Arthur Soffiati - Embaixo, em cima e fora
Pela ótica da ciência, não há mais dúvidas de que a atual crise ambiental resulta de uma economia insustentável pela natureza e que se disseminou por todo o mundo a partir do século XV da nossa era, chamada de era comum. Cientistas e centros de pesquisa comprovam que as mudanças climáticas decorrem de atividades humanas, principalmente pelo uso de combustíveis fósseis e pelo desmatamento. Os oceanos estão aquecidos e poluídos. Acontece o mesmo com a água doce continental, que, além de poluída, está se reduzindo. As florestas estão sendo invadidas e devastadas pela economia. A biodiversidade florística e faunística está sendo empobrecida por atividades humanas. Os ciclos de fósforo e nitrogênio, dois elementos altamente poluentes, estão se acelerando.
Pela ótica da ciência, não há mais dúvidas de que a atual crise ambiental resulta de uma economia insustentável pela natureza e que se disseminou por todo o mundo a partir do século XV da nossa era, chamada de era comum. Cientistas e centros de pesquisa comprovam que as mudanças climáticas decorrem de atividades humanas, principalmente pelo uso de combustíveis fósseis e pelo desmatamento. Os oceanos estão aquecidos e poluídos. Acontece o mesmo com a água doce continental, que, além de poluída, está se reduzindo. As florestas estão sendo invadidas e devastadas pela economia. A biodiversidade florística e faunística está sendo empobrecida por atividades humanas. Os ciclos de fósforo e nitrogênio, dois elementos altamente poluentes, estão se acelerando.
Tudo isto acontece na superfície oceânica e terrestre, assim como no subsolo. Ou seja, embaixo. Os reflexos negativos também são sentidos embaixo. É do subsolo que se extraem os combustíveis fósseis. É dos mares que a atividade extrativista ameaça a biodiversidade marinha, assim como o descarte de plástico. É na superfície do planeta que ocorre a destruição dos biomas e da biodiversidade. É sobre a Terra que ocorrem a grande urbanização e os desastres causados por chuvas torrenciais e secas intensas, ambas decorrentes das mudanças climáticas. Sobre a Terra, lavouras, pastagens, bairros pobres e cidades são afetados por chuvas, secas e incêndios.
As atividades econômicas também afetam o que está em cima. A camada de gases que impede a fuga para o espaço do calor necessário à vida de plantas, animais e humanos está se tornando espessa e aumentando as temperaturas. A Europa, criadora dessa economia, vem sofrendo mais uma vez, em 2026, temperaturas bastante elevadas para a população. Ocorrem incêndios devastadores e várias mortes como demonstração de que o aquecimento progressivo do planeta não é ficção de cientista e ecologista. A agência para oceanos e clima dos Estados Unidos prevê, para este ano, o fenômeno El niño superaquecido pelas mudanças climáticas. Isto significa, para o Brasil, chuvas torrenciais no sul, como aconteceu no Rio Grande do Sul, e secas intensas, como aconteceu na Amazônia, além de incêndios nos vários biomas.
Em cima, também ocorre uma inimaginável poluição: excesso de artefatos espaciais. Na década de 1950, quando começou a corrida espacial, não se imaginava que a humanidade chegaria a saturar com tanto lixo o inabitável espaço em que a Terra se move. Hoje, ele representa perigo para as viagens espaciais, pois circunda a Terra num ambiente sem atmosfera. Por isso, não queima. Esse lixo circunda o planeta livremente. Caso se choque com uma nave, ele a destrói.
Mas vamos ao território final: o fora. Em se tratando da Terra, não há fora. Tudo está dentro. O fora, aqui, significa o território abandonado. Falamos do fora para a humanidade diretamente. As chuvas ingentes estão mostrando que certas áreas urbanas não podem ser mais ocupadas. O esgotamento do solo por uma agropecuária intensiva, com o uso excessivo de agrotóxicos e de fertilizantes químicos, com o emprego continuado de implementos agrícolas e outras práticas impactantes, acaba inviabilizando territórios. Eles são abandonados pela economia que os inutilizou, que não quer aumentar os custos de exploração. Com o tempo, a natureza os ocupa. Ela é paciente. Sua lógica difere da lógica da economia de mercado. A água da chuva volta a se acumular em depressões do solo. As plantas pequenas e grandes voltam a colonizar o território. Os animais silvestres retornam ao lar de onde foram expulsos. Muitas espécies terão sido extintas, mas a evolução cria outras.
A Terra está condenada a desaparecer quando o Sol se tornar uma gigante vermelha. Antes que ela seja engolida, a vida terá sido extinta. Este processo ocorrerá daqui há milhões de anos. Até lá, a humanidade tem dois caminhos: encontrar solução para a crise ambiental ou aprofundá-la ainda mais. Chegamos a um ponto de não retorno? A solução para a crise reside no fim da humanidade? É necessário superar a crise de mercado por uma revolução? É possível que a economia de mercado consiga mudar de curso de modo a superar a crise?
Não podemos fazer previsões de longo prazo. Não sabemos se chegamos a um ponto de não retorno. Difícil imaginar que a crise atual provoque a extinção da humanidade. Mesmo estraçalhada, ela deve sobreviver. Uma revolução para superar a economia capitalista carece de força revolucionária. Como escreveu o marxista Slavoj Zizek, a revolução precisa ser mundial, e não mais num só país, como a de 1917, na Rússia. A força revolucionária potencial reside nos miseráveis das favelas, mas eles tendem a cair no tráfico ou nas igrejas evangélicas. Resta-nos acreditar que o capitalismo promoverá mudanças suficientes para sobreviver. Será? Os ecologistas e humanistas chegaram a este dilema: precisamos de uma mudança global, mas como promovê-la?
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.