Maestro Ethmar Filho - "Villa-Lobos: o maestro que ouviu o Brasil antes de transformá-lo em música"
Maestro Ethmar Filho*
Entre o choro das ruas, a tradição europeia e a construção de uma identidade nacional, Heitor Villa-Lobos criou uma das obras mais singulares da música brasileira. Há compositores que escrevem música. Há outros que, de alguma maneira, parecem escrever o próprio país. Heitor Villa-Lobos pertence a essa segunda categoria. Quando sua música começa a soar, não é apenas uma partitura que se movimenta. Há nela alguma coisa das ruas do Rio de Janeiro, dos chorões, das festas populares, das paisagens brasileiras, dos cantos aprendidos durante suas viagens e também da tradição musical europeia que o compositor conhecia profundamente. Villa-Lobos fez dessa mistura uma linguagem particular e transformou a ideia de brasilidade em matéria de criação artística.
Nascido no Rio de Janeiro em 5 de março de 1887, Villa-Lobos teve no pai, Raul Villa-Lobos, seu primeiro professor de música. Aprendeu inicialmente violoncelo e clarinete e recebeu uma educação musical rigorosa. Mas a formação do futuro compositor não se limitaria às lições familiares nem aos ambientes acadêmicos. Ainda jovem, ele descobriu outra escola: a rua. O Rio de Janeiro do início do século XX era uma cidade musical. Nas praças, nos teatros, nos cafés e nas festas, músicos populares desenvolviam uma linguagem própria. O choro ocupava lugar importante nesse universo. Villa-Lobos aproximou-se desses músicos e passou a estudar violão, instrumento que sua mãe não via com bons olhos por associá-lo ao ambiente boêmio. O contato com os chorões seria decisivo. Ali estava uma música que não obedecia integralmente às convenções da sala de concerto. Era uma música de liberdade. E Villa-Lobos soube ouvi-la. O compositor também percorreu diferentes regiões do Brasil. O Museu Villa-Lobos registra viagens pelo Espírito Santo, Bahia, Pernambuco e, posteriormente, pela região amazônica, experiências que contribuíram para ampliar seu contato com diferentes tradições musicais brasileiras. Essas experiências seriam fundamentais para uma de suas maiores características: a capacidade de transformar elementos da cultura popular em matéria de elaboração erudita. Villa-Lobos não queria simplesmente reproduzir uma melodia popular dentro de uma orquestra. Seu projeto era muito mais ousado. Queria construir uma música brasileira de concerto que não precisasse esconder suas origens. Foi nesse ponto que sua trajetória encontrou o modernismo. Em 1922, Villa-Lobos participou da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo. Apresentou obras em diferentes momentos do evento, entre elas as Danças Características Africanas. Sua presença na Semana de 22 tornou-se simbólica porque a ruptura proposta pelos modernistas na literatura, nas artes plásticas e na música encontrava em Villa-Lobos um compositor disposto a experimentar. Mas sua modernidade não estava simplesmente na utilização de sons considerados “exóticos” ou na ruptura com determinados padrões acadêmicos. Ela estava, principalmente, na ideia de que o compositor brasileiro poderia olhar para a própria realidade cultural como fonte legítima de criação. Era uma mudança de perspectiva. Durante muito tempo, a música de concerto produzida no Brasil estivera fortemente vinculada aos modelos europeus. Villa-Lobos não rejeitou essa tradição. Estudou-a, apropriou-se dela e, posteriormente, estabeleceu com ela uma relação de confronto e diálogo. Seu encontro imaginário — e musical — entre Bach e o Brasil seria uma das expressões mais conhecidas dessa concepção. Bach encontra o Brasil As Bachianas Brasileiras estão entre as obras mais famosas de Villa-Lobos. Nelas, o compositor aproximou procedimentos associados à música de Johann Sebastian Bach de elementos da linguagem musical brasileira. O resultado não é uma simples fusão mecânica. É uma espécie de conversa entre tempos, culturas e universos sonoros. A famosa Bachianas Brasileiras nº 5, escrita para soprano e oito violoncelos, tornou-se uma das obras brasileiras mais conhecidas internacionalmente. Mas sua importância ultrapassa o sucesso de uma determinada composição. Ela representa uma maneira de pensar a identidade musical brasileira: não como isolamento, mas como diálogo. Villa-Lobos parecia dizer que ser brasileiro não significava rejeitar Bach. Significava ser capaz de ouvir Bach sem deixar de ouvir o Brasil. Essa postura explica, em parte, a dimensão internacional de sua carreira. Em suas temporadas em Paris, o compositor apresentou suas obras e conquistou espaço no ambiente musical europeu. O Museu Villa-Lobos registra que suas duas estadias na capital francesa contribuíram decisivamente para sua projeção internacional.
