Somos politizados?
Quando a gente é nativo de um lugar, e daqueles nativos que têm mesmo, assumidamente, o umbigo enterrado ali, rola um comportamento meio que de pai para filho ou de irmão para irmão: eu posso até criticar quando achar que devo, mas não vem de fora fazer isso não, que eu me armo logo para defender.
Minha relação com São João da Barra é mais ou menos assim. Acho que de mais um monte de nativos também. O que amo na minha cidade é a beleza natural, o charme do espaço urbano, a história, o clima gostoso das ruas, o bate-papo na esquina e uma espécie de aura boa, uma coisa subjetiva, que alimenta toda essa nossa paixão pela terra de Narcisa Amália. O que não gosto: desordem urbana, fofoca, bairrismo exagerado (que às vezes beira a xenofobia) e radicalismo político.
Não é uma generalização, mas apenas uma visão — que não pretende ser única e inquestionável, claro — das características que mais saltam, na minha opinião, ao olhar de quem é de dentro, digamos assim.
Pois bem, voltando ao assunto que abriu esta reflexão, há poucos dias fugi à regra e refutei um elogio que ouvi de alguém “de fora” ao comportamento político do sanjoanense. Um amigo campista chamou meu povo de politizado. E eu, olha que coisa feia, que traição, discordei.
O fato é que mais uma vez o clima político no município anda preocupante. Não é novidade para ninguém que São João da Barra respira política o tempo todo, todos os dias, seja ou não período eleitoral. Mas há momentos em que a coisa fica mais séria, mais tensa, como agora.
O ano de 2010, especialmente o finzinho dele, já foi bem conturbado, por causa dos embates seguidos entre a Câmara, então de maioria oposicionista, e o governo. Clima que pesou ainda mais nos primeiros meses de 2011, com a polêmica do verão. O povo foi às ruas defender seus pontos de vista e até aí tudo bem, mas infelizmente não ficou só nisso. Houve excessos que culminaram em denuncismos, insultos, provocações, ridicularizações, retaliações e até comportamentos preconceituosos. Um horror.
Agora que mudou o cenário da correlação de forças entre legislativo e executivo, com a decisão do vereador Alexandre Rosa (PPS) em deixar o G-5 — seja para se tornar independente ou voltar a caminhar com a antiga aliada Carla Machado (PMDB) —, o discurso de cada personagem muda antagonicamente, mas os excessos permanecem.
E mais uma vez São João da Barra perde a oportunidade de buscar o amadurecimento democrático ao substituir o debate das ideias pelo julgamento das pessoas. Ora, cada um sabe de si e cada um haverá de dar conta das suas decisões, seja pela repercussão popular ou pela justiça, se for desonesto com o dinheiro público. O que não podemos é fazer do exercício da cidadania e da vigilância necessária sobre os atos dos homens públicos desculpa para perseguir e afrontar.
Não estou defendendo Alexandre Rosa. Ao contrário, acho uma pena que tenha deixado a bancada. Lamentável mesmo. Não por qualquer motivação partidária, mas porque a oposição é necessária para equilibrar o jogo, tornar público o que acontece na relação entre as figuras do poder, mesmo que essa oposição não seja o sonho perfeito da moralidade pública. Quando os vereadores negam suplementação ou emendam um orçamento estão agindo legitimamente, de acordo com suas prerrogativas. As pessoas podem concordar ou discordar, mas não fomentar um pensamento coletivo de que tal atitude seja ilegítima, porque não é. Por outro lado, uma Câmara amável com a Prefeitura causa prejuízos severos ao mais importante em relação ao manuseio do dinheiro público, que é a transparência.
Se Alexandre errou ou acertou é da opinião de cada um, mas não por influência de posicionamentos partidários ou versões das “lideranças” e sim pelo que é e pelo que não é considerado ético na política. Se houve um acordão eleitoral e/ou financeiro na decisão isso virá à tona e ele terá de arcar com o desgaste, com as conseqüências. Quem, se for o caso, o tenha cooptado, também. Afinal, ninguém acha barganha uma coisa decente. Mas é preciso ter cuidado com pré-julgamentos e, sobretudo, respeitar as pessoas.
O que acontece é que em São João da Barra, salvo raras exceções, contra é contra mesmo que não seja justo ser e aliado é aliado mesmo que o político em questão erre feio. É por causa desse radicalismo que muita gente anda pagando mico. Quem xingava Alexandre agora chama de bonito e quem elogiova agora o considera a pior criatura do planeta.
Isso não é uma guerra de mocinhos contra bandidos. Não tem santo nessa história. Tampouco há verdade absoluta em política. Há bom senso. Eu posso não ser partidária do governo e mesmo assim enxergar coisas boas na gestão. Posso admirar a conduta da oposição e mesmo assim discordar de muitas das suas posturas. O que a gente faz é colocar tudo isso na balança, pesar prós e contras e procurar fazer a melhor escolha. Aliás, aproveitando a carona, acho que se o governo sanjoanense fosse tão bom com o arroz com feijão quanto é com o caviar o povo estaria melhor servido.
A questão é que o radicalismo cega e, como consequência, a sociedade — tão politizada como disse meu amigo campista — erra o foco e esquece de cobrar políticas públicas eficientes, independente do posicionamento político que externe. Ser politizado é estar em um patamar de consciência republicana que faça o povo compreender que é ele que banca não só os salários dessa turma toda, como tudo o que é executado de serviço público. Ser politizado não é contar ganhos e perdas eleitorais, pensando no próximo embate das urnas. Esse jogo político pequeno e egoísta é deles. A nós cabe cobrar, fiscalizar, questionar. Ou seja, escolher pelo voto sem dar cheque em branco. O resto é politicagem.