Maestro Ethmar Filho - 'O maestro que transformou a música clássica em espetáculo popular'
Poucos maestros do século XX conseguiram unir erudição musical, inovação tecnológica e apelo popular de maneira tão intensa quanto Leopold Stokowski. Dono de uma personalidade excêntrica, gestos teatrais e uma visão moderna da música, ele se tornou uma das figuras mais marcantes da regência orquestral mundial. Sua trajetória atravessou diferentes períodos da história da música e ajudou a aproximar a música clássica do grande público em uma época em que as salas de concerto ainda eram vistas como espaços elitizados.
Poucos maestros do século XX conseguiram unir erudição musical, inovação tecnológica e apelo popular de maneira tão intensa quanto Leopold Stokowski. Dono de uma personalidade excêntrica, gestos teatrais e uma visão moderna da música, ele se tornou uma das figuras mais marcantes da regência orquestral mundial. Sua trajetória atravessou diferentes períodos da história da música e ajudou a aproximar a música clássica do grande público em uma época em que as salas de concerto ainda eram vistas como espaços elitizados.
Nascido em Londres, em 1882, filho de pai polonês e mãe irlandesa, Stokowski iniciou cedo sua formação musical. Ainda jovem, demonstrava enorme habilidade ao órgão e aos estudos de composição. Depois de atuar como organista em igrejas inglesas, mudou-se para os Estados Unidos no início do século XX, país onde consolidaria sua carreira e alcançaria fama internacional.
Seu grande momento ocorreu à frente da Orquestra da Filadélfia, que dirigiu entre 1912 e 1938. Sob sua liderança, o conjunto adquiriu um som poderoso, sofisticado e imediatamente reconhecível. O chamado “Philadelphia Sound” tornou-se referência mundial graças à riqueza tímbrica das cordas e ao refinamento da interpretação orquestral. Stokowski não apenas regia; ele moldava o som da orquestra como um escultor molda a matéria-prima.
Ao contrário de muitos maestros conservadores de sua época, Stokowski tinha fascínio pela modernidade. Incentivou experiências com gravações elétricas, participou ativamente da evolução das técnicas de captação sonora e acreditava que a tecnologia poderia democratizar o acesso à música. Em uma época em que os discos ainda engatinhavam, ele compreendeu que as gravações seriam fundamentais para a difusão da música clássica no mundo moderno. Seu repertório também revelava ousadia. Embora interpretasse grandes compositores como Beethoven, Wagner e Tchaikovsky, Stokowski dedicou espaço importante à música contemporânea. Foi responsável por apresentar ao público americano obras de autores como Stravinsky, Schoenberg e Sibelius, muitas vezes enfrentando resistência de críticos mais tradicionais. Sua postura ajudou a renovar o ambiente musical do século XX e abriu espaço para novas linguagens sonoras. Mas, talvez, o episódio mais emblemático de sua carreira tenha sido sua participação no filme Fantasia, lançado pela Disney em 1940. A produção combinava animação e música clássica em uma experiência audiovisual inédita para a época. Stokowski apareceu no filme ao lado do personagem Mickey Mouse e regeu a trilha executada pela Orquestra da Filadélfia. A iniciativa levou obras clássicas a milhões de espectadores e transformou o maestro em uma celebridade internacional. Sua imagem pública também ajudava a alimentar o mito. Alto, elegante e dono de longos cabelos brancos, Stokowski cultivava uma aura quase cinematográfica. Regia sem batuta, usando apenas as mãos para desenhar movimentos amplos e expressivos diante da orquestra. Para muitos espectadores, assistir a um concerto regido por ele era também presenciar um espetáculo visual.
Ao longo da vida, trabalhou com diversas orquestras e continuou ativo até idade avançada. Fundou conjuntos, realizou turnês internacionais e manteve intensa atividade artística mesmo após os oitenta anos. Sua longevidade profissional impressionava tanto quanto sua capacidade de adaptação às mudanças culturais e tecnológicas do século XX.
Leopold Stokowski morreu em 1977, aos 95 anos, deixando um legado que ultrapassa os limites da regência tradicional. Mais do que um maestro virtuoso, ele foi um comunicador da música. Em uma era marcada pelo surgimento do rádio, do cinema e da indústria fonográfica, compreendeu como poucos que a arte precisava dialogar com novos públicos e novas mídias. Sua contribuição ajudou a transformar a música clássica em patrimônio acessível a milhões de pessoas ao redor do mundo.
*Mestre e Doutorando em Cognição e Linguagem pela UENF, regente de corais e de orquestras sinfônicas há 25 anos.