Pequena parte
candida 07/10/2010 10:48
Pequena parte          Cândida Albernaz  Ele sentou na cadeira da sala enquanto ela se acomodava na outra e ficou olhando-a. Talvez esperasse algum comentário. Ou simplesmente pensava no melhor momento de tocá-la.  Ela perguntou sobre seu trabalho. Ele começou a falar do jornal, dos horários inusitados, a busca por matérias que atraíssem o leitor, o desejo de um dia poder publicar o que quisesse... E seguiu falando do time de futebol pelo qual torcia, o técnico que deveria ser trocado, o jogador tal que mal sabia chutar uma bola e por isso e aquilo o time continuava a perder...  Ela o ouvia absorvendo suas palavras como se fossem únicas, observando-o. O jeito como mexia a boca grande e cheia, aliás, foi aquela boca a primeira coisa que chamou sua atenção. A forma como passava as mãos nos cabelos negros. O assunto agora era o amigo Bruno, de quem ela nunca ouviu falar, que terminara com a namorada e aproveitava todas. Ele fazia o mesmo.  Os olhos pretos embaixo da sobrancelha grossa, a olhavam durante a conversa em que ela fazia uma nova pergunta ou concordava com algo dito por ele.  As mãos com dedos longos pareciam hipnotizá-la, no movimento de pegar a taça de vinho tinto sobre a mesa e beber. Percebeu seus olhos sobre ele e sorriu confiante. Dentes brancos iluminaram o rosto jovem com a barba por fazer.  Não entendia bem porque estava ali. Sabia muito bem porque estava ali.  Notou que era ele quem a examinava agora. Sua vez de sorrir e comentar sobre o que gostava, de um filme ou outro que assistira, ou alguma história interessante que vivera. Sempre evitara falar de si mesma, preferia ouvir.  Fez uma nova pergunta a ele, queria saber sobre suas expectativas dentro da profissão. O que pretendia mesmo era ouvir sua voz mais um pouco. Respondeu com empolgação, gostava do trabalho e tinha prazer em conversar sobre o assunto.  Ela olhou em volta, sabia que no cômodo ao lado havia um quarto e uma televisão que ele ligara. O som chegava baixinho até eles.  Conheceram-se há um mês, e vinham se encontrando. Dançaram e conversaram um pouco na primeira vez. Na segunda ele tentou levá-la a um “lugar mais tranqüilo”, mas ela teve receio. No terceiro e quarto encontro, a proposta se repetiu, até que resolveu ceder. Sentia-se atraída.  Agora estava ali, naquela sala sentada diante dele e morrendo de vontade que a tocasse. Ele deve ter percebido, porque levantou, e chegando perto dela, puxou-a pela mão.   *    *    *  Deitados um ao lado do outro, ele estendeu o braço para que encostasse a cabeça em seu ombro. Falou sobre qualquer coisa sem importância e ela pensou que gostaria de mais um beijo e de sentir as mãos dele em seu rosto. Não pediu que fizesse isso e ele não fez.  Era tarde, precisavam ir. Vestiram-se e na saída ele abriu a porta para que passasse.  Dentro do carro, colocou um cd. Ouviram música durante o curto trajeto até a casa.  Em frente ao portão, um beijo rápido e um ligo para você.  Desceu do carro e parada na calçada, olhou enquanto este se afastava.  Entrou na sala e não tocou no interruptor.  Ele não sabia que quando uma mulher se entrega a um homem, não é apenas seu corpo que ela está oferecendo, pequena parte de sua alma está indo junto.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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