Qual é o valor do verão sanjoanense?
Radicalismos e motivações políticas à parte, o fato é que todo este imbróglio envolvendo o G-5, a Prefeitura e a tão cantada programação de verão pode provocar algumas importantes reflexões acerca do tamanho da participação do dinheiro público no calendário de eventos — e do próprio tamanho do calendário.
Em uma cidade como São João da Barra, onde a política partidária costuma mobilizar muito mais que a política pública, não é de se estranhar que a discussão fique restrita à diferença entre os valores pedidos e os autorizados, se estão na cota da suplementação ou do orçamento do ano seguinte, se a pressão é de A ou B. Tudo isso regado a muito barulho, palavras de ordem e todo o alvoroço típico dos grandes embates políticos da cidade.
Mas a situação precisa ser vista com um pouco mais de complexidade. Não é de hoje que acontece esse processo com o verão sanjoanense. A grande atração não está mais nas praias, na tranqüilidade, na foz do Paraíba, nos prédios históricos, na hospitalidade dos moradores. Os shows não são mais o complemento desse cenário, são o próprio verão.
É a temporada dos eventos e todos integralmente bancados pelos cofres da mãe Prefeitura. O que deveria ser contrapartida para trazer uma ou outra atração — investimento válido e mesmo necessário — se tornou um compromisso de patrocinar cada vez mais opções de entretenimento. Tantas e em tal dimensão que chegamos à lamentável situação como a de agora: impasse na liberação das verbas, contas e mais contas e o verão simplesmente não acontece. Como se nos tivessem tirado a praia, o sol e o vento nordeste.
Houve uma época em que essas eram as principais atrações da temporada. Não tinha trio elétrico, banda de graça nem abadá. E muitos acham que assim era até melhor. Mas tudo bem que as coisas modificam com o tempo e as gerações não se divertem da mesma forma. Portanto, nada contra os shows, mas contra o excesso deles e o nenhum esforço — neste e em governos anteriores, que fique claro — de atrair a iniciativa privada para assumir pelo menos parte desta conta, algo perfeitamente viável porque somos uma boa vitrine.
Assim, o dinheiro público poderia ser destinado de fato para as políticas públicas. Enquanto isso não acontece, o financiamento do lazer em São João da Barra continua este monstro estatal que não para de crescer.
É claro que uma ruptura assim, de forma brusca, gera problemas. Não há dúvidas que reduz oportunidades de geração de renda e causa prejuízos pela interrupção de projetos sem aviso prévio, sem que haja planejamento.
A arrecadação do município cresceu de forma impressionante e as cifras que bancam os dois meses de festa são igualmente extraordinárias. A indústria do verão vem sendo calçada ao longo dos últimos anos totalmente vinculada aos recursos públicos e esse não é um processo que se reverte de uma hora para outra. Mas talvez seja o momento certo de vislumbrar um novo formato, pelo menos de começar a pensar no assunto.
O mais é briga política, tema que anda um bocado chato. Às vezes soa como dois grupos que se digladiam de olho em 2012, feito dois carecas brigando por um pente. E desta vez, ao que parece, entre mortos e feridos ninguém se salvou. Mas só para provocar uma última reflexão: bom seria se houvesse o mesmo engajamento caso o protesto fosse para reivindicar mais investimentos na saúde, na educação, no saneamento básico. Este, sim, seria um exemplo de cidadania bonito de ver.