Geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE, William Passos
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Como você tem acompanhado na nossa cobertura, Lula tem na desaprovação popular ao seu governo um dos maiores obstáculos à sua reeleição. A pesquisa MDA divulgada na última terça-feira (14), considerando os principais institutos do país e aqueles em quem podemos confiar, foi a única a projetar Lula numericamente à frente de Flávio Bolsonaro num, até aqui, provável segundo turno. Mesmo nessa pesquisa, porém, o atual Governo Federal foi desaprovado por 50% dos brasileiros, contra 45% daqueles que o aprovam. São 3 pontos a menos que os 48% que aprovavam o terceiro mandato de Lula em novembro de 2025, o que revela tendência de queda na pesquisa do instituto que mais se aproximou das urnas de outubro de 2022 e que, exatamente por isso, merece a nossa atenção.
Já na Quaest, outra pesquisa que merece a nossa atenção pela sua elevada credibilidade, o Lula 3 é desaprovado por 52% dos brasileiros, agora em abril de 2026, o que perfaz 2 pontos a mais que os 50% de novembro de 2025. Na direção oposta, só 43% aprovam o atual Governo Federal, 4 pontos a menos que os 47% que o desaprovavam cinco meses atrás, o que também revela tendência de queda. Diferentemente da MDA, na Quaest, Lula já aparece numericamente atrás de Flávio, embora ainda dentro do empate técnico da margem de erro, nas projeções de segundo turno. Datafolha, Ideia, Paraná e AtlasIntel, em seus levantamentos mais recentes, também registraram liderança numérica de Flávio. No entanto, vamos aprofundar os resultados da Quaest.
CEO do Instituto, o cientista político Felipe Nunes propõe uma avaliação da disputa presidencial a partir de um cálculo que pode ser chamado de “a matemática da reeleição”. Esse cálculo traça uma linha de comparação entre os resultados da aprovação e da desaprovação no mês de abril do ano eleitoral de cada presidente que conseguiu completar o mandato no período na redemocratização. Assim, são comparados os saldos de aprovação/desaprovação dos governos Fernando Henrique (FH) 1 e 2, Lula 1 e 2, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro.
No mês 40 do mandato, FH 1 fez saldo positivo de 14 pontos e se reelegeu. FH 2, com saldo negativo de 11 pontos, não fez sucessor. Lula 1 fez saldo positivo de 14 pontos e foi reeleito. Lula 2 fez saldo positivo de 68 pontos, o grande recorde da redemocratização, e fez sucessora. Com 11 pontos positivos, Dilma 1 foi reeleita, enquanto Jair Bolsonaro, com 19 pontos negativos, foi derrotado nas urnas. Nessa comparação, “a matemática da reeleição” de Felipe Nunes chama a atenção para o fato de que todos os presidentes que, no mês 40 do mandato, tiveram saldo positivo de avaliação de governo, como foi o caso de FH 1, Lula 1 e 2 e Dilma 1, conseguiram sucesso, reelegendo-se (FH 1, Lula 1 e Dilma 1) ou fazendo sucessor (Lula 2). Do lado oposto, dos dois com saldo negativo (FH 2 e Bolsonaro), um não fez sucessor e o outro foi derrotado.
Nesse contexto, cabe considerar que, em abril do ano eleitoral de 2026, Lula performa saldo de 11 pontos negativos, o que remete à pergunta se, para o eleitorado brasileiro, Lula mereceria um eventual quarto mandato. Isso porque, com saldo negativo de 11 pontos, considerando a diferença da aprovação para a desaprovação — os mesmos de FH 2, cabe pontuar —, Lula, nesse momento, encontra-se numa situação mais parecida com a de FH 2, que não fez sucessor, e a de Bolsonaro, que não se reelegeu, do que com a situação que o próprio Lula enfrentou em seus dois mandatos anteriores. Para a biografia do petista, portanto, trata-se de uma situação inédita, ao mesmo tempo que aponta para o desgaste da exposição do seu nome como opção na urna no campo da esquerda, haja vista que Lula disputou todas as eleições para presidente da República desde 1989, com exceção de 2018, quando chegou a iniciar a campanha, mas teve o nome vetado pelo TSE e foi substituído por Fernando Haddad em 11 de setembro.