O curioso é que, quanto mais Villa-Lobos se tornava conhecido fora do Brasil, mais sua música parecia afirmar sua origem. Ele não precisava europeizar sua música para ser ouvido na Europa. Levava o Brasil consigo. O violão deixa a margem e entra na sala de concerto Talvez nenhum instrumento revele tão bem essa atitude quanto o violão. Associado historicamente à música popular brasileira, o instrumento recebeu de Villa-Lobos um tratamento que modificaria para sempre sua presença no repertório de concerto. Seus Doze Estudos para violão tornaram-se referência internacional e passaram a integrar o repertório dos grandes intérpretes do instrumento. O gesto é significativo. Villa-Lobos não apenas utilizou elementos populares. Ele ajudou a alterar a hierarquia cultural que separava, de maneira rígida, o que deveria ser considerado música “erudita” e o que pertenceria ao território da música popular. Nesse aspecto, sua contribuição ultrapassa a composição. Ela é também cultural. O compositor percebeu que o Brasil musical estava muito além das instituições oficiais. Estava nos músicos anônimos, nas rodas de choro, nas festas, nas canções transmitidas oralmente e nos diferentes sotaques musicais espalhados pelo país. Sua obra transformou essa diversidade em linguagem. O maestro e a educação musical Villa-Lobos, porém, não foi apenas compositor. Na década de 1930, sua atuação ganhou uma dimensão pedagógica de enormes proporções. Convidado por Anísio Teixeira, participou da reorganização do ensino de música e canto coral nas escolas do Rio de Janeiro e dirigiu o Serviço de Música e Canto Orfeônico, posteriormente transformado em Superintendência de Educação Musical e Artística. O projeto tinha uma dimensão que ultrapassava a sala de aula. Villa-Lobos acreditava que a música deveria fazer parte da formação do cidadão. Grandes concentrações de estudantes passaram a cantar sob sua orientação. O canto coletivo tornou-se uma ferramenta de educação musical e, ao mesmo tempo, uma poderosa manifestação pública. Foi nesse período que sua trajetória se aproximou do governo de Getúlio Vargas. É justamente aqui que surge uma das questões mais complexas de sua biografia. Villa-Lobos tornou-se um dos principais responsáveis por um projeto de educação musical apoiado pelo Estado em um período que culminaria no Estado Novo. As grandes concentrações orfeônicas tinham evidente dimensão cívica e podiam ser incorporadas à construção simbólica do nacionalismo promovido pelo governo. Isso não diminui automaticamente a importância de seu projeto pedagógico, mas exige que sua atuação seja observada historicamente, sem transformar o compositor em personagem completamente idealizado. Villa-Lobos era um homem de seu tempo. E seu tempo era contraditório. A música podia representar educação, identidade e democratização cultural. Mas também podia ser utilizada pelo poder político como instrumento de mobilização coletiva. A grandeza do personagem está, justamente, em não caber facilmente em uma única interpretação. Um Brasil dentro da partitura A produção de Villa-Lobos é gigantesca. O catálogo da Academia Brasileira de Música registra mais de 700 títulos, abrangendo música para instrumentos solo, música de câmara, canções, obras corais, concertos, obras sinfônicas, óperas e balés. Essa dimensão ajuda a compreender por que qualquer tentativa de resumir Villa-Lobos em uma única palavra acaba sendo insuficiente. “Nacionalista” é pouco. “Modernista” também. “Erudito” não explica sua relação com o choro. “Popular” não dá conta da complexidade de sua escrita. “Universal” não explica a força de sua brasilidade. Talvez Villa-Lobos seja exatamente a tensão entre todas essas categorias. Sua música parece nascer do desejo de conciliar aquilo que, à primeira vista, poderia parecer inconciliável: Bach e o choro; a sala de concerto e a rua; a tradição e a ruptura; o nacional e o internacional; a composição sofisticada e a memória musical popular. É por isso que sua obra permanece tão importante. A partir de 1945, Villa-Lobos ampliou ainda mais sua presença internacional. Passou a receber encomendas de instituições e intérpretes, regeu orquestras nos Estados Unidos e consolidou uma carreira internacional que já havia começado na Europa. No mesmo ano, fundou a Academia Brasileira de Música, instituição criada com o objetivo de reunir personalidades da vida musical brasileira e promover a música de concerto do país. A criação da Academia revela outra dimensão de seu projeto: Villa-Lobos não queria apenas deixar obras. Queria ajudar a construir instituições capazes de preservar e divulgar a música brasileira.
