Crônica de uma reação anunciada
Camarão errou. Ponto. O mundo que pede paz não anda tolerando mais nem palmadas nas crianças. Atitudes agressivas de homens públicos, então, são inadmissíveis. Mas nem sempre injustificáveis. O episódio da sessão de ontem, que diante de um olhar mais cuidadoso soa mais patético que trágico, vinha se desenhando já há um bom tempo. O ringue não foi montado ontem. Foi construído a cada excesso, a cada ofensa, a cada ironia.
Ainda vai nascer o político que seja avesso aos holofotes. E como em política é permitido morrer e ressuscitar várias vezes, não é raro que esses estranhos caras do poder prefiram a crítica ao ostracismo. É por isso que parece razoável atribuir à paixão das militâncias e à polêmica amplificada no rádio, ambas sempre por demais exageradas, certa mea-culpa pelo fato de o espaço de debates democráticos – que pode e deve ser recheado de divergências – ter sido transformado em um palco bizarro de disputas pelo grito. Por mais maluco que isso possa parecer, a verdade é que as sessões da Câmara, em uma cidade que oferece poucas opções de entretenimento, viraram o happy hour da galera nas noites de segunda e quinta.
É claro que ninguém é responsável por Camarão ter se exaltado além da conta, muito menos por Alexandre ter pulado e despulado à procura de um abrigo que ofereça eco ao seu sonho de ser prefeito. Mas o fato é que a cena que se repetiu na noite fria de ontem (polícia, cordão de isolamento, incitações de toda ordem) combina cada vez menos com São João da Barra. O ringue está também do lado de fora do legislativo e talvez todos morram debatendo sem nunca descobrir quem começou a dividir o povo ao meio, quem fomentou a raiva, o destempero e o desrespeito.
Talvez a coisa agora tenha mesmo degringolado de vez. E isso pode ser muito ruim, mas pode render também uma bela limonada se servir para que as pessoas parem de tratar suas lideranças políticas como celebridades e passem a considerá-las o que são: servidores públicos remunerados pelo povo para tomar conta do dinheiro do povo. Mais consciência, menos holofotes, mais atenção ao que deve ser focado.
Não há heróis nem vilões. E nem personagens a serem exaltados ou execrados. O teatro de horrores é a vida real. Que anda, por sinal, bem complicada na pobre cidade rica de Narcisa Amália.
Ah, o soco de Camarão em Alexandre. Quer saber? Talvez tenha sido o soco no estômago que todos nós precisávamos. E se não funcionar assim, ainda resta a velha e boa máxima, perfeitamente aplicável ao caso em questão: toda ação tem uma reação.
Que venha o próximo round. Sempre combativo, mas um pouco mais politizado, por favor.