Maestro Ethmar Filho - Chiquinho de Moraes, o maestro que deu nova dimensão à música popular brasileira
*Maestro Ethmar Filho 03/09/2026 12:22 - Atualizado em 03/09/2026 12:23

Há músicos que ocupam o centro do palco e há aqueles que, mesmo permanecendo discretamente atrás das cortinas, são fundamentais para que a música aconteça. Chiquinho de Moraes pertenceu à segunda categoria. Pianista, maestro, compositor e, sobretudo, arranjador, ele construiu uma trajetória que atravessou algumas das mais importantes transformações da música popular brasileira. Seu nome aparece associado a artistas de diferentes gerações e estilos, de Celly Campello a Elis Regina, de Roberto Carlos a Chico Buarque, de Edu Lobo a Gal Costa. Tive o imenso prazer de conhecê-lo na TV Globo (eu a trabalho), num especial de final de ano do Roberto, nos anos 80. Ele a passeio, porque não estava mais na emissora desde os anos 70. Quando o arregimentador me apresentou, ele disse: “estou te achando parecido com alguém!” Eu disse de quem eu era filho – nunca me esqueço – ele respondeu: “tomara que tu sejas tão bom quanto teu pai”. Ele, papai, o Maestro Carioca e o filho Ivan Paulo, além de colegas, eram muito amigos.
Manoel Francisco de Moraes Mello, conhecido artisticamente como Chiquinho de Moraes, nasceu em Campinas, no interior de São Paulo, em 16 de abril de 1937. Desde mui.to cedo esteve ligado à música. Começou a estudar piano ainda criança e, na adolescência, já atuava profissionalmente. Sua formação ocorreu em um período de profundas mudanças na cultura brasileira, quando o rádio, a indústria fonográfica e, posteriormente, a televisão transformavam a maneira de produzir, divulgar e consumir música. A carreira de Chiquinho começou profissionalmente em um momento decisivo. No final dos anos 1950, passou a trabalhar como arranjador para gravadoras e participou das primeiras gravações de Celly Campello, uma das grandes estrelas da juventude brasileira naquele período. Entre as músicas que receberam sua participação estão "Banho de Lua" e "Estúpido Cupido", sucessos que ajudaram a consolidar o nascente mercado brasileiro voltado ao público jovem. O episódio revela uma característica que acompanharia toda a sua carreira: a capacidade de transitar entre universos musicais muito diferentes. Chiquinho não se limitou a um gênero ou a uma escola estética. Trabalhou com música romântica, pop, sertaneja, brega, samba e MPB. Essa versatilidade, entretanto, não significava ausência de personalidade. Ao contrário. Seu trabalho como arranjador consistia justamente em compreender a identidade de cada intérprete e encontrar a sonoridade capaz de potencializá-la.
O arranjador é, muitas vezes, um personagem invisível para o grande público. O cantor recebe os aplausos, o compositor é lembrado como autor da canção, o instrumentista pode tornar-se conhecido por seu virtuosismo. O arranjador, porém, trabalha na arquitetura interna da música. É ele quem decide, muitas vezes, como uma melodia será apresentada por cordas, metais, madeiras, piano, violões, coro e outros instrumentos. É quem estabelece diálogos entre os naipes, cria introduções, interlúdios e finais, define texturas e ajuda a determinar o impacto emocional de uma gravação. Chiquinho de Moraes compreendia profundamente essa função. Em entrevista recuperada pelo programa Piano Maior, afirmou que o cantor precisa estar seguro para transmitir sua emoção e que essa segurança também passa pelo trabalho do maestro. A declaração sintetiza sua concepção profissional: o arranjo não deveria sufocar o intérprete, mas oferecer-lhe o ambiente musical necessário para que sua personalidade aparecesse. Essa concepção ajuda a compreender sua importância na história da música brasileira. Chiquinho era capaz de trabalhar com grandes orquestrações sem perder de vista a voz humana. Sua tarefa não era simplesmente "encher" uma canção de instrumentos, mas criar uma moldura sonora adequada para cada artista.
