Barbárie e preconceito
julia 08/04/2011 12:50
Não se fala em outra coisa nas rodas de conversa. Até aí normal. De fato o povo brasileiro está em choque diante da tragédia de formato inédito cá nas terras tupiniquins. Nos Estados Unidos, sabe-se lá porque, essa história de atirador entrar nas escolas e sair matando todo mundo, até acertar na própria cabeça, acontece com certa frequência. Mas aqui, nunca antes. Então, a comoção é mais que compreensível e não dá mesmo para ficar indiferente ao presenciar tantas vidas jovens encerradas desta maneira absurda, ilógica, inexplicável. Mas o que preocupa no teor das conversas — e longe de mim querer impor uma verdade única, ou encerrar discussão tão complexa — é o sentimento que mais uma vez aflora na sociedade brasileira, o discurso que vem das pessoas de bem, em um comportamento que Lúcia Hippólito já chamou de regressão à barbárie. Invariavelmente, o que vejo é o infeliz rapaz ser classificado de bandido, o que não é o caso. Quem o conhecia já disse que era um sujeito introspectivo, um tanto estranho e agora foi lá e surtou. Isso não é bandidagem. É doença mental. E mesmo que fosse um bandido, o que rola é o mesmo papo de tortura, morte violenta, justiça com as próprias mãos. É confortante saber que no Brasil o tema pena de morte é cláusula pétrea da Constituição e nunca teremos a possibilidade de um plebiscito. As leis brandas, mais a corrupção no judiciário e no sistema prisional, estão fazendo um estrago no pensamento coletivo e levando a reações como as que assistimos em mais este episódio. A questão é: se as leis estão ruins, a culpa é nossa, porque não sabemos escolher nem cobrar dos nossos legisladores. Se o sistema prisional é essa coisa desorganizada e por vezes desonesta, também é porque não sabemos escolher nem cobrar dos nossos governantes. Então vamos tirar o sofá da sala? Não temos competência para punir nem tentar ressocializar criminosos e então vamos eliminá-los? Desde ontem já ouvi gente dizer, e mais de uma vez, que o policial na verdade matou o invasor da escola. Não assumiu porque no Brasil as leis protegem o bandido e ele ainda seria preso por isso e blá-blá-blá. Pouco provável. Na correria, tudo indica que o policial acertou na perna do cara mesmo, que, acuado, cumprida parte da “missão”, deu fim à própria vida, assegurando, na sua cabeça doente, a fama pós-morte. Além do mais, ele deixou carta de despedida. Avisou que iria cometer suicídio. Não vamos confundir as coisas: o policial pode matar em defesa própria ou de outros inocentes. O que não pode, mas a sociedade tem defendido cada vez mais, é imobilizar o bandido e matá-lo. Isso é assassinato. E isso não vale para ninguém, seja mocinho, bandido ou psicopata. Sem contar que, se truculência policial fosse eficaz, o Brasil seria o paraíso. Por fim, aquele velho papo irritante de falta de deus no coração. Ora, o cara deixou uma carta pedindo perdão a deus. Pode ter sido de forma confusa, reflexo da sua cabeça confusa, mas revelou a crença em uma entidade espiritual. É possível pedir perdão a alguém em cuja existência não se crê? Quem falou que valores morais e éticos, conduta social, senso de justiça têm a ver com espiritualidade? Até quando essa falta de respeito no estado laico à opção pela não-religião? Dizer que quem comete crimes bárbaros não tem deus é afirmar que ateus vão sair por aí atirando em todo mundo. E essa lógica é o maior equívoco cometido pelos preconceituosos. Quer ver o estrago que um religioso fanático é capaz de fazer com a reputação dos não-crentes? O vídeo abaixo, que exala ódio e intolerância, já foi divulgado na tv. [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=vVu23qCSr-o&feature=related[/youtube]

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