* Arthur Soffiati
- Atualizado em 27/06/2026 08:39
Arthur Soffiati
/
Divulgação
O método da complexidade, formulado por Edgar Morin em seus livros, notadamente nos seis volumes de “O método”, apresenta-se de difícil aplicação nas ciências da natureza e da sociedade. Em nossas formações, aprendemos facilidades e reducionismos. Aprendemos que o ser humano é sujeito do conhecimento, que existe um método científico, que esse método explica o objeto do conhecimento e que, uma vez conhecido o objeto, esse conhecimento é objetivo e esclarece tudo.
De certa forma, continuamos usando um método duro. Método apoiado no tripé sujeito – método – objeto. Esse método não questiona a subjetividade do sujeito, do próprio método de conhecimento e do objeto. Parece que o sujeito é neutro, que o método é sólido e que o objeto é imutável. Os três elementos do conhecimento estão, por assim dizer, fora da sociedade. O sujeito pode ser uma pessoa comum que, ao tirar seu jaleco e sair do laboratório, vai para sua casa, assiste a um jogo, conversa com o (a) parceiro (a), faz refeições, rola seu celular, conversa sobre trivialidades. Voltando ao laboratório, deixa seu cotidiano do lado de fora e torna a assumir a postura neutra do observador, usando o método correto e dirigindo-se a um objeto passivo.
Nada mais enganoso. Reina, no meio universitário, a vaidade, a arrogância, a competição, a mesquinharia dos currículos. Ao observar o ambiente em que vivi durante 40 anos, tenho a impressão de que as pesquisas visam mais a carreira do pesquisador que o conhecimento. Ao ler as publicações que saem da academia, noto claramente a compulsão de pontuar no currículo. Os artigos fazem recortes espaciais e temporais repletos de artificialidade e contam com muitos autores. Há todo um rito para redigir e publicar tais artigos, mais preocupados com as normas que com a reflexão e a tentativa de explicação.
A complexidade é reduzida ao ser encaixada à força no esquema introdução-material e métodos-metodologia-resultados-discussão-conclusão, respeitando sempre as normas de citação, seja com o sobrenome e data, seja apenas com o sobrenome. Trata-se de uma camisa de força que empobrece a pesquisa e a reflexão.
Pode-se falar em interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Soa bem. Mas, na prática, continua-se a praticar a monodisciplinaridade rasa. Os cientistas da natureza não se interessam pelos cientistas das sociedades e vice-versa. Eles podem até ser amigos e camaradas. Podem até se aliar em política acadêmica. Mas é só. Em termos de conhecimento, eles não conversam. Se um cientista social põe a ponta do pé no campo do cientista da natureza, é logo visto como um aventureiro. O contrário também é válido. E, de fato, existem aventureiros que entram em campos distintos do seu porque há projetos que rendem alguma vantagem curricular ou financeira.
Embora se critique a miséria dos mundos econômico e político, existe também a miséria do mundo acadêmico e intelectual: cientistas à cata de projetos financiados e artistas correndo atrás de premiações. De um reconhecimento que supera a importância da ciência e das humanidades.
O método proposto por Edgar Morin questiona o sujeito. Ele não é e não pode ser objetivo. O sujeito não deve nunca esquecer sua subjetividade, a capacidade de errar. Não pode mesmo ignorar o erro, pois é um erro subestimar o erro. Na outra ponta, o objeto. Ele não é estático e permanente. No nível micro, ele muda de aspecto o tempo todo e varia de acordo com o observador. No nível macro, ele esconde segredos. O objeto do conhecimento nunca é totalmente devassado. Dependendo do paradigma do conhecimento, ele pode apresentar aspectos variados. O conhecimento científico é provisório, como sustentava Karl Popper. Sem essa característica, não pode ser considerado científico.
E o método? Parece que, em grande parte, continua sendo válido, nos centros de pesquisa e nas instituições acadêmicas, o método duro. Parte-se do princípio de que o observador é neutro quando passa a interrogar o objeto e que este segundo espera ser totalmente despido e revelado na sua integralidade. O método frequentemente usado pressupõe um universo ordenado, sem qualquer princípio de desordem que, interagindo com a ordem, resulta na organização e que esta é recursiva e provisória, sempre provisória.
E assim prossegue a investigação científica cujo resultado será apresentado num paper publicado numa revista especializada e lançado no currículo Lattes. Quase sempre apresentado num evento científico e discutido por outros estudiosos que também lidam com o mesmo objeto. Enfim, achamos que temos tudo, mas temos resultados fragmentados, com raras exceções.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.