Arthur Soffiati - O múltiplo Morin
* Arthur Soffiati - Atualizado em 08/06/2026 10:47
Arthur Soffiati
Arthur Soffiati / Divulgação

Edgar Morin nasceu Edgar Nahoun, judeu de origem turca, em 8 de julho de 1921, e morreu em 29 de maio de 2026, com quase 105 anos de idade, ainda lúcido e produtivo. Ele ainda escrevia, não como nos tempos de juventude. Manteve-se lúcido até a morte, escrevendo diariamente. Sua vida foi rica, como se pode constatar nas suas biografias, pois ele não separava muito sua trajetória pessoal do seu pensamento. Passou ao largo da academia, sendo, por bastante tempo, repudiado por ela como um intelectual que não se enquadrava nas normas acadêmicas. Quando não foi mais possível ignorar a força das suas reflexões, ele começou a ganhar títulos de doutor honoris causa de várias universidades.
Examinando sua obra desde “Ano zero da Alemanha”, seu primeiro livro (1947) até os últimos, que são muitos, vejo pelo menos seis vertentes em seu pensamento: a vida política, a cultura de massa, a epistemologia, a educação, a biografia e o memorialismo.
Bem moço, Morin abdicou dos estudos superiores para ingressar no Partido Comunista Francês e lutar na resistência francesa contra a Alemanha nazista. Terminada a guerra, ele visitou a Alemanha e conversou com várias pessoas, inclusive com o filósofo Martin Heidegger, que apoiara o nazismo de forma sutil. Ficou impressionado com a hospitalidade dos alemães, concluindo que um líder violento pode influenciar as pessoas com pouca capacidade de reflexão. Criticou Stalin, foi expulso do Partido Comunista, posicionou-se na Guerra da Argélia, nos movimentos democratizantes da Hungria e da Checoslováquia em relação à União Soviética. Participou dos movimentos de 1968 e fez análises muito lúcidas sobre eles. Escreveu um livro sobre a questão palestina que lhe custou processos movidos por sionistas. Ele saiu vitorioso. Condenou as guerras que eclodiram quando a Iugoslávia chegou ao fim. Sempre se posicionou contra a guerra e a favor da democracia.
Existe também um Morin interessado na cultura de massas. Opondo-se à Escola de Frankfurt, ele mostrou que a cultura de massas era uma realidade nascida do cinema, do rádio e da televisão, realidade esta que, para o bem ou para o mal, agradava a maioria das pessoas, permitindo também a criatividade. Nos dois volumes de “Cultura de massas no século XX (“nevrose” e “necrose”), em “O cinema ou o homem imaginário” e em “As estelas”, Morin mostra o mundo que nasceu com os meios de comunicação de massa. Ele chegou a dirigir um documentário com Jean Rouch.
Morin examinou o mundo e nunca se apartou dele. Fiel a seu método, ele entendia que o conhecedor da realidade deveria se autoconhecer. Assim, escreveu sua autobiografia em mais de um livro como também diários. No final da década de 1950, ele publicou “Autocrítica”. Entre livros em que ele trata de suas experiências estão “Diário da Califórnia’, “Chorar, amar, compreender”, “Diário da China”, “Amor, poesia, sabedoria”, “Meus demônios”, “A minha esquerda”, “Meus filósofos”, “Um ano Sísifo” e “Minha Paris, minhas memórias”.
Como biógrafo, escreveu o denso livro “Vidal e os seus”, em que analisa a figura do seu pai, com quem não se relacionava muito bem, não apenas pelo ângulo do indivíduo, mas no seu contexto histórico. Quando sua penúltima esposa morreu, ele escreveu “Edwige, a inseparável”. Morin dizia que era necessário escrever sobre suas perdas para melhor superá-las. Ele não era homem de viver solteiro por muito tempo.
Embora as áreas mencionadas sejam suficientes para credenciar um intelectual, o campo que mais o tornou conhecido foi a epistemologia. Desde “O paradigma perdido” (1972), ele começou a desenvolver o método da complexidade. Sua experiência na Califórnia colocou-o em contato com as teorias geral dos sistemas, da informação, da incerteza. Mas Morin não gostava de soma, e sim de síntese. Elaborou, então, a teoria dos sistemas complexos em “O método”, sua obra máxima em seis volumes. Ele transita desde a origem do Universo às artes, passando pela física, pela química, pela biologia, pelo ser humano. O método da complexidade questiona a ideia de sujeito e objeto do conhecimento como a formularam Descartes e o positivismo. O sujeito é despedido, por ele, da sua arrogância no ato de conhecer. Quanto ao objeto, em vez de simplificá-lo para melhor conhecê-lo, Morin mantém nele toda sua complexidade, sempre desconfiando do conhecimento por conta das imperfeições do sujeito e da condição complexa do objeto.
Por fim, Morin entendeu que, para lidar com a complexidade, era preciso reformar a educação. Seus mais conhecidos livros sobre a nova educação são “Os sete saberes necessários à educação do futuro” e “A religação dos saberes”. Ele foi convidado a coordenar a reforma da educação na França, mas enfrentou a resistência da academia. No Brasil, houve um tempo em que educadores se entusiasmaram com as propostas de Morin, mas não levaram em conta que ela, a educação, era um meio para conhecer a complexidade do mundo.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras

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