* Arthur Soffiati
11/07/2026 10:16 - Atualizado em 11/07/2026 10:29
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Pelo menos nos círculos humanísticos e intelectuais, reconhece-se hoje que qualquer povo integra a humanidade. Ele pode apresentar pele de qualquer cor. Pode cultuar qualquer divindade. Pode falar qualquer língua. Não importa a cultura imaterial e material que desenvolva. Trata-se de um humano e, como tal, está protegido por leis. Esse reconhecimento é fruto de um longo processo histórico. Quando os europeus se lançaram aos mares, no século XV, o contato com vários povos se tornou inevitável. A diversidade cultural causou desconforto aos ocidentais. No Oriente, as culturas indiana e chinesa foram consideradas inferiores, mas, pelo menos, reconheceu-se que se tratava de cultura. Podia ser inferior à europeia, mas tinha valores reconhecidos pelos europeus.
Na África e na América, a nudez, a antropofagia, o sacrifício de humanos levaram os europeus a concluírem que estavam diante de sub-humanos, quase animais. Aquilo não era religião. Aquilo não era cultura. Mas os povos estranhos falavam e tinham crenças. Acima de tudo, mantendo relações sexuais com os europeus, nasciam crianças. Ou bem ou mal, os europeus não tinham como negar alguma humanidade àqueles povos estranhos.
Aos poucos, as provas se tornaram irrefutáveis. Hoje, sabemos que as distintas culturas do planeta Terra são capazes de conhecer o mundo e de desenvolver ciências diversas para esse conhecimento. Sabemos que as culturas se equivalem, mesmo que sejam iletradas. Sabemos que a escravização de africanos e a matança de povos indígenas são eticamente indefensáveis.
É no contexto cultural do século XXI que volto a examinar a nação goitacá. Ela faz parte do grande grupo linguístico macro-jê. Segundo as mais equilibradas informações dos séculos XVI e XVII, os goitacá ocupavam um território costeiro que se estendia do Rio São Mateus (ES) à Região dos Lagos, com forte presença na planície formada pelo rio Paraíba do Sul, que acabou sendo batizada de Planície Goitacá, assim como a maior cidade que se ergueu nela: Campos dos Goitacazes.
O goitacá passou da condição de mais bárbaro povo que habitou as Índias Ocidentais (América) à nação corajosa que defendeu bravamente seu território e seus valores culturais. Essa mudança começou em fins do século XIX, com o positivismo. Os povos indígenas do Norte-Noroeste Fluminense não mais existiam, embora um grupo de pessoas se considere herdeiro deles.
Para o reconhecimento da nação goitacá, muito contribuiu o antropólogo francês Alfred Métraux, que publicou o artigo “Les indiens waitaka”, em 1929, como introdução a um manuscrito inédito de André Thévet, cosmógrafo que esteve no Brasil no século XVI. Métraux empreendeu uma pesquisa sistemática sobre as informações deixadas por esse povo. Talvez a mais densa das que existem. O olhar, agora, é distanciado. Não se trata mais de julgar, mas de compreender.
Nesta mesma linha, entendo que se deve, primeiramente, examinar o território em que viveu o goitacá. Entre os rios São Mateus e Guaxindiba, trata-se de terreno pedregoso e argiloso, mas do Guaxindiba ao rio Macaé, o território é baixo, com muitas lagoas e banhados, sem florestas e com o grande rio Paraíba do Sul. Como as culturas da América costumavam se adaptar aos diversos ambiente – e não adaptar os ambientes às suas culturas – a coleta, a pesca e a caça abundantes inibiram a agricultura, conhecida, mas pouco praticada. De acordo com o novo entendimento dos arqueólogos brasileiros, não se pode falar em neolítico típico no novo mundo. Mas também não se trata de paleolítico puro, já que a cerâmica era praticada.
O que Métraux faz é conferir historicidade ao goitacá. Ele e outros povos de fala macro-jê chegaram ao litoral depois dos povos sambaquieiros e talvez tenham se misturado a eles. Deixemos de lado a ideia de povos pré-europeus pacatos. O goitacá fazia guerra, como os outros. Posteriormente, chegaram os povos de língua tupi, que guerrearam os povos de língua macro-jê. O goitacá resistiu até a chegada dos europeus, com seus arcabuzes, seus canhões e suas doenças contagiosas.
Por mais que algumas pessoas se digam representantes dos goitacá, essa nação estava extinta no século XVIII, como informa o contemporâneo Manoel Martins do Couto Reis. Ou, talvez fugido para a zona florestal da zona montanhosa e ainda florestada da Zona da Mata Mineira e se misturado aos Coropó. O que conta é que os goitacá, assim como qualquer outro povo americano, teve uma história. Eles não representam, tal qual outros povos americanos pré-europeus, a pré-história do Brasil. Com a chegada dos europeus à América, várias histórias se encontram. Os goitacá ainda não merecem a atenção dada aos incas e astecas, por exemplo, mas creio que o texto de Métraux coloca esse povo entre os muitos que vivem e viveram na Terra.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.