Morreu no Rio de Janeiro em 17 de novembro de 1959. Deixou uma obra monumental, mas deixou também uma pergunta que continua atual: o que significa produzir uma música verdadeiramente brasileira?
A resposta de Villa-Lobos nunca foi uma definição. Foi uma prática. Ele ouviu o país. Ouviu seus músicos populares, suas tradições, seus cantos, suas paisagens e seus ritmos. Ouviu também Bach, Debussy e outros compositores europeus. Depois, colocou tudo isso em conflito dentro de sua própria imaginação. Talvez seja esse o segredo de sua permanência. Villa-Lobos não construiu uma música brasileira fechada sobre si mesma. Construiu uma música capaz de partir do Brasil e conversar com o mundo. Por isso, sua obra continua sendo executada muito depois de seu desaparecimento. E talvez seja por isso também que o maestro permaneça tão difícil de definir. Villa-Lobos não foi apenas o compositor que colocou o Brasil na partitura. Foi o artista que percebeu que o Brasil já era, por si só, uma enorme partitura — cheia de vozes, contradições, ritmos, silêncios e histórias esperando alguém capaz de escutá-los. E Villa-Lobos soube escutar.
*Mestre e Doutorando em Cognição e Linguagem pela UENF, regente de corais e de orquestras sinfônicas há 25 anos.
Entre o choro das ruas, a tradição europeia e a construção de uma identidade nacional, Heitor Villa-Lobos criou uma das obras mais singulares da música brasileira. Há compositores que escrevem música. Há outros que, de alguma maneira, parecem escrever o próprio país. Heitor Villa-Lobos pertence a essa segunda categoria. Quando sua música começa a soar, não é apenas uma partitura que se movimenta. Há nela alguma coisa das ruas do Rio de Janeiro, dos chorões, das festas populares, das paisagens brasileiras, dos cantos aprendidos durante suas viagens e também da tradição musical europeia que o compositor conhecia profundamente. Villa-Lobos fez dessa mistura uma linguagem particular e transformou a ideia de brasilidade em matéria de criação artística.
Nascido no Rio de Janeiro em 5 de março de 1887, Villa-Lobos teve no pai, Raul Villa-Lobos, seu primeiro professor de música. Aprendeu inicialmente violoncelo e clarinete e recebeu uma educação musical rigorosa. Mas a formação do futuro compositor não se limitaria às lições familiares nem aos ambientes acadêmicos. Ainda jovem, ele descobriu outra escola: a rua. O Rio de Janeiro do início do século XX era uma cidade musical. Nas praças, nos teatros, nos cafés e nas festas, músicos populares desenvolviam uma linguagem própria. O choro ocupava lugar importante nesse universo. Villa-Lobos aproximou-se desses músicos e passou a estudar violão, instrumento que sua mãe não via com bons olhos por associá-lo ao ambiente boêmio. O contato com os chorões seria decisivo. Ali estava uma música que não obedecia integralmente às convenções da sala de concerto. Era uma música de liberdade. E Villa-Lobos soube ouvi-la. O compositor também percorreu diferentes regiões do Brasil. O Museu Villa-Lobos registra viagens pelo Espírito Santo, Bahia, Pernambuco e, posteriormente, pela região amazônica, experiências que contribuíram para ampliar seu contato com diferentes tradições musicais brasileiras. Essas experiências seriam fundamentais para uma de suas maiores características: a capacidade de transformar elementos da cultura popular em matéria de elaboração erudita. Villa-Lobos não queria simplesmente reproduzir uma melodia popular dentro de uma orquestra. Seu projeto era muito mais ousado. Queria construir uma música brasileira de concerto que não precisasse esconder suas origens. Foi nesse ponto que sua trajetória encontrou o modernismo. Em 1922, Villa-Lobos participou da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo. Apresentou obras em diferentes momentos do evento, entre elas as Danças Características Africanas. Sua presença na Semana de 22 tornou-se simbólica porque a ruptura proposta pelos