Ainda nesse contexto, no qual 59% do eleitorado, na Quaest, respondeu que Lula não merece mais 4 anos de mandato — os 59% de abril são os mesmos 59% de março —, é importante ponderar que o incumbente lidera a rejeição tanto neste instituto quanto no MDA, que operam com metodologias de consulta diferentes. A Quaest entrevista na rua, em pontos de grande circulação de pessoas, enquanto a MDA vai à casa das pessoas, a exemplo do modelo de pesquisas domiciliares utilizado pelo IBGE, inclusive na realização do Censo Demográfico, que faz a contagem de toda a população brasileira a cada 10 anos. Na Quaest, 55% dos eleitores entrevistados afirmaram que não votariam em Lula de jeito nenhum, percentual que, na MDA, foi aferido em 40,3%. Nesse sentido, olhar para a rejeição é particularmente importante não apenas por se tratar de um índice fundamental à definição do voto em um eventual segundo turno, mas também por, nesse abril de 2026, apresentar-se como um importante obstáculo à reeleição de Lula em outubro.
No caso da Quaest, que pergunta se Lula merece mais 4 anos de mandato, vale a pena considerar que entre o eleitorado classificado como “independente” pela pesquisa, isto é, aquele que é de “centro”, mais pragmático, não ideológico, nem lulista nem bolsonarista, nem de direita nem de esquerda, e que costuma se comportar como uma espécie de “pêndulo” em cenários polarizados, votando ou no candidato que lidera a intenção de voto, ou no segundo colocado, 79% afirmam que Lula não merece mais 4 anos de mandato. Este eleitorado corresponde exatamente aquela parcela mais decisiva que assegurou a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022 por pouco mais de 2 milhões de votos.
Parte da explicação da insatisfação destes eleitores localiza-se exatamente na economia e naquilo que a ciência política norte-americana chama de “affordability”, isto é, a capacidade real de uma pessoa arcar com o custo de vida. Este conceito acadêmico, na prática e no dia a dia da sociedade, ajuda a entender por que, mesmo com aumento de renda, muitos brasileiros sentem que o dinheiro ainda não é suficiente. Os números oficiais da economia, apurados pelo IBGE e pelo Ministério do Trabalho, mostram que a renda do brasileiro, de fato, aumentou no Lula 3, mas a percepção captada pelas entrevistas qualitativas dos institutos de pesquisa, em especial a Quaest, demonstram, objetiva e subjetivamente, que a renda do brasileiro aumentou menos que o custo de vida.
Em outras palavras, não se trata apenas da sensação de que o dinheiro não sobra no fim do mês, este “dinheiro mais curto” é real no dia a dia das famílias, com a Quaest apontando um nível de endividamento, agora em abril de 2026, no patamar de 71%, isto é, 71% dos brasileiros acumulam algum tipo de dívida, incluindo o cheque especial dos bancos, porque seus rendimentos não são capazes de pagar todas as suas despesas do mês. Isso, por sua vez, contrasta tanto com a promessa da “picanha e cervejinha” da campanha eleitoral de 2022 quanto da memória do Lula 2 dos filhos das famílias mais humildes ingressando pela primeira vez num curso superior, num contexto de expansão e interiorização das universidades federais, e ainda da criação dos institutos federais.
É, portanto, a falta de esperança num futuro melhor, ao contrário daquela que viveu a minha geração, por volta dos 40 anos, uma das maiores ameaças à continuidade do lulismo e, consequentemente, do quarto mandato de Lula.
* Geógrafo com especialização doutoral em estatística pelo Ence/IBGE