O dedo na ferida, finalmente
O tema da vez em São João da Barra é o choque de ordem capitaneado pela secretaria municipal de Transportes no trânsito da cidade. Motoristas, motociclistas, ciclistas e mesmo pedestres, todos estão no foco da tentativa de fazer o sanjoanense e o veranista – sim, aquele que espera chegar à praia na temporada de férias para deixar o filho menor pegar no volante – entenderem que o município não é território à parte do país e que as leis nacionais de trânsito valem para todos. Tem o código recente e suas novidades, mas há questões básicas, como habilitação, cinto de segurança, estacionamento em calçada e capacete para quem pilota motos que são regras existentes quase desde a.C. Nesses casos, chega a ser ridícula, com todo o respeito, a teoria de quem defende educação primeiro, punição (multa e o escambau) depois. Caramba, não sabia antes?
Terça-feira teve até audiência pública sobre o tema na Câmara de Vereadores, com as presenças dos dirigentes da secretaria de Transportes e Guarda Civil Municipal, Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal. Mesmos temas, mesmas constatações e o dedo na ferida: o problema está na cultura da cidade. Isso semanas depois que os guardas começaram a apertar cerco e usando um talão para começar a aplicar supostas advertências e/ou multas. Nunca houve tantas abordagens neste sentido e surgem os questionamentos óbvios. O primeiro deles é que o poder público precisa fazer a lição de casa, implantando sinalização horizontal e vertical, demarcando os espaços de estacionamento proibido. Correto. Assim reduzem-se significativamente as demandas de quem está certo ou errado ou enganado. Sem contar que as ruas da cidade ficam melhores esteticamente e ela ganha um ar de organização, o que causa um efeito positivo nas pessoas para se convencerem a cumprir as regras de boa convivência no trânsito, que só fazem com que todos ganhem. Segundo, vem o pacote: poucos locais de estacionamento, ele pode eu não posso, as calçadas são estreitas e mais meia dúzia de mais do mesmo. Tudo válido também.
Mas há cidadãos que precisam parar de reclamar no que não têm razão. Quarta-feira, dia seguinte à audiência pública na Câmara, duas horas de papo com amigos na movimentada esquina entre as ruas Joaquim Thomaz e dos Passos, do fim da tarde ao início da noite, não menos que uma dúzia de carros com o som nas alturas passa por ali, pelo menos uma dezena de rapazes corre risco e provoca risco com seus skates em plena via, de cada dezena de motos que passam – e haja dezenas – dois motociclistas e um garupeiro usam capacete, quatro são menores de idade, duas motos transportam crianças pequenas, ciclistas “estacionam” no meio da rua para conversar com outros ciclistas ou pedestres. Quem buzinar ouve um imbecil “passa por cima”. Calçadas são para motos, bicicletas, carros, mostruários de lojas e porta bancos e cadeiras para quem gosta de olhar o movimento, olha que lindo. Menos para o pedestre andar. E daí este vai para a rua disputar espaço com motoristas, motociclistas, ciclistas, skatistas... É claro que há um problema. E não é de hoje.
O fato é que os guardas estão nas ruas orientando, perguntando, usando o tal questionado talão, ouvindo desaforos, dizendo desaforos, errando, acertando.
De tudo isso o mais importante é que finalmente o assunto está na boca do povo. Isso tem que dar em algo positivo. O trânsito em São João da Barra é desorganizado, o transporte público precário e a tal “cultura local”, neste caso, além de perigosa, mancha a imagem da cidade que quer tanto crescer. É hora de enfrentar, debater, levar aos bancos escolares para que as crianças façam o trânsito organizado do futuro e hoje possam influenciar em casa com os pais. Mas de cara sem conversinha de educação no trânsito quando o assunto é lei para ser cumprida. Neste caso, havendo demarcação clara, é multa, reboque e o que mais for permitido. De resto, mais uma vez, como em outras questões, é entender que a cabeça precisa crescer junto com a cidade. Caso contrário, não há desenvolvimento econômico, social e cultural que se sustente. Isso só acontece com responsabilidade, senso de cidadania e conhecimento das leis. O trânsito é emblemático para tal discussão. Quem não pensa coletivamente não consegue dividir espaços públicos sem se achar com mais direitos que o outro.
Há falhas do poder público municipal, que ainda podem ser corrigidas em curto espaço de tempo. Até que pelo visto sobrou um royaltiezinho pra comprar tinta de asfalto e placa, porque rola licitação nesta sexta. De qualquer forma, valeu a pena, secretaria de Transportes. Tocou na ferida. Quem cumpre as leis de trânsito agradece. Quem não cumpre, chia. Azar.