modernistas na literatura, nas artes plásticas e na música encontrava em Villa-Lobos um compositor disposto a experimentar. Mas sua modernidade não estava simplesmente na utilização de sons considerados “exóticos” ou na ruptura com determinados padrões acadêmicos. Ela estava, principalmente, na ideia de que o compositor brasileiro poderia olhar para a própria realidade cultural como fonte legítima de criação. Era uma mudança de perspectiva. Durante muito tempo, a música de concerto produzida no Brasil estivera fortemente vinculada aos modelos europeus. Villa-Lobos não rejeitou essa tradição. Estudou-a, apropriou-se dela e, posteriormente, estabeleceu com ela uma relação de confronto e diálogo. Seu encontro imaginário — e musical — entre Bach e o Brasil seria uma das expressões mais conhecidas dessa concepção. Bach encontra o Brasil As Bachianas Brasileiras estão entre as obras mais famosas de Villa-Lobos. Nelas, o compositor aproximou procedimentos associados à música de Johann Sebastian Bach de elementos da linguagem musical brasileira. O resultado não é uma simples fusão mecânica. É uma espécie de conversa entre tempos, culturas e universos sonoros. A famosa Bachianas Brasileiras nº 5, escrita para soprano e oito violoncelos, tornou-se uma das obras brasileiras mais conhecidas internacionalmente. Mas sua importância ultrapassa o sucesso de uma determinada composição. Ela representa uma maneira de pensar a identidade musical brasileira: não como isolamento, mas como diálogo. Villa-Lobos parecia dizer que ser brasileiro não significava rejeitar Bach. Significava ser capaz de ouvir Bach sem deixar de ouvir o Brasil. Essa postura explica, em parte, a dimensão internacional de sua carreira. Em suas temporadas em Paris, o compositor apresentou suas obras e conquistou espaço no ambiente musical europeu. O Museu Villa-Lobos registra que suas duas estadias na capital francesa contribuíram decisivamente para sua projeção internacional.
O curioso é que, quanto mais Villa-Lobos se tornava conhecido fora do Brasil, mais sua música parecia afirmar sua origem. Ele não precisava europeizar sua música para ser ouvido na Europa. Levava o Brasil consigo. O violão deixa a margem e entra na sala de concerto Talvez nenhum instrumento revele tão bem essa atitude quanto o violão. Associado historicamente à música popular brasileira, o instrumento recebeu de Villa-Lobos um tratamento que modificaria para sempre sua presença no repertório de concerto. Seus Doze Estudos para violão tornaram-se referência internacional e passaram a integrar o repertório dos grandes intérpretes do instrumento. O gesto é significativo. Villa-Lobos não apenas utilizou elementos populares. Ele ajudou a alterar a hierarquia cultural que separava, de maneira rígida, o que deveria ser considerado música “erudita” e o que pertenceria ao território da música popular. Nesse aspecto, sua contribuição ultrapassa a composição. Ela é também cultural. O compositor percebeu que o Brasil musical estava muito além das instituições oficiais. Estava nos músicos anônimos, nas rodas de choro, nas festas, nas canções transmitidas oralmente e nos diferentes sotaques musicais espalhados pelo país. Sua obra transformou essa diversidade em linguagem. O maestro e a educação musical Villa-Lobos, porém, não foi apenas compositor. Na década de 1930, sua atuação ganhou uma dimensão pedagógica de enormes proporções. Convidado por Anísio Teixeira, participou da reorganização do ensino de música e canto coral nas escolas do Rio de Janeiro e dirigiu o Serviço de Música e Canto Orfeônico, posteriormente transformado em Superintendência de Educação Musical e Artística. O projeto tinha uma dimensão que ultrapassava a sala de aula. Villa-Lobos acreditava que a música deveria fazer parte da formação do cidadão. Grandes concentrações de estudantes passaram a cantar sob sua orientação. O canto coletivo tornou-se uma ferramenta de educação