O escudo das redes sociais tem sido terreno fértil para esculachos, verdades desnecessárias, sinceridades excessivas e um monte de opiniões sobre tudo e sobre todos, das risíveis às agressivas. Sem a proteção da tela do computador, coisas digitadas jamais seriam ditas cara a cara. Neste universo do exagero nem tudo precisava ser jogado do jeito que é no ventilador. Nas relações sociais “ao vivo” as pessoas ainda prezam pela polidez e até por certa falsidade elegante. Para quem preferir, pode chamar de omissão. Mas o universo do Facebook anda recheado de denúncias, cobranças e recados diretos. O principal alvo, é claro, são os políticos. E nesta categoria ninguém sofre tanto quanto o prefeito Neco, que vive seu inferno astral na gestão e na comunicação com os cidadãos. O governo de São João da Barra vai muito mal, é fato. E o desgaste de Neco é prato cheio para os desafetos de plantão. Quem administra sua página no Facebook não deve estar dormindo. Mas é impossível evitar a enxurrada de chacotas.
Semana passada, uma conhecida defensora dos animais, Mônica Paes, resolveu pegar no pé do prefeito sem dar trégua. Cansada de pedir, e não só a este governo, um abrigo público capaz de cuidar do grande número de cães e gatos que vivem nas ruas, ela decidiu propor a Neco, via Facebook, que adotasse os filhotes de uma cadela que deu cria em plena rua principal da cidade. Não teve resposta. O abrigo que mantém com a parceira de lida Silvana Golfinho, em Atafona, já conta com 72 animais e, mesmo com as doações da comunidade, não tem mais como alimentar todos eles. Sem resposta, ela encontrou outro filhote em Atafona, coincidentemente próximo a um local onde o prefeito fazia distribuição de cestas básicas. Primeiro chegou Silvana. Ela ofereceu o filhote a Neco, mas este não aceitou. Mônica, que não foge de uma briga, chegou em seguida e ficou esperando que o prefeito saísse para cobrar dele que ajudasse a cuidar do “bebê”. “Conto com sua casa”, havia postado dias antes. Também não teve sucesso.

Desde então Mônica resolveu ser a sombra do prefeito. Na quinta-feira partiu para Grussaí e foi para a porta da igreja de Santo Amaro, onde haveria missa, à espera do prefeito. Ele não foi. “Não importa. Não vou desistir. Tentei diversas vezes o diálogo. Agora o prefeito vai ver o que é pressão”, promete. “Ou ele arruma este abrigo, porque o município tem veterinários à disposição, ou ele adota alguns cães e leva para casa. Eu e Silvana não damos mais conta. Tem sido difícil.
Esta não foi a primeira saia justa que o prefeito enfrentou nos últimos dias nas redes sociais. Recentemente ele teve a infeliz ideia de postar fotos tapando buracos em uma rua de Atafona. Bastou para a chacota se espalhar pela timeline dos sanjoanenses. Alguns comentários passaram do tom, mas não foram apagados. Uma fonte do governo diz que a decisão é deixar lá por dois motivos: o primeiro é porque a intenção é processar os debochados; a segunda é para queimar o filme da oposição, a quem o prefeito e seus mais chegados assessores atribuem as críticas. Um internauta mais criativo, que assina como Zé Zeca Atafona, chegou a bolar uma arte sugerindo uma série de buracos que poderiam ser tapados pelo prefeito.

Enquanto a brincadeira séria rende, Neco vai tentando administrar e dar fim à maré de má sorte. Anda publicando seguidas portarias trocando nomes do estafe e investiu pesado nos shows do verão para tentar minimizar o desgaste da gestão, principalmente na área de saúde. Por enquanto sem resultado positivo para a sua imagem, ainda mais fragilizada pela recente queda-de-braço com a Câmara de Vereadores. Há quem considere inevitável um racha. E em curto prazo.
O filhotinho que Silvana e Mônica levaram para a frente da secretaria municipal de Pesca, em Atafona, na tentativa frustrada de convencer o prefeito e levá-lo para casa, já foi adotado por uma família em Campos. Por enquanto, só ele teve final feliz.