A autorreforma do PSB e o futuro da esquerda no Brasil
03/12/2019 13:25 - Atualizado em 03/12/2019 13:39
Emblema da autorreforma do Partido Socialista Brasileiro (PSB)
Emblema da autorreforma do Partido Socialista Brasileiro (PSB)
 Entre os dias 27 e 30 de novembro o Partido Socialista Brasileiro (PSB) realizou, no Rio de Janeiro, sua “Conferência Nacional da Autorreforma”. Fundado em 1947 a partir de um movimento (a Esquerda Democrática, criada em 1945) que buscava revisar a visão de mundo, as práticas e o programa da esquerda no Brasil, conciliando democracia, soberania nacional e justiça social, o partido de Miguel Arraes assume novamente protagonismo na tarefa necessária de uma autocrítica da esquerda. No passado, a autocrítica fez do PSB um ator central na organização política das classes populares do campo. Hoje, a autorreforma tem o desafio de reaproximar a esquerda de setores populares e médios, como os evangélicos e diferentes setores do empresariado.
A autorreforma inclui tanto a narrativa e o programa político como a própria reestruturação da organização partidária. No momento em que a esquerda perde sua conexão com os segmentos populares e médios da sociedade, como o empresariado médio e os empreendedores populares relegados ao trabalho precário, é urgente repensar e refazer as estruturas mentais e organizacionais dos partidos progressistas. É preciso reconstruir a narrativa, o programa e a estrutura partidária com o objetivo de reconquistar o apoio popular e o poder. O principal recurso para esta reconquista deve ser a força social, dentro e fora do partido, de um programa de transformação estrutural e incremental, ao mesmo tempo ousado e conectado com os anseios e os interesses reais imediatos das pessoas.
Ao assumir o desafio de uma autorreforma, o PSB aponta um rumo bastante promissor para a esquerda brasileira, que precisa de um programa para o país. Lideranças carismáticas são recurso fundamental para construir a força social e política dos programas partidários, mas a identificação partidária não pode ficar refém, como ocorre com o PT, da identificação com o líder carismático. O líder carismático deve ser meio, não um fim em si mesmo. Precisamos de muitos deles como meio para construir e implementar um programa de transformação social. Mas liderança sem programa não leva a bom resultado, pois ou frustra as expectativas criadas ou então as rebaixa e assim apequena o horizonte da política.
A iniciativa da autorreforma vem do reconhecimento de erros pelo próprio PSB, especialmente a falta de uma orientação ideológica e programática clara e lastreada na organização partidária, o que acaba abrindo terreno para condutas como o apoio ao golpe parlamentar de 2016. A fidelidade partidária deve abarcar a construção de uma ideia forte, palpável e atraente de como mudar as estruturas da política e da sociedade para realizar os valores progressistas da democracia, da justiça social e da liberdade. O programa de um partido não é apenas um livro, embora precise de muitos livros. O programa é a pregação de um rumo de mudanças tangíveis e conectadas com a visão de mundo, os valores e os interesses de quem o partido deseja representar. O desafio da esquerda é conseguir representar os anseios das classes populares e médias, pois só assim consegue maioria social e política para construir e implementar um programa de aprofundamento da democracia, da soberania nacional e da justiça social, contra os interesses da minoria rentista, sempre associados às diferentes formas de neocolonialismo e restrição inaceitável da autonomia sobre nosso próprio destino nacional. O programa deve beber dos anseios destas classes sociais, e buscar empatia carismática com seus modos, estilos e projetos de vida, seus problemas e soluções, mas deve combinar esta identificação com uma visão racional sobre os objetivos e os meios da agenda política necessária para não frustrar constantemente suas expectativas e demandas.
A combinação da agenda dos direitos (civis, políticos e sociais) com as agendas da soberania nacional e da elevação de nosso padrão de produção de riqueza é fundamental no programa de um partido progressista que deseja se reconectar de modo duradouro com as maiorias. Sem engrandecimento do país não é possível engrandecimento duradouro da mulher e do homem comum, como ficou demonstrado na agenda de direitos sem agenda de engrandecimento econômico que determinou o fracasso do empreendimento político do PT. Aprende-se não apenas com os próprios erros, mas também com os erros alheios. Como a autorreforma do PSB propõe modificar as próprias estruturas partidárias, a construção do programa precisa incluir diferentes segmentos do partido e da sociedade, em interlocução com lideranças dos segmentos sociais que a esquerda tem o desafio de reconquistar. Isto envolve a organização partidária a nível estadual e municipal. (assunto que vou abordar no próximo texto). Na década de 1960, Alberto Guerreiro Ramos, intelectual envolvido com os destinos do país e da esquerda, diagnosticou que a autorreforma era indispensável para os partidos políticos reconstruírem sua base social em um momento de “crise do poder” semelhante ao atual, enfatizando a necessidade de se envolver as bases partidárias e sociais no trabalho de construção programática e organizacional. O PSB busca revitalizar sua tradição de autocrítica e aponta um rumo promissor que deveria inspirar outros partidos, especialmente os partidos progressistas.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Roberto Dutra

    [email protected]