Arthur Soffiati - Caminhada na praia
* Arthur Soffiati - Atualizado em 15/08/2026 07:21
Conheci o Roteiro dos Sete Capitães em meados dos anos de 1980. Eu ainda não estava inteirado de toda a discussão sobre sua apocrifia travada por José de Vieira Fazenda, que dizia ter conversado sobre ele com Capistrano de Abreu, o maior historiador da época. Segundo Fazenda, Abreu desconfiou da autenticidade do documento. Mais tarde, Charles Boxer, no livro “Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686”, de 1952, também considerou apócrifo o Roteiro, mas não deixou de usá-lo em suas pesquisas. José Honório Rodrigues renegou o documento.
Ainda longe deste debate, quis verificar se a descrição feita por um dos capitães (talvez João de Castilho ou um escrivão contratado) correspondia ao território pleiteado como sesmarias. Os sete homens bons partiram de Cabo Frio até Macaé numa sumaca (embarcação de tipo holandês). Em Macaé, já havia um povoado de mamelucos, segundo o documento. De lá, então, eles tentaram chegar ao Cabo de São Tomé, já conhecido por navegadores desde o século XVI. As condições do mar não permitiram o desembarque. Eu diria até que só dois pontos funcionariam como porto: a foz do rio Iguaçu e a do Paraíba do Sul. Talvez o rio Iguaçu permitisse o fundeamento de uma sumaca. Um passageiro caiu no mar.
Então, os capitães voltaram a Macaé e empreenderam a viagem aos seus domínios por terra. Resolvi seguir seus passos. Sozinho, com um gravador e uma câmara fotográfica, saí a pé de Macaé até a lagoa de Carapebus, que mereceu mais de uma referência no Roteiro. O nome foi dado pelos capitães em alusão a uma ave. Não conheço ave nenhuma com esse nome popular. Parecia mais derivar do peixe carapeba. De Carapebus, retornei a Campos porque a viagem a pé era muito longa. No mês seguinte, parti da praia de Carapebus até a Praia de João Francisco, em Quissamã. Retornei a Campos para mais um descanso.
Um mês depois, retomei a viagem a partir de onde eu parara e cheguei a Barra do Furado. Passei pela lagoa de Jagoroaba, que foi nomeada pelos capitães de Jagabra ou Fedorenta em virtude de uma mortandade de peixes causada, ao que tudo indica, por uma seca. Um detalhe que passaria despercebido ao crítico do documento: caminhar na praia de uma restinga é muito cansativo, pois os pés têm de se apoiar num plano inclinado. Em pouco tempo, o esqueleto reclama. Então, os membros da caravana passaram para o cômoro da praia, a parte mais alta dela. Ainda é areia que não fornece solidez para a caminhada. Só na planície aluvial, a partir de Barra do Furado, que ainda não existia, foi possível ao grupo caminhar em terreno firme.
Vivi o drama daqueles homens, que registraram esse problema no Roteiro. Tanto que, na segunda expedição, eles vieram em montaria. Na primeira, eles conheceram a Lagoa Grande, onde havia uma aldeia de indígenas. Os estranhos foram recebidos por eles e os levaram para conhecer a lagoa de perto: “Era um grandíssimo lago ou lagoa d’água doce, a qual estava tão agitada com o vento sudoeste, tão crespas suas águas e tão turvas que metiam horror: aonde lhe demos o apelido de Lagoa Feia. Neste mesmo lugar vimos as suas embarcações de pesca; três traves de paus aguçados nas cabeças para cortar as águas e atados com umas travessas nas mesmas cabeças, era formada a dita embarcação; à forma de jangada, porém muito bem organizada.” Motivado por essa informação, consegui que o pescador Manoel Rocha, de Ponta Grossa dos Fidalgos, atravessasse comigo a lagoa de um lado a outro. Enfrentamos uma tempestade mais branda, porém assustadora.
Daí em diante, eles atravessaram a atual praia do Farol de São Tomé de ponta a ponta. Claro que ela ainda não tinha esse nome. O rio Iguaçu, hoje desconhecido até por quem mora no Farol, foi registrado no Roteiro. No cabo de São Tomé, os capitães encontraram a segunda aldeia goitacá, essa mais numerosa que a da lagoa Feia. Entre os nativos, havia degredados. Eles explicaram aos Sete Capitães: “Senhores, pela misericórdia de Deus, estamos com esta gente onze pessoas, isto está a fazer dois anos. Vínhamos de Lisboa em uma embarcação que vinha de ordem para o Rio de Janeiro, e trazia um socorro de gente, juntamente quarenta e tantos criminosos, não de crimes de morte, nem de ladrões, mas sim de crimes de outras circunstâncias.”
Fascinados com as campinas da sesmaria, os capitães, da praia, observaram que “o interior era melhor por não ter areias como cá para fora para o Sul.” Por mais rudes que esses proprietários de terra fossem; por mais que estivessem à procura de terras para a criação de bois e cavalos que pudessem atender aos engenhos e à população da baía do Rio de Janeiro, eles não contiveram sua emoção diante da beleza da planície.
Examinando a descrição do território no Roteiro, não há como negar sua autenticidade. O documento daria um roteiro de cinema.


*Professor, escritor, historiador, ambientista e membro da Academia Campista de Letras.

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