musical e, ao mesmo tempo, uma poderosa manifestação pública. Foi nesse período que sua trajetória se aproximou do governo de Getúlio Vargas. É justamente aqui que surge uma das questões mais complexas de sua biografia. Villa-Lobos tornou-se um dos principais responsáveis por um projeto de educação musical apoiado pelo Estado em um período que culminaria no Estado Novo. As grandes concentrações orfeônicas tinham evidente dimensão cívica e podiam ser incorporadas à construção simbólica do nacionalismo promovido pelo governo. Isso não diminui automaticamente a importância de seu projeto pedagógico, mas exige que sua atuação seja observada historicamente, sem transformar o compositor em personagem completamente idealizado. Villa-Lobos era um homem de seu tempo. E seu tempo era contraditório. A música podia representar educação, identidade e democratização cultural. Mas também podia ser utilizada pelo poder político como instrumento de mobilização coletiva. A grandeza do personagem está, justamente, em não caber facilmente em uma única interpretação. Um Brasil dentro da partitura A produção de Villa-Lobos é gigantesca. O catálogo da Academia Brasileira de Música registra mais de 700 títulos, abrangendo música para instrumentos solo, música de câmara, canções, obras corais, concertos, obras sinfônicas, óperas e balés. Essa dimensão ajuda a compreender por que qualquer tentativa de resumir Villa-Lobos em uma única palavra acaba sendo insuficiente. “Nacionalista” é pouco. “Modernista” também. “Erudito” não explica sua relação com o choro. “Popular” não dá conta da complexidade de sua escrita. “Universal” não explica a força de sua brasilidade. Talvez Villa-Lobos seja exatamente a tensão entre todas essas categorias. Sua música parece nascer do desejo de conciliar aquilo que, à primeira vista, poderia parecer inconciliável: Bach e o choro; a sala de concerto e a rua; a tradição e a ruptura; o nacional e o internacional; a composição sofisticada e a memória musical popular. É por isso que sua obra permanece tão importante. A partir de 1945, Villa-Lobos ampliou ainda mais sua presença internacional. Passou a receber encomendas de instituições e intérpretes, regeu orquestras nos Estados Unidos e consolidou uma carreira internacional que já havia começado na Europa. No mesmo ano, fundou a Academia Brasileira de Música, instituição criada com o objetivo de reunir personalidades da vida musical brasileira e promover a música de concerto do país. A criação da Academia revela outra dimensão de seu projeto: Villa-Lobos não queria apenas deixar obras. Queria ajudar a construir instituições capazes de preservar e divulgar a música brasileira.
Morreu no Rio de Janeiro em 17 de novembro de 1959. Deixou uma obra monumental, mas deixou também uma pergunta que continua atual: o que significa produzir uma música verdadeiramente brasileira?
A resposta de Villa-Lobos nunca foi uma definição. Foi uma prática. Ele ouviu o país. Ouviu seus músicos populares, suas tradições, seus cantos, suas paisagens e seus ritmos. Ouviu também Bach, Debussy e outros compositores europeus. Depois, colocou tudo isso em conflito dentro de sua própria imaginação. Talvez seja esse o segredo de sua permanência. Villa-Lobos não construiu uma música brasileira fechada sobre si mesma. Construiu uma música capaz de partir do Brasil e conversar com o mundo. Por isso, sua obra continua sendo executada muito depois de seu desaparecimento. E talvez seja por isso também que o maestro permaneça tão difícil de definir. Villa-Lobos não foi apenas o compositor que colocou o Brasil na partitura. Foi o artista que percebeu que o Brasil já era, por si só, uma enorme partitura — cheia de vozes, contradições, ritmos, silêncios e histórias esperando alguém capaz de escutá-los. E Villa-Lobos soube escutar.
*Mestre e Doutorando em Cognição e Linguagem pela UENF, regente de corais e de orquestras sinfônicas há 25 anos.