Mais uma guerra
Uma conferida básica na timeline do Facebook é o suficiente para observar o nível a que chegaram os debates de militantes pró-Neco e pró-Carla, a cinco meses da eleição, mais uma vez plebiscitária, que vai definir, pelo voto popular, quem vai governar São João da Barra a partir de 2017. Protegidos pelas redes sociais, que encorajam - ou, na outra ponta, acovardam -, as figuras, as mesmas de sempre, parte delas vestindo outra camisa, destilam veneno, ódio e desrespeito sob a proteção dos seus teclados e monitores. A cidade já presenciou discussões ao vivo, que não raro chegaram às vias de fato - como ocorreu recentemente. Mas nas redes sociais o clima é mais pesado.
Neste cenário de guerra virtual, são raros os depoimentos de gente preocupada com os destinos do município, que vive uma grave crise financeira e política, gerando grande impopularidade ao prefeito, que em tese deveria ser o franco favorito na disputa, por ser o dono da caneta de sua reeleição. Mas não está sendo assim. E nem é isso que vale na cabeça de quem só pensa nas urnas. Vale o jogo do estou-do-lado-de-quem-vai-ganhar. O importante é não "perder" o voto, para ter o gostinho infantil de, terminada a apuração dos votos, zoar idiotamente quem teve seu candidato derrotado.
É claro que o acirramento do debate nacional, como há muito não se via, com seus batedores de panelas e o surgimento de um neo-conservadorismo assustador no país, ajuda a dissimular, por cá, a rivalidade. Mas o tom raivoso em tempos de eleições não é uma novidade em São João da Barra. E nesta troca exagerada de farpas, quase ninguém anda muito interessado em analisar as gestões de Carla Machado ou a gestão de Neco, ao menos sem sair do lugar comum de é competente ou incompetente. Uma generalização para justificar a briga.
E o que podemos (podemos sim, porque numa democracia a responsabilidade é de todos) fazer para criar alternativas que aumentem a arrecadação? Quando construiremos o tão necessário abrigo para cães e gatos de rua? Como melhorar a saúde, a educação, implantar 100% de saneamento básico, buscar parcerias público-privadas para alavancar o turismo? Tá, a arrecadação caiu. Mas está longe de ser pequena. São João da Barra é um ovo. Não é o que dizemos?
Mas por aqui a política eleitoral sempre superou em muito a política pública. Então pouco importam os projetos, as ideias, o histórico de vida pública dos dois pré-candidatos. Importa é o resultado das urnas. E enquanto os protagonistas se protegem cercados de assessores e puxa-sacos, se escondem quando lhes é conveniente, raramente os vemos andando a pé pelas ruas, somos nós que nos encontramos na padaria, no mercadinho, na fila da lotérica, nas portas das escolas a buscar os filhos.
E somos nós que vamos nos indispor com os vizinhos, os conterrâneos que encontramos por aí quase todos os dias? Vamos deixar de dar bom dia? Trocar de calçada para não cruzar com o "inimigo"? Quase nada contra Neco ou Carla, mas definitivamente eles não merecem que nos digladiemos por eles. Estamos fazendo errado. Temos é que lutar pelo município. E aí, automaticamente, o debate, que é tão salutar quando respeitoso, vai valer a pena.