Arthur Soffiati - Goitacá: do mau ao bom selvagem
* Arthur Soffiati - Atualizado em 16/05/2026 08:10
 

Desde o século XVI, o goitacá vem sendo cercado por uma aura mítica. Até fins do século XVIII, era visto como o mais hediondo, bárbaro e cruel povo da Terra, mas também como o mais destemido entre todas as nações indígenas do Brasil. A partir do século XIX, o goitacá começou a ganhar roupagem de herói, sobretudo pelos historiadores positivistas.
O primeiro europeu a falar dos goitacás parece ter sido Jean de Léry, que não travou com eles contato direto. Suas informações foram colhidas de um marinheiro normando, quando sua embarcação passava pelas costas da Capitania de São Tomé. Os uetacá, nome que Léry registra, eram considerados índios tão ferozes que não podiam viver em paz com os vizinhos. Muito velozes, mostravam capacidade de escapar do inimigo e de persegui-lo a pé. Tal velocidade lhes permitia capturar animais como veados. Léry pintou-os como diabólicos, invencíveis, antropófagos e o mais cruel povo de toda a América.
Em 1587, Gabriel Soares de Sousa endossou Léry e atribuiu aos goitacás o fracasso de Pero de Gois à frente da Capitania de São Tomé. Sousa insistiu em considerá-los muito bárbaros, pouco amigos da agricultura, exímios pescadores, caçadores e guerreiros, mas não apreciadores de carne humana. Eles ofereciam o próprio corpo como isca para atrair tubarões. No final do século XVI, Anthony Knivet chamou-os de canibais.
No século XVII, o jesuíta Simão de Vasconcelos traçou um perfil dos goitacás utilizado até o presente. Em suas palavras, os Campos dos Goitacases assemelhavam-se aos Campos Elíseos pela sua beleza, fertilidade e quantidade de água. Todavia, este território estava protegido pela natureza hostil e pelos ferozes goitacás. Antropófagos, esses nativos tinham por iguaria a carne de seus inimigos. Moravam em casinholas construídas sobre um tronco de árvore fincado dentro de lagoas. Ferais e silvestres, acumulavam as ossadas dos inimigos abatidos e devorados.
O relato dos Sete Capitães, no início do século XVII, mostrou outro retrato do goitacá. Prevenidos, eles chegaram com os dedos nos gatilhos de suas armas. Mas, foram bem recebidos por eles, que lhes supriram de pesca e caça em abundância. Os sesmeiros encontraram náufragos europeus vivendo entre eles.
Ainda no século XVII, Frei Vicente do Salvador e André Martins da Palma informaram que os goitacás já estavam em processo de desintegração cultural e de extinção. Salvador, não obstante alertar desconhecer alguém que tivesse mantido contato com os goitacás e retornado com vida, fala de uma “cruel doença de bexigas, que os obrigou a nos irem buscar e ser nossos amigos...”. Palma, numa representação enviada ao rei de Portugal, deu notícia de que dominou o gentio e o submeteu como vassalo de Sua Majestade.
Na segunda metade do século XVIII, a imagem do goitacá começou a mudar. Manoel Martins do Couto Reis, em seu minucioso relatório de 1785, lançou um olhar marcado pela Ilustração aos remanescentes indígenas. Coube ao bispo José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, nascido em Guarus, iniciar outro desenho para o goitacá. A seu juízo, a humanidade é a mesma em todo tempo e lugar. O bispo propôs que os índios fossem integrados à civilização europeia por meio das atividades em que eram exímios: o corte e o falquejo de madeiras e a pesca.
Num longo e minucioso trabalho, Joaquim Norberto de Souza Silva atribui o fracasso dos aldeamentos indígenas na Província do Rio de Janeiro aos maus religiosos. Augusto de Carvalho foi complacente com os índios em sua revisão da história de Campos. Nenhum deles, porém, superou o positivista e anticlerical Julio Feydit. Empenhou ele em demonstrar que o goitacá apenas defendia seu território dos invasores europeus. Refutou as acusações de que os goitacás eram cruéis, ladrões, alcoólatras e sem religião. Ele tinha por base o humanismo e as impressões deixadas por viajantes europeus do século XIX.
O século XX tem em Alberto Ribeiro Lamego um grande criador de mitos. Em 1930, ele escreveu um opúsculo em que a luta contra as águas, as florestas, os animais e os índios fez a grandeza do campista. Em “O homem e o brejo”, Lamego sustentou a tese de que a planície, entrecortada de lagoas, levou o goitacá a um desenvolvimento diferenciado dos outros povos indígenas brasileiros. Retomando Simão de Vasconcelos, ele exclama: “A própria originalidade das suas casas plantadas sobre um só esteio deve ter nascido do refúgio arbóreo nas enchentes bruscas, que afogavam a planície. A árvore com seus galhos acolhedores, salvando-lhes consecutivamente a vida em repetidas cheias, teria feito germinar a ideia de cabanas sustentadas por um tronco, e a arte de construí-las evolveria com o tempo. Daí a transportá-las para o meio das lagoas, com alimento em volta e ao abrigo dos contrários, era um passo a dar: “Eis a primeira função social do brejo em Campos. Reagindo sobre o índio, compele-o a melhorar-se. Dando-lhe com as inundações a ideia do pouso sobre esteios, leva-o à construção de aldeias lacustres. E estas lhe desenvolvem faculdades construtivas, um maior senso de poderio e segurança, e com a repressão parcial do nomadismo, o primeiro passo para a fixação à terra, porque a casa já não é tão fácil de fazer. E o isolamento em pequenas cabanas solidifica a estabilidade de família e restringe a poligamia.

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