O índio aculturado Miguel, que ficou encarregado de cuidar do curral próximo da lagoa de Jagoroaba, hoje ao lado de Barra do Furado, informa aos capitães um caso de homossexualismo entre os degredados. O redator do roteiro informa que os capitães se escangalharam de rir. Podemos supor que o degredo foi motivado pelo crime de sodomia, prática condenada pela Igreja Católica. Mas confirma as palavras dos degredados. Não foi por crime de assassinato, de roubo ou de falsificação de moeda que eles haviam sido deportados para o Brasil.
Numa passagem do relatório da terceira viagem, aparece novamente o batismo de pontos geográficos por pessoas europeizadas: “Em que considera capitão Monteiro?, disse o Senhor Maldonado. – “Homem, estou me lembrando de uma propriedade que o defunto meu avô possuía em Portugal, em um lugar chamado a Castanheta”. “Pois bem, dê-se-lhe aqui esse mesmo apelido, pois outro tanto temos nós feito, em dar apelidos a alguns lugares, pois assim é necessário para o futuro, para nossos vindouros terem conhecimento como se hão de manter”.
A Castanheta batizada pelos Sete Capitães fica ao sul da Lagoa Feia. Ainda existe um lugar com este nome. Ali, corria um rio, denominado Castanheta, que formava com outros o rio Iguaçu. Desterro é outro nome de batismo para um cabo na Lagoa Feia, segundo ponto de origem de Quissamã.
A terceira viagem dos Capitães teve por fim inspecionar os três currais que haviam instalado em suas terras. Houve ajustes na partilha doas quinhões de maneira pacífica. Além do gado, eles cuidaram também de dar atenção à agricultura, estimulando o plantio de feijão, milho e mandioca.
Depois de inspecionarem os três currais, os Capitães retornaram a Macaé no dia 25 de novembro de 1634. No dia 3 de dezembro de 1634, eles foram prestar condolências à Angélica, viúva do capitão Manoel Correia, que acabara de falecer.
Daí em diante, os fidalgos começaram a vender suas terras entre si. O documento original ganha um anexo que ficou conhecido pelo nome de “Escritura endiabrada”, narrada por Miguel Aires Maldonado em 1647. Ele menciona os capitães que deixaram o Brasil e os que morreram. O capitão Maldonado foi procurado por Salvador Correia de Sá e Benevides. Charles Boxer pondera que, em 1647, Salvador ainda estava em Portugal. Esse é o principal argumento do historiador inglês para considerar o Roteiro um documento apócrifo em todo o seu teor. Ele não levantou a possibilidade de erro na data.
Não resta dúvida de que havia interesses nas terras dos Sete Capitães por parte de Salvador Correia de Sá e Benevides, dos Jesuítas e dos Beneditinos. O documento é também contestado em sua íntegra por José Vieira Fazenda, alegando que, em 1661, quando Miguel Ayres Maldonado encaminhou o documento para a Câmara de Cabo Frio, ele já havia morrido.
Não se pode considerar autêntica a Escritura Endiabrada porque muitos interesses fundiários já estavam em jogo. Deve ter havido manipulações por parte de herdeiros. Contudo, o roteiro das três viagens guarda um frescor de autenticidade quando examinada pela história ambiental.

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