Tem gente que exagera
Um pastor de uma cidadezinha no norte do Mato Grosso do Sul está liderando uma cruzada jurídica para retirar a inscrição “Ave Maria” da bandeira do município, que tem 70 anos de existência. Adilson Machado de Souza, coordenador da Igreja Evangélica de Sidrolândia, alega que hastear a bandeira nos templos religiosos gera constrangimento, por se tratar de uma alusão à crença católica. Ele andou colhendo assinaturas e promete levar o caso ao Supremo.
Volta e meia surge uma chatice desse tipo. Não sou nem um pouco fã da igreja católica, aliás, de nenhuma igreja, mas reconheço que tem muita gente confundindo laicidade do Estado com intolerância.
Concordo que a condição de Estado laico não é muito respeitada neste país. Acho que inscrições religiosas devem ser retiradas das paredes de repartições públicas e que o dinheiro público não deve bancar festas religiosas. Mas uma coisa são as questões do cotidiano, que não envolvem mais do que mudança de hábitos; outra coisa é querer passar por cima da história.
Ora, quando a bandeira da cidade foi criada o Brasil já era um país laico, mas ainda quase totalmente católico. Tal contexto foi refletido em símbolos, fundações de cidades, arquitetura e tudo o mais. Hoje o Brasil vive um novo momento. Cresce bastante o número de evangélicos — fenômeno que ocorre em toda a América Latina —, cai o preconceito com as religiões africanas e os ateus estão saindo do armário. Toda essa pluralidade é um prato cheio para polêmicas.
Mas é preciso considerar e respeitar as bases políticas e religiosas que construíram a história do país. Isso vai além das nossas crenças ou não-crenças. É como um livro que não pode ser reescrito. Vamos então demolir o Cristo Redentor? E os feriados católicos, como ficam? Já pensou ter que mudar o nome de um monte de cidades, inclusive da minha São João da Barra?
Menos, pastor. Muito menos.