Matheus Berriel
14/07/2017 21:20 - Atualizado em 16/07/2017 14:08
Multicampeão nos tempos de Flamengo, como jogador e capitão, e com grandes trabalhos do lado de fora do campo, Paulo Henrique segue acumulando feitos notáveis no futebol. Na véspera da estreia do Goytacaz no segundo turno da Série B1 do Campeonato Estadual, o treinador alvianil abriu os portões do estádio Ary de Oliveira e Souza para uma entrevista à Folha da Manhã. Com um olho na atividade de dois toques do grupo e outro no entrevistador, falou com orgulho sobre a conquista mais recente: a da Taça Santos Dumont, de forma invicta. Entre sorrisos de emoção e satisfação, citou ainda os momentos difíceis após a morte do filho homônimo, em fevereiro; a volta por cima dele e da família; e os próximos passos do Goyta rumo ao sonhado acesso à primeira divisão do Rio, algo que não acontece há 25 anos. A estreia na Taça Corcovado será neste sábado (15), às 15h, contra o Carapebus, no Ferreirão, em Cardoso Moreira.
Transição de jogador para treinador
Eu me preparei durante toda a carreira de jogador. Comecei em 1958, com 14 para 15 anos, no Flamengo. E fiquei na Gávea durante quase 16 anos, até 1973. Nesse período, fui me aprimorando. Trabalhei com diversos treinadores dos melhores do Brasil, como Flávio Costa, Fleitas Solich, Zezé Moreira, Aymoré Moreira, Tim, Walter Miraglia, Armando Raganeschi... Enfim, diversos treinadores, de trabalhos diferentes. Fui acumulando isso para mim. Um dia, o Tim me disse que eu seria treinador, porque prestava atenção em tudo o que ele falava. No final, ele me perguntava e eu sabia. Fui aprimorando. E quando eu encerrei minha carreira, aconteceu.
Em 1975, recebi um convite do Campos Atlético Associação, o Roxinho. O presidente era o Alceu Teixeira. Batemos um papo, ele disse para eu ver o que podia fazer pelo Campos. Assim, começamos o trabalho. Trouxemos o Murilo, meu companheiro de dez anos no Flamengo, para me ajudar. Conseguimos fazer um time muito bom. Acho que foi a melhor época do Campos. Disputamos, inclusive, a final do Campista contra o Goytacaz, dentro do Aryzão. E aí começou a minha carreira... Logo em seguida fui para o Americano, depois vim para o Goytacaz. Voltei para o Americano, depois retornei ao Goytacaz. Eu fazia um trabalho lá e outro aqui. Fui seguindo minha carreira. Em 1982, recebi um convite para treinar a Seleção de Omã. Fui e fiquei quase 18 anos.
Retorno ao Goytacaz após quatro décadas
Foi uma coisa divina. Depois de 40 anos, eu já estava pensando em parar com o futebol. Mas o futebol está na minha veia. O Goytacaz me namorou por quase cinco anos. Eu vinha, conversava, depois eles escolhiam outro treinador. Eu aceitava isso, mas sempre tive a ideia de que um dia voltaria ao Goytacaz. E aconteceu esse ano. Recebi um convite, junto ao Flávio, da Trivella. Ele disse que só viria se eu também viesse. E resolvi aceitar o desafio. O clube estava passando sérios problemas financeiros, tanto que talvez nem disputasse o campeonato. Quando o presidente Dartagnan conversou comigo, disse que talvez não disputasse. Eu e o Flávio conversamos com ele e decidimos acreditar no trabalho.
Acolhimento da torcida após perda do filho
Os torcedores foram muito carinhosos comigo, todos eles. Sabiam que há duas semanas eu tinha perdido meu filho. O Paulo Henrique Filho teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) estupidamente. Mas, logo depois recebi o convite do Goytacaz. Penso que foi ele que abriu a porta do Goytacaz novamente para mim.
