Agora não tem jeito
candida 02/09/2010 14:28
Agora não tem jeito                                                                                                 Cândida Albernaz             - Não vem que não tem. Você foi avisado e mais de uma vez. Insistiu, cara. Insistiu.             - Fala com ele. Juro que entro nos eixos. Foi o Maneco que veio me cobrar uma dívida e não tive de onde tirar.             - Você entrou pelo cano. Não posso te ajudar, brother. Já era! E tem mais. Vou indo que não quero que me vejam conversando com você.             - Que é isso? Vai me largar na pior? Sou teu companheiro, somos como irmãos.             - Se ferrou brother. Perdeu e eu tô fora.             Tucão virou as costas e saiu correndo como se alguém o perseguisse.             Preciso pensar no que vou fazer. Talvez tenha sorte e eles aceitem me ouvir. Duvido!             Poxa! Só peguei a carteira daquela dona, porque não tinha nem para o pão. Dei também um soco na cara dela quando tentou resistir. Como podia adivinhar que era tia do Pedro Zarolho? A velha nem mora aqui. Devia ter ido para outra área, dei bobeira e agora me dei mal.             Nunca fiz nada muito sério. Não aqui dentro! Uma carteira aqui, uma tv ali, só bobagem. Mas também, o que ia fazer? Minha cara está manjada lá fora. Se os homens me pegam, não chegaria nem no xadrez. No caminho mesmo, já pagava o que devia.             Não tirei nada de importante daqui do bairro, e olhe que tenho capacidade. Fui muito respeitado no meio. Agora é que tô meio caidaço porque tinha que dar um tempo. Mas fome não dá para passar.             A mulher em casa embuchada. Meu primeiro herdeiro. Macho sim senhor. Macho como o pai que não costuma fugir de nada.             Falei com Soninha que não era hora, mas a danada me enrolou. Sabe como é, carne fraca, fui com tudo!             Não me arrependo. Era hora de ter um garoto correndo por aqui. Se bem que agora não sei como vai ser. Ela não trabalha, porque proibi. Mulher minha só sai de casa comigo.             Soninha sempre foi bonita e eu tava de olho nela fazia tempo. Não me dava a menor, até que apareci com um carrão e reformei o barraco. Foi uma fase boa. Tinha sobrando e quando consegui chegar perto dela, sabia que seria minha. Mando uma conversa que não é para qualquer um e depois, quando as garotas vêm comigo uma vez, já se amarram. O gosto do negão aqui é bom demais.             Fase ruim, essa. Mas em casa não falta nada. A mulher pede, eu arranjo. De um jeito ou de outro.             Tivemos uma discussão dia desses porque ela queria uma televisão maior. E Soninha não é fácil, quando coloca alguma coisa na cabeça, não pára de falar. E ofende também, me chamando de frouxo. Dei uns tapas e ela calou a boca, mas por pouco tempo, que não tem medo. É isso que gosto na minha garota. É atrevida. Dá o maior tesão essa valentia dela.             Chegando a casa, pego uns trapos e tento sumir por uns tempos. Vou mandar ficar com a mãe dela até tudo se acalmar. Não gosto da velha, não. Ela não queria que a filha fosse morar comigo. Dizia que eu ainda ia acabar mal. A desgraçada rogou praga e agora tô eu aqui.             A casa escura ainda? Será que minha mulher saiu sem minha ordem? Não vou poder fazer nada por enquanto, mas deixa voltar...             Meto a mão no interruptor. Soninha está sentada no único sofá que temos. A cabeça recostada parece dormir, não fosse o fio grosso de sangue que desce de sua testa. As duas mãos abraçam a barriga. Quis proteger nosso filho.             Pedro Zarolho está em pé ao lado dela. Os outros dois com um sorrisinho idiota no meio da cara.             Não tento falar, que não adianta. Sigo os três e na rua olho para cima. Sei aonde vão me levar e não preciso dizer nada. Só rezar para que acabe rápido.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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