Pequena parte
Pequena parte
Cândida Albernaz
Ele sentou na cadeira da sala enquanto ela se acomodava na outra e ficou olhando-a. Talvez esperasse algum comentário. Ou simplesmente pensava no melhor momento de tocá-la.
Ela perguntou sobre seu trabalho. Ele começou a falar do jornal, dos horários inusitados, a busca por matérias que atraíssem o leitor, o desejo de um dia poder publicar o que quisesse... E seguiu falando do time de futebol pelo qual torcia, o técnico que deveria ser trocado, o jogador tal que mal sabia chutar uma bola e por isso e aquilo o time continuava a perder...
Ela o ouvia absorvendo suas palavras como se fossem únicas, observando-o. O jeito como mexia a boca grande e cheia, aliás, foi aquela boca a primeira coisa que chamou sua atenção. A forma como passava as mãos nos cabelos negros.
O assunto agora era o amigo Bruno, de quem ela nunca ouviu falar, que terminara com a namorada e aproveitava todas. Ele fazia o mesmo.
Os olhos pretos embaixo da sobrancelha grossa, a olhavam durante a conversa em que ela fazia uma nova pergunta ou concordava com algo dito por ele.
As mãos com dedos longos pareciam hipnotizá-la, no movimento de pegar a taça de vinho tinto sobre a mesa e beber. Percebeu seus olhos sobre ele e sorriu confiante. Dentes brancos iluminaram o rosto jovem com a barba por fazer.
Não entendia bem porque estava ali. Sabia muito bem porque estava ali.
Notou que era ele quem a examinava agora. Sua vez de sorrir e comentar sobre o que gostava, de um filme ou outro que assistira, ou alguma história interessante que vivera. Sempre evitara falar de si mesma, preferia ouvir.
Fez uma nova pergunta a ele, queria saber sobre suas expectativas dentro da profissão. O que pretendia mesmo era ouvir sua voz mais um pouco. Respondeu com empolgação, gostava do trabalho e tinha prazer em conversar sobre o assunto.
Ela olhou em volta, sabia que no cômodo ao lado havia um quarto e uma televisão que ele ligara. O som chegava baixinho até eles.
Conheceram-se há um mês, e vinham se encontrando. Dançaram e conversaram um pouco na primeira vez. Na segunda ele tentou levá-la a um “lugar mais tranqüilo”, mas ela teve receio. No terceiro e quarto encontro, a proposta se repetiu, até que resolveu ceder. Sentia-se atraída.
Agora estava ali, naquela sala sentada diante dele e morrendo de vontade que a tocasse. Ele deve ter percebido, porque levantou, e chegando perto dela, puxou-a pela mão.
* * *
Deitados um ao lado do outro, ele estendeu o braço para que encostasse a cabeça em seu ombro. Falou sobre qualquer coisa sem importância e ela pensou que gostaria de mais um beijo e de sentir as mãos dele em seu rosto. Não pediu que fizesse isso e ele não fez.
Era tarde, precisavam ir. Vestiram-se e na saída ele abriu a porta para que passasse.
Dentro do carro, colocou um cd. Ouviram música durante o curto trajeto até a casa.
Em frente ao portão, um beijo rápido e um ligo para você.
Desceu do carro e parada na calçada, olhou enquanto este se afastava.
Entrou na sala e não tocou no interruptor.
Ele não sabia que quando uma mulher se entrega a um homem, não é apenas seu corpo que ela está oferecendo, pequena parte de sua alma está indo junto.