A mais nova pérola do pastor Silas Malafaia, líder da Assembléia de Deus Vitória em Cristo, desta vez não ficou restrita à verborragia preconceituosa que costuma vomitar em seu programa de tv. O sujeito — o mesmo que andou
pedindo dinheiro do aluguel aos seus fiéis — resolveu incitar o ódio e a discriminação espalhando outdoors de claro conteúdo homofóbico: “Em favor da família e preservação da espécie humana. Deus fez macho e fêmea.”
É lamentável como algumas pessoas ainda insistem em usar o argumento covarde da defesa da liberdade de expressão para rotular, julgar, perseguir. Acham que podem sair espalhando por aí seus pensamentos retrógrados e equivocadamente embasados em fundamentações religiosas na tentativa de pautar a conduta do Estado laico. Isso não é liberdade de expressão. É preconceito. Mais que isso, é a mais absoluta falta de respeito às escolhas individuais.
Ora, se um cidadão resolve conduzir sua própria vida, assumindo posturas que em nada interferem nos direitos das outras pessoas, que pecado estaria cometendo? E aos olhos de que crença?
Então, senhor Silas, a preservação da espécie humana está ameaçada? Só podem viver como casal as pessoas que são capazes de procriar? E os heterossexuais estéreis? Estão condenados à vida assexuada?
A questão é simples, ou pelo menos deveria ser. É contra o casamento gay? Então não case com um gay. Mas deixe que o Estado assegure o direito de quem não pensa da mesma forma. Isso, sim, é liberdade. Mas a lógica da moral homofóbica, que o famigerado religioso dos outdoors alimenta em forma de ira homofóbica, é cega o suficiente para não entender que está ferindo o que há de mais sagrado no mundo, que é a dignidade humana.
Esse verdadeiro crime contra a integridade individual pode ter conseqüências perigosas, que só a intolerância é capaz de incitar. Por enquanto a resposta veio apenas como pichação (na foto abaixo, o que foi feito de um dos outdoors da Alberto Lamego). Tomara que fique só nisso. Mas a coisa pode se tornar séria.

Muitos devem se lembrar da polêmica causada pela participação do cantor Emanuel de Albertin com outra pérola, a canção Adão e Ivo, nas Caravanas da Paz, lideradas pelo então candidato a governador Anthony Garotinho, em maio deste ano. À época, foi tema de
post de Aluysio Abreu Barbosa no blog
Opiniões. Do debate gerado nos comentários, destaco texto do próprio Aluysio, acerca da liberdade de expressão, que transcrevo aqui e assino embaixo:
Sou radicalmente a favor da união de vida entre duas pessoas que assim desejam, sejam ou não do mesmo sexo. Não vejo como a coletividade, aprovando por princípios pessoais ou não esta união, tenha direito a arbitrar sobre isso. O que vc diria se o Estado (ou seu vizinho) se negasse a reconhecer, por exemplo, a sua união, ou considerá-la, digamos, de segunda classe em relação ao Direito Civil, mesmo sendo montada no respeito aos direitos alheios e, sobretudo, em desejo e sentimento recíprocos? A liberdade de expressão só é um direito intocável enquanto respeita limites como este. Não é onipotente, como não deve ser, por exemplo, para um nazista, um racista, ou qualquer outro preconceituoso, incluindo seu vizinho e o Estado, independente da ideologia ou fé. Tanto pior quando o preconceituoso pretende usar como base a vida e pregação libertárias de certo rabi da Galiléia, que desfez os preconceitos do seu tempo diante de uma prostituta, de um coletor de impostos, de um homem de outra fé, de todos os doentes, dos miseráveis, da face de César estampada numa moeda e dos dois ladrões que o acompanharam em sua morte.
E a coisa ainda é muito pior quando, como os homens do Templo de ontem e hoje, o uso do divino é feito com desavexado objetivo de política terrena. Há dois mil anos, por exemplo, foi o que gerou a crucificação daqueles mesmo rabi.
Da teologia ao estado laico, como é o nosso, a união entre duas pessoas, independente de sexo, já é uma conquista de vários tribunais brasileiros. Nosso Judiciário, graças a Deus, não tem esperado a morosidade do Legislativo nessa questão, impondo a regulação social da jurisprudência à omissão da lei. Seja por decisão judicial ou humanidade de base, é um direito que precisa ser preservardo. E quem se coloca contra ele, é, sim, um preconceituoso; pois tem, sim, preconceito. Moralmente, está próximo de quem se nega a dar uma vida digna aos aposentados ou o direito de acesso à medicina a todos, sonegado em vários lugares do Brasil, como têm sido caso destacado, por exemplo, da saúde pública de Campos.