Homenagem
O título da Taça Santos Dumont foi especialmente para o meu filho, in memorian, mas também para a nossa torcida, que vem nos ajudando muito; e às pessoas que tiveram importância na minha vinda, como o doutor Edalmo. Sem ele, talvez eu não estaria aqui hoje.
Família vitoriosa
Depois do título do Goytacaz no último sábado (8), fiquei no Rio para ver o meu neto jogar no domingo (9). O Henrique, que faz parte da equipe sub-17 do Flamengo, estava sentindo muita falta do pai, chorando muito. Fiquei para dar um apoio. Graças a Deus, ele se deu bem. O Flamengo, que tinha perdido o primeiro jogo, venceu o Botafogo por 2 a 1 e depois foi campeão nos pênaltis, por 9 a 8. Quer dizer, foi mais difícil que o nosso título (risos).
Surpresa na campanha invicta
Apesar da confiança no trabalho, não dava para imaginar um título invicto. De jeito nenhum. Ainda mais que eu montei o time só com um mês e meio. Estava temeroso da performance da equipe de imediato. O bom é que consegui acertar as peças, que era o que estava me dando trabalho nos treinamentos. Eu acertei e o time engrenou. Ganhamos a primeira partida e embalamos.
Renascimento da paixão alvianil
Conseguimos resgatar a torcida do Goytacaz. Isso é muito bacana. A torcida é o 12º jogador do meu time. O apoio foi e é incondicional, de todos os torcedores.
Clássico decisivo
O jogo contra o Americano, na semifinal, teve uma maior importância, por ser o clássico da cidade. Tem uma rivalidade muito grande. Graças a Deus, dentro do campo, correu tudo bem. E fora, depois do jogo, também não houve grandes problemas. Isso foi muito bom. Durante a semana do clássico, eu vinha pedindo paz na torcida. Independente daquele que ganhasse, que o outro batesse palma. Foi o que aconteceu. Por isso e pela expectativa dos dois lados, considero que foi o jogo mais importante.
Fla-Flu dentro do Goyta-Cano
O Duílio (técnico do Americano) foi um grande zagueiro do Fluminense. Eu passei a minha vida quase toda no Flamengo, foram 16 anos. Fui capitão durante nove anos. É muito bom ver dois ex-jogadores como técnicos, um de cada lado, fazendo o máximo pelas suas equipes.
Manter o foco
Tenho passado bastante para os jogadores que ainda não ganhamos nada, estamos só começando. O segundo turno é ainda mais difícil que o primeiro, porque temos que somar o maior número possível de pontos. Vamos em busca disso, para poder jogar a semifinal do campeonato em nosso campo e com a vantagem do empate. Vamos com força máxima. Estamos tratando dos jogadores contundidos para termos a equipe completa mais pra frente.
Regulamento ruim
Depois de toda a Série B1, se ainda houver uma seletiva para quem subir, eu acho horrível. Quem disputa a Série B1 são as 21 equipes que estão jogando. Depois disso tudo, os dois que se classificarem ainda vão ter que jogar um turno com dois times da Série A? É uma covardia isso. O que fizeram com o Campos, no ano passado, foi uma covardia. Um absurdo.
Vaga garantida na semifinal
Ainda não estamos pensando lá. Falta muita coisa. Primeiro, vamos focar no decorrer do campeonato. Só depois na semifinal.
Confiança no acesso
Para mim, o Goytacaz vai subir. Nunca menti. Inclusive, eu tinha dado uma declaração há três ou quatro anos que, se o Goytacaz quisesse subir, era só contratar o Paulo Henrique. Fiz uma brincadeira que colou. Quando vim, teve torcedor que me cobrou. Eu falei que lembro da promessa e que estou aqui. Vamos subir.
Recado para a torcida
Quero deixar um abraço a todos os torcedores, à nossa diretoria, que está sendo um baluarte à frente do Goytacaz. São muitos problemas, trabalhar sem dinheiro é difícil, ainda mais no futebol. Queremos que a nossa torcida compareça. Sempre. Vamos incentivar, porque ainda não acabou. Temos muita coisa pela frente.