Felipe Manhães - Aeroporto Bartolomeu Lisandro: o retrato do abandono de uma cidade
Há situações que deixam de ser apenas um problema administrativo e passam a representar um verdadeiro símbolo do atraso de uma cidade. O Aeroporto Bartolomeu Lisandro, em Campos dos Goytacazes, é hoje um desses símbolos.
Uma cidade com 519 mil habitantes, segundo a estimativa do IBGE para 2025, é a maior do Norte Fluminense e está entre os municípios brasileiros com mais de 500 mil habitantes que não são capitais. É maior que várias capitais brasileiras. É maior, inclusive, que Niterói, que possui população estimada em 516.787 habitantes. É uma cidade-polo, cercada por uma região economicamente relevante, próxima ao Porto do Açu, inserida na dinâmica da indústria de petróleo e gás e com importância regional muito superior aos seus limites territoriais.
Apesar de tudo isso, Campos está há mais de um ano sem voos comerciais regulares de passageiros, para lugar nenhum.
O último voo comercial da Azul deixou o Bartolomeu Lisandro em 10 de março de 2025. Desde então, nenhuma companhia aérea retomou uma operação no aeroporto. Em junho de 2026, a imprensa local já contabilizava 15 meses de isolamento aéreo. Hoje, em agosto de 2026, são aproximadamente 17 meses.
É difícil encontrar uma expressão mais adequada para definir essa situação do que vergonha.
É importante fazer uma ressalva: tecnicamente, o Bartolomeu Lisandro não está fechado.
O aeroporto continua existindo, possui infraestrutura aeroportuária e atende à aviação geral, incluindo operações particulares e executivas. A própria administração afirma que o terminal permanece preparado para receber novos voos.
Para o cidadão comum, para o empresário que precisa viajar, para o turista que pretende chegar à cidade e para quem depende de transporte aéreo para trabalhar ou fazer negócios, a realidade é simples: não existe voo comercial regular de passageiros saindo ou chegando a Campos.
Ou seja, existe aeroporto, existe pista, existe terminal, existe infraestrutura, mas não existe aquilo que justifica, para a população, a existência de um aeroporto comercial: voo para o passageiro. É como ter uma rodoviária sem ônibus.
A cidade é grande, mas a mentalidade dos políticos é pequena.
O próprio setor produtivo já alertava, quando a Azul anunciou o encerramento da rota, que a ausência de voos prejudicaria a economia regional e a capacidade de Campos de atrair investimentos.
É verdade que a Azul tomou uma decisão empresarial. A empresa justificou a decisão com fatores como aumento dos custos operacionais, alta do dólar, disponibilidade de frota e ajustes entre oferta e demanda.
Mas há uma diferença enorme entre reconhecer a liberdade empresarial da companhia e aceitar passivamente que uma cidade de mais de meio milhão de habitantes fique sem qualquer ligação aérea comercial.
A situação fica ainda mais difícil de compreender quando se olha para a própria vocação econômica regional. Campos está no coração de uma das regiões mais importantes do país para o setor de energia. O Porto do Açu consolidou-se como um dos principais empreendimentos logísticos e industriais do país. E o transporte aéreo também é utilizado pela própria indústria offshore.
Aeroporto é infraestrutura estratégica. É instrumento de desenvolvimento. É ferramenta de integração regional. É parte da infraestrutura econômica de uma cidade.
O cidadão paga a conta. A ausência de voos não significa apenas inconveniência, ela custa dinheiro e custa tempo.
Um morador de Campos que precisa viajar de avião passa a depender de outros aeroportos, especialmente os do Rio de Janeiro ou de outras cidades da região.
Isso significa deslocamento terrestre adicional, combustível, pedágio, estacionamento, transporte por aplicativo, ônibus, hospedagem em determinados casos e, principalmente, horas perdidas.
O insumo principal de um aeroporto é gente, e a cidade tem bastante. Os voos da Azul no CAW viviam cheios, os preços eram até razoáveis, e posso dizer que havia até mais demanda do que oferta, talvez se os preços fossem um pouco menores. Não há justificativa. É uma vergonha, do tamanho da cidade.
*Felipe Manhães é advogado, procurador do Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo e membro da Comissão de Defesa do Consumidor do Conselho Federal da OAB