Podia ser pior
Podia ser pior
Cândida Albernaz
E essa fila que não anda? Vou chegar atrasada no serviço e a patroa vai encher o saco. O Nandinho está com febre outra vez e não dormi a noite inteira. Vou ter que ir com ele para a casa de dona Márcia. Já sei como será. Vai dizer que não tem problema, coitadinho, mas quando o patrão chegar, não deixe que o menino faça barulho. Sabe como ele é...
Sei sim. Sei que impedir que meu filho, com dor de ouvido e febre não faça nenhum barulho, é impossível. E se ele chorar? Tem só três anos. Nós que somos adultos quando sentimos alguma coisa botamos a boca no mundo e choramos... Imagina uma criança.
Eu devia ir para casa quando saísse daqui. Mas dona Márcia vai oferecer, é, O-FE-RE-CER um jantar esta noite para os amigos. Prometi que faria a comida. Ela falou que vai me dar um dinheirinho por fora. Estou precisando, não posso recusar, principalmente agora que minha mãe foi morar com a gente. Estava na casa do meu irmão, mas a nora começou a implicar porque ela dormia na sala e com isso a desarrumava.
Não quer ter trabalho aquela lá. Também não é mãe dela, não tem obrigação. A diferença é que minha cunhada tem uma pessoa que cozinha, limpa, o mesmo que eu faço na casa de dona Márcia. Meu irmão vive com mais fartura do que eu. A mulher dele botou mamãe para dormir na sala de propósito. Bem que podia ficar no quartinho onde ela guarda uns pratos e panos que pinta. Diz que é artista e que precisa de um espaço só para ela.
Pois sim! Nunca vendeu um daqueles pratos ou panos. Já vi vários iguais. Copia tudo de umas revistas que compra. Se tivesse talento, mas sai tudo mal feito. Outro dia me levou até lá como se fosse um santuário, e mostrou o que estava fazendo. Falei que era bonitinho. Pensa que gostou? Que nada! Disse que bonitinho não era adjetivo para o trabalho dela. E eu lembro o que é adjetivo? Fiz escola faz tanto tempo. Hoje só sei o que a vida me ensina.
A verdade é que botou mãe na sala com tanto espaço sobrando para uma cama naquele lugar. Claro que ela não conseguia dormir direito, e quando a porta da rua abria, entrava um vento que fazia com que gripasse.
Tirei de lá e trouxe para minha casa. Cuido melhor dela e não fico devendo nada para ninguém. Cunhada artista! Dá até vontade de rir.
Está chegando a minha vez. Nandinho continua quente. Dormiu um pouquinho, sinal de que a dor diminuiu. Não gosto de ver meu filho sofrer, não. Tão engraçado quando está com saúde. Eu e o pai ficamos iguais a bobos com ele, rimos de qualquer gracinha que faz.
Essa noite ele quis ajudar. Falou para eu dormir que ele olhava nosso filho. Não deixei. Sabe por quê? Ele trabalha o dia inteiro também, como eu, mas mexe com máquina. Um amigo perdeu um dedo dia desses. Falta de atenção. Não quero que meu marido se arrisque.
Bom pai, ele. Vivemos uma vida apertada, mas não falta o principal.
Homem trabalhador, responsável. Um pouco sério demais, mas não dá para ter tudo nessa vida.
Quando falei que mãe teria que viver com a gente, olhou nos meus olhos: trás para cá, damos um jeito. É isso que admiro nele. A segurança que me dá. Está sempre pronto para proteger a mim e a nosso filho, nunca deixei de contar com ele.
Enfim vamos ser atendidos por um médico. Espero que esse tenha paciência para me ouvir falar sobre o que meu filho sente, porque tem uns, que mal dão tempo de explicar. Olham para a criança, vêem como está a garganta e receitam. Não gosto desses, nem sei por que estão ali. Deviam trabalhar em outra profissão.
Vai dar tempo de preparar tudo na casa de dona Márcia. Coloco o Nandinho num colchonete lá atrás e faço meu serviço. Espero que ele não chore, não é do meu feitio incomodar os outros. Menos ainda ser chamada a atenção. Quero ver quanto dona Márcia vai me pagar.
Chamaram meu número: -boa tarde, doutor. Meu filho está com febre há dois dias...