Na década de 1960, Chiquinho aproximou-se de Elis Regina, parceria que se tornaria uma das mais importantes de sua trajetória. O encontro ocorreu justamente quando a cantora começava a ocupar posição central na música brasileira. Chiquinho participou de discos e espetáculos de Elis durante vários anos. O álbum Ela, lançado em 1971, constitui um dos exemplos mais expressivos dessa colaboração: o disco foi inteiramente arranjado por ele. Também esteve ligado ao universo televisivo de O Fino da Bossa, programa apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que se tornou um dos espaços mais importantes para a música brasileira na televisão. A parceria entre Elis e Chiquinho revela uma característica importante da música brasileira daquele período: a aproximação entre intérpretes de enorme força expressiva e arranjadores capazes de ampliar essa força por meio da orquestração. Elis possuía uma voz dramática, intensa e extremamente comunicativa. O arranjo precisava acompanhá-la sem competir com ela. Chiquinho encontrou caminhos para fazer isso, utilizando diferentes combinações instrumentais e explorando a dinâmica entre voz e acompanhamento. Nesse sentido, seu trabalho integra uma tradição de grandes arranjadores brasileiros que compreenderam que a música popular poderia incorporar recursos da música orquestral sem abandonar sua comunicação direta com o público. Entre 1970 e 1977, Chiquinho de Moraes estabeleceu uma longa parceria profissional com Roberto Carlos, participando de discos e shows. A relação entre os dois ocorreu em uma fase de extraordinária expansão da carreira do cantor, quando suas apresentações anuais na televisão passaram a constituir verdadeiros acontecimentos nacionais. Chiquinho também trabalhou intensamente para a televisão. Fez trilhas e arranjos para emissoras como Record e Globo e participou de programas musicais e especiais. Em 1971, por exemplo, escreveu o tema de abertura do programa Som Livre Exportação, da TV Globo, executado pela orquestra da emissora. Essa experiência televisiva ampliou ainda mais seu campo de atuação. O maestro precisava compreender não apenas a música, mas também o ritmo da televisão, os tempos de cena e a necessidade de produzir arranjos que funcionassem simultaneamente para a audição doméstica e para o espetáculo.
Uma das características mais impressionantes da trajetória de Chiquinho é justamente sua capacidade de atravessar gerações e estilos. Seu nome aparece nos créditos de trabalhos de artistas tão diferentes quanto Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Nana Caymmi, Simone, Almir Sater, Zé Ramalho, Belchior, Elba Ramalho, Ivan Lins, Raul Seixas, Tom Zé e João Bosco, entre muitos outros. Essa lista não representa apenas quantidade. Ela demonstra a amplitude estética de um profissional que soube trabalhar com diferentes linguagens sem perder a identidade.
Um capítulo especialmente importante ocorreu na década de 1980, quando Chiquinho participou da elaboração dos arranjos de O Grande Circo Místico, obra de Edu Lobo e Chico Buarque associada ao espetáculo do Balé Teatro Guaíra, de Curitiba. O trabalho transformou-se em um dos grandes registros da música brasileira de teatro daquele período. A presença de Chiquinho nessa obra é particularmente significativa porque o projeto exigia uma linguagem orquestral capaz de dialogar com teatro, dança e canção popular. Seu trabalho ajudou a estabelecer uma sonoridade ampla, teatral e sofisticada, sem romper com a força melódica característica da composição de Edu Lobo e Chico Buarque. O próprio repertório posterior do maestro demonstra essa permanente disposição para experimentar. Em seu trabalho como pianista, também revelou interesse pelo jazz e pela música brasileira tradicional. Em uma apresentação no programa Piano Maior, mostrou interpretações de compositores como Ataulfo Alves, Mário Lago, Custódio Mesquita, Ary Barroso e Tom Jobim, além de apresentar parte de seu projeto de poema sinfônico Reencontro. Talvez a melhor maneira de compreender Chiquinho de Moraes seja pensar nele como um dos grandes arquitetos sonoros da música popular brasileira. Sua trajetória acompanha praticamente quatro décadas de transformação da indústria musical. Ele começou no final dos anos 1950, quando o rádio e o disco ainda dominavam a circulação da música; atravessou a explosão da televisão; trabalhou com artistas associados à Jovem Guarda; participou do ambiente musical da MPB; dialogou com a música de festivais e chegou às grandes produções de teatro e televisão. Seu trabalho também ajuda a perceber que a história da música popular brasileira não pode ser contada apenas pelos cantores e compositores. Por trás de muitas gravações memoráveis existe uma verdadeira cadeia de profissionais — arranjadores, maestros, músicos de estúdio, técnicos e produtores — que contribuíram decisivamente para que aquelas canções adquirissem a forma conhecida pelo público. No caso de Chiquinho, essa contribuição foi especialmente extensa. Um levantamento de sua produção mostra sua presença em numerosos discos de diferentes artistas e períodos. A Discografia Brasileira, por exemplo, registra seus arranjos em trabalhos de nomes como Agnaldo Timóteo, Tetê Espíndola e Gal Costa, entre muitos outros. Há, portanto, uma dimensão quase subterrânea em sua obra. O público muitas vezes escuta uma canção sem saber quem construiu a arquitetura instrumental que está por trás dela. O arranjador pode permanecer ausente dos holofotes, mas sua presença está em cada entrada de cordas, em cada ataque dos metais, em cada passagem instrumental e em cada silêncio cuidadosamente planejado.
Chiquinho de Moraes morreu em 30 de abril de 2023, aos 86 anos, em Cesário Lange, no interior de São Paulo. Estava em tratamento contra um câncer quando contraiu Covid-19. Sua morte encerrou uma trajetória de mais de seis décadas ligada à música brasileira. Curiosamente, nos últimos anos de vida, Chiquinho havia escolhido uma existência mais reservada. Longe dos grandes centros e dos estúdios que frequentara durante décadas, tornou-se também um extraordinário contador de histórias sobre a música brasileira. Em 2013, uma reportagem o encontrou vivendo no interior paulista, depois de anos afastado dos holofotes. Sua personalidade era descrita como complexa, imprevisível e excêntrica. Mas talvez justamente essa personalidade explique parte da força de sua trajetória. Chiquinho não parece ter sido um profissional preocupado em construir uma imagem pública. Sua preocupação maior estava na música.
Ao revisitar a história da MPB, da televisão brasileira, dos grandes discos e das transformações da indústria fonográfica, é impossível ignorar o papel de profissionais como Chiquinho de Moraes. Sua carreira demonstra que o arranjo não é um elemento secundário da canção. Ele pode transformar uma composição simples em uma experiência musical complexa; pode revelar aspectos que estavam escondidos na melodia; pode criar tensão, dramaticidade, leveza ou grandiosidade. Chiquinho foi, nesse sentido, um verdadeiro construtor de paisagens sonoras. Sua batuta ajudou a acompanhar a transformação da música brasileira desde o final dos anos 1950 até o século XXI. Trabalhou com artistas de estilos e gerações distintas, transitou entre o rádio, o disco, a televisão, o palco e o teatro musical e deixou sua assinatura em algumas das produções mais significativas da música popular brasileira. Se os grandes intérpretes ocupam a memória do público, os grandes arranjadores permanecem muitas vezes escondidos nos créditos dos discos. Recuperar o nome de Chiquinho de Moraes significa, portanto, fazer justiça a uma parte fundamental — e ainda pouco conhecida — da história da música brasileira.
Mais do que maestro, pianista ou arranjador, Chiquinho de Moraes foi um artesão do som. E, como acontece com os grandes artesãos, sua maior obra talvez não esteja em uma única composição, mas na enorme quantidade de músicas que ajudou a transformar em memória.

*Mestre e Doutorando em Cognição e Linguagem pela UENF, regente de corais e de orquestras sinfônicas há 25